terça-feira, 20 de outubro de 2020

Chasm City

Chasm City é o segundo volume de livros de Alastair Reynolds passado no universo de Revelation Space. No entanto, é completamente diferente do primeiro livro da série (cujo título dá nome ao cenário). Chasm City é um livro muito mais focado em personagens, com uma trama detetivesca e um ritmo (e cenário) muito semelhante ao de Blade Runner. De fato, este segundo volume é tão diferente do primeiro que é difícil conceber que ambos se passam no mesmo cenário. Sim, as referências ao livro anterior - e ao cenário em sí, portanto - estão lá, mas o ritmo, o foco e a trama dessa história são completamente diferentes. 

No entanto, nas palavras do próprio autor, encontradas no epílogo da coletânea Galactic North (referindo-se ao cenário de Ringworld, de Larry Niven, mas perfeitamente adequadas à sua própria obra, como Reynolds estava completamente ciente quando escreveu): "As conexões estão lá. Encontrá-las é metade da diversão." E, de fato, encontrar as conexões, e mesmo tentar extrapolar alguns dos fatos que serão descobertos ou mencionados pelos personagens foi extremamente divertido ao longo do livro. 

Essas conexões, no entanto, são bastante superficiais, e a trama do primeiro livro não tem qualquer efeito sobre o segundo livro. Eu fiquei meio livro esperando para encontrar algum ponto de contingência, até desistir ao perceber que, além de se passarem no mesmo cenário, as duas tramas não tinham qualquer conexão. Eu esperava um pouco mais de... Sintonia entre as duas obras, mas minha esperança foi em vão. Ao menos eu vou de encontro do terceiro livro da série desarmado de qualquer expectativa de que ele possua ligações mais do que superficiais com os dois livros anteriores - e eu gostaria de ter lido Chasm City munido desse preceito, para não passar tanto tempo procurando a conexão entre as duas histórias. O livro é excelente, mas certamente não estar esperando qualquer conexão com o livro anterior teria feito a jornada pela trama muito mais prazerosa. 

Independente das desconcertantes diferenças com relação ao primeiro livro, Chasm City é excelente e extremamente instigante, e não só será atraente para fãs de ficção científica, mas também para leitores de histórias deteviscas (principalmente aqueles que tiverem um gosto particular por tramas rocambolescas)! 

Leitura fortemente recomendada!

Post Scriptum: Antes de ir para o próximo livro da série, Redemption Ark, eu sugiro fortemente a leitura do conto Great Wall of Mars e, se possível, Glacial (apesar deste segundo conto não ser tão relevante). Acredite, vai fazer bastante diferença! 

A resenha que eu tenho para oferecer termina aqui, e, adiante, haverão algumas revelações sobre a trama, para minha apreciação pessoal futura. Leiam por sua própria conta e risco. 


---REVELAÇÕES SOBRE A TRAMA---


Não tenho certeza se Tanner Mirabel (engraçado como, escrevendo o nome agora, ele me lembrou dos wafers da minha infância, mas ao longo do audio, isso não aconteceu. O nome sempre soou algo familiar, mas provavelmente o fato de ser pronunciado em outro idioma impediu que eu fizesse a conexão diretamente) era realmente Sky Haussman (cujo nome foi responsável pelo nome do planeta Sky's Edge, já que ele foi o responsável por vencer uma corrida de "naves arca" até o planeta) ou se essa parte das memórias dele foram simplesmente causadas pelo virus com o qual ele foi infectado. 

Afora isso, sim, temos aliens! Os Grubs (lagartas?) são uma raça anterior à Dawn War que, ou estavam do lado vencedor ou (o que é mais provável, considerando sua natureza não violenta) não tomaram parte dela. Eles possuem uma consciência coletiva de três bilhões de anos (portanto bem anterior à Dawn War) e entraram em contato com os Inibidores em algum ponto entre o fim da guerra e uns 300 milhões de anos atrás. Eles tentaram fugir dos Inibidores, se escondendo em planetas com interferências magnéticas e ficando "em silêncio" por algum tempo, até terem certeza que os Inibidores não estavam mais nas proximidades. O primeiro contato das Lagartas com os Humanos foi através de Sky Haussman, enquanto ele se dirigia para a nova colônia e posteriormente uma das criaturas, soterrada em Chasm City se tornou algo como um "animal de ordenha" para a produção de "Fuel", a droga que mantém os imortais.... Bem, imortais! 


domingo, 9 de agosto de 2020

Revelation Space

Eu entrei em contato com o trabalho de Alastair Reynolds enquanto pesquisava algumas questões referentes à clonagem e criogenia, o que me levaram à um conto dele, Glacial, que eu eventualmente vou resenhar aqui. Depois de ouvir o supracitado conto, eu fui pesquisar o autor, e descobri que ele possuía uma extensa bibliografia já publicada, desde o ano 2000. Fui atrás do livro de contos que continha Glacial, e eventualmente catei não só os outros livros de contos dele, mas também seus romances mais extensos. Reynolds é um excelente autor, com uma imaginação excelente, auxiliada por um conhecimento científico muitíssimo bem fundamentado - ele é possui um phd em astronomia e trabalhou para a Agencia Espacial Européia por vários anos, antes de eventualmente se aposentar para se tornar um escritor em tempo integral. 

Ao invés de resenhar as obras de Reynolds na ordem que ouvi - comecei pelas coletâneas de contos dele - eu decidi ouvir o primeiro livro publicado por ele, em 2000, e começar as resenhas a partir daí. Acredito que vou ouvir alguns contos das coletâneas mais uma vez quando chegar nelas outra vez, já que ouvi eles durante um período de falta de conexão com a internet no meio do distanciamento social, e algumas vezes os audiobook não eram mais do que barulho de fundo enquanto em fazia as coisas do dia-a-dia, o que significa que não absorvi realmente o conteúdo de mais de um dos contos. Assim, vou resenhar os livros da série Revelation Space antes de ir para os livros de contos - e outros romances. 

Revelation Space é o primeiro livro de uma série que recebe o mesmo nome desse primeiro volume, e que, até aqui, se constitui de quatro livros. Além disso, alguns contos que eu ouvi dele se passam no mesmo cenário, embora esse não seja necessariamente o caso em todos eles (os contos, no caso). 

Revelation Space é uma grande obra de Space Opera, que se estende por dezenas de anos e lida com os resultados dos humanos encontrando os resquícios de da cultura Amarante, uma antiga civilização alienígena durante suas explorações da galáxia. Essa raça, há muito extinta e sem apresentar sinais de ter atingido a capacidade tecnológica de viagem interestelar, assim como várias outras encontradas pelos humanos antes, possui, no entanto, características distintas que fazem com que uma série de questões relativas ao Paradoxo de Fermi e à teoria do Grande Filtro sejam levantadas. 

O livro se arrasta em tramas fracamente interligada pelo primeiro terço do livro, mas eventualmente as peças começam à se montar de modo efetivo, e a sombra de uma grande trama começa a aparecer. No final do livro, todas as peças estão se encaixando de modo tão efetivo que é possível ir 

Apesar da forma de escrita de Reynolds nesse primeiro livro ser bastante, digamos, genérica, se destacando pelas idéias apresentadas e dos mistérios que vão de desvelando à medida que sua trama se desenvolve. No entanto em livros posteriores, ele desenvolve uma voz narrativa muito própria, com uma certa estranheza de descrições e uma vaguidão de descrições que tornam suas narrativas uma experiência distinta. Revelation Space, no entanto, ainda não possui essas características, mas o mistério da trama, o desenvolvimento dos personagens e as idéias propostas definitivamente são mais do que suficientes para manter o leitor (ou ouvinte, dependendo do caso) bastante interessado. 

Este primeiro livro da série é excelente e extremamente instigante, e para qualquer fã de ficção científica, a leitura é fortemente recomendada!

A resenha que eu tenho para oferecer termina aqui, e, adiante, haverão algumas reveleçaões sobre a trama, para minha apreciação pessoal futura. Leiam por sua própria conta e risco. 


---REVELAÇÕES SOBRE A TRAMA---


Cerca de um bilhão de anos atrás, a galáxia possuía uma série de espécies alienígenas distintas, que se desenvolveram de forma mais ou menos previsíveis dentro da teoria de Fermi. Eventualmente, essas raças, atingindo capacidade de viagens interestelar, entraram em guerra, e se destruíram, assim como causaram muitos estragos no continuum espacial da galáxia. Uma espécie de inteligência artificial, conhecida como Os Inibidores, se desenvolveu durante ou logo após esta guerra (dawn war) e, para evitar que o mesmo processo recomeçasse, destruiu as raças sencientes ainda existentes ao longo da galáxia e criou meios de inibir o desenvolvimento de culturas desenvolvidas, para evitar que uma nova Dawn War se iniciasse e causasse mais danos à galáxia como um todo. Eventualmente, no entanto, a rede de aparatos inibidores parou de funcionar com eficiência, e uma raça senciente, os Amarentes, conseguiu atingir capacidade de viagens interestelar. Eles entraram em contato com um dos aparatos de inibição nas proximidades de seu sistema solar, e isso fez com que a máquina voltasse sua atenção para a raça, extinguindo-a. Alguns membros da raça, no entanto, conseguiram escapar, transferindo sua consciência para um estado extra dimensional (na forma de dados eletrônicos, pelo que eu consegui compreender) chamado "Shroud" e deixando uma espécie de "armadilha" em um planeta cuja forma de vida é composta por bactérias que, embora não sejam aparentemente conscientes, são capazes de gravar os padrões de criaturas com as quais ela entra em contato, assim como imprimir esses padrões em futuras criaturas sencientes que entrem em contato com as bactérias - essas bactérias de transferência de padrões estão espalhadas pela galáxia toda, mas pelo que eu entendo, apenas no mundo próximo ao sistema solar Amarente foi deixada uma "armadilha" no padrão. Dentro dessa rede de padrões, os Amarentes deixaram uma forte impressão de procura pelo aparato inibidor. Se a cultura entrasse em contato com o aparato e conseguisse sobreviver ao contato, isso enviaria um sinal para o Shroud, avisando aos Amarentes extra dimensionais que era seguro voltar à galáxia. 

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Grunhidos e reclamações de isolamento social

Quem me conhece sabe que eu não sou de reclamar (na verdade, eu geralmente sou o otimista chato do rolê....) e que o Café com Letra não é o ambiente onde eu exponho muito a minha vida cotidiana, mas putamerda, PUTAMERDA, essa semana tá foda!

Eu sou tabagista inveterado, tendo fumado por mais da metade da minha vida. Graças à isso, uma parte da minha grana fica separada especificamente pra fumo - uns 20 pila por mês, atualmente, porque desde que começou o distanciamento social e a Taverna do Valhalla fechou, eu estou reduzido à fumo de palheiro e um eventual cigarro de presente que algum amigo deixa por aqui quando me visita  (o famoso "cimidão") porque não dá pra tentar manter um patamar muito elevado em tempos de crise; é só pra manter o vício, mesmo. Eu calculo isso muito bem porque, com a grana extremamente apertada desde o começo da pandemia, eu preciso fazer um racionamento eficiente de fumo pra não ficar sem. Quem tem algum vício sabe que ficar em abstinência em situações de tensão - e essa maldita pandemia tá sendo estupidamente tensa! - é um troço que faz o cara ficar irritado  por nada, sem conseguir se concentrar e planejar de maneira decente.

"Tá, mas porque o cara tá falando sobre o vício dele em cigarros? Qual é o ponto dessa conversa?" pergunta alguém lendo essa publicação.

Bom, vamos aos acontecimentos da semana. Me acompanhem.

Eu estou sem o meu trabalho de praxe, que era a Taverna do Valhalla (pra quem não sabe, sim, era uma taverna, taverna mesmo, o mais medieval que eu consegui recriar) e pra pagar as contas, estou fazendo a única coisa que eu sei fazer de forma profissional: ilustrações. Mas como eu estava com muito pouca prática em trabalhar com trabalho de encomenda - e o ritmo atual definitivamente não está ajudando nisso - as duas ilustrações que eu peguei esse mês (que obviamente não serão suficientes pra pagar as contas, mas isso é outra história) me levaram vários dias dias pra resolver. Não só por conta da falta de prática, mas também do nervosismo, da insegurança e da tensão causadas pela completa falta de dinheiro e da pandemia em sí. Daí que meu atelier fica num jardim de inverno, e como tem feito dois graus negativos durante as noites por aqui, trabalhar depois que o sol se põe tá impossível porque paredes de metal e vidro não são uma boa opção pra isolar do frio. Decidi mudar o atelier pra sala, onde fica a lareira da casa, e fechar o jardim de inverno pra ter menos roubo de calor de lá. A idéia era poder entrar noite adentro trabalhando, pondo um foguinho na lareira se o frio começasse a arrepiar, ao invés de correr pra cama quando perco a sensação dos pés ai pelas 8 da noite.

Segunda-feira, então, resolvi fazer a mudança do atelier. Trouxe o micro antes de tudo e quando fui ligar o troço, nem sinal de vida. Entrei em pânico, já que em isolamento social, essa coisa barulhenta (meu micro tem um problema no cooler e faz uma barulheira infernal quando está frio) é meu maior contato com outros humanos, pra não dizer que, sem ele, eu nem sequer tenho como trabalhar. Meche daqui, torce dali, era o cabo de energia. Tá, sem grana nenhuma sequer pra comer direito, pensei "fodeu". Num ato de puro desespero, resolvi vasculhar a casa e, num desses acasos, achei um cabo velho perdido em uma gaveta esquecida - e o troço funcionou! Micro voltou a vida e eu só perdi toda a segunda-feira de trabalho. Tenso, mas podia ser pior.

Terça, pra tentar não perder tempo, decidi que ia trabalhar na mesa de desenho que ainda estava no jardim de inverno e só trazer a sacana pra sala no fim da tarde, quando estivesse frio demais pra seguir trabalhando. Trabalhei bem ao longo do dia, e quando o frio começou a se apresentar, decidi que era hora de parar o trabalho, preparar um café quentinho e levar a mesa pra sala. Quando fui mover a quatro-pernas, plec! Quebrou um apoio do tampo. Ok, tenho uma segunda mesa, que estava embaixo de um monte de tralhas na taverna. Sem pânico. Fui dormir porque tava escuro, frio e chuvoso demais pra pensar em traszer a mesa da Taverna pra casa (são prédios separados por uns cinco metros, mas frio, chuva e escuridão, depois de já ter quebrado uma mesa, não me pareceram condições com as quais eu queria lidar naquele momento).

Na quarta, comecei o translado da segunda mesa. Perdi um baita pedaço do dia nisso, porque a mesa estava debaixo de pilhas de livros e caixas de tralhas da Taverna, e eu precisei reorganizar tudo em outros lugares pra que não ficasse tudo esparramado juntando bicho. Mas apesar disso, consegui trazer a mesa sem incidentes, instalei ela e consegui terminar e mandar o desenho pro cliente logo antes de anoitecer - o cliente não gostou do resultado e eu estou de volta na mesa às voltas com a ilustração, porque, obviamente, o dia não podia ter sido tão bom assim. 

Hoje, antes de começar a trabalhar, decidi trazer o roteador pra perto do micro. Até ontem, estava usando o wi-fi dele, mas a internet fica uma lerdeza sem fim, e mudar um roteador de sala não é uma coisa muito complexa, certo? Tava trazendo o troço, quando, no meio da função, as gatas atacaram o fio da internet, eu me desequilibrei, cai e, no processo, pisei na ponteira do fio, obviamente esmigalhando o treco debaixo dos meus cento e trinta quilos. Foi-se o fio de 10 metros - que vem lá da Taverna, faz um monte de voltas e termina no outro lado da casa. Daí tive que enjambrar com um fio que tem metade do comprimento, e tá esticado no meio da casa, dividindo o lugar em duas partes - e como entra pela porta que eu mais uso pra ir ao pátio, certo que eu vou trupicar nele e derrubar o micro todo no processo, não tenho nenhuma dúvida disso.... Além disso, o roteador não gostou do plugue do cabo novo, e não funcionou de modo algum, então estou sem roteador, com o fio ligado direto no micro, o que significa que não tenho internet no celular, a menos que eu vá lá pra Taverna, onde fica o roteador central....

Óbvio que no meio dessa confusão toda, eu no nervosismo, fumei feito um navio a vapor navegando pelo Mississípi, e meu fumo acabou uma semana antes do que eu previa.
Agora tou aqui, sem fumo, com uma ilustração pra fazer, com o entusiasmo de um cágado manco e a tensão mais elevada do que os fios da companhia de energia elétrica, como todo e qualquer viciado em abstinência.

E não, nada disso tem qualquer relevância ou pertinência para o blog, mas porra, eu precisava desabafar um pouco!

Post Scriptum: Originalmente, fiz essa publicação - menos extensa e detalhada - no facebook, mas fui convencido por uma amiga à postar aqui (espero que ela venha dar um oi!). Aparentemente, as pessoas se identificam com esse tipo de situação, e eu achei que não ia doer trazer um pouco da minha vida pessoal pra cá. Mesmo porque, daqui uns dois anos, quando eu tiver esquecido completamente dessa pandemia, vai ser interessante ler um relato do cotidiano dessa época tão.... Surreal que a gente tá vivendo no país.

Pós Post Scriptum (??): Sempre gostei da expressão "grunts and rants", mas definitivamente ela não tem a mesma graça em português, como dá pra perceber pelo título dessa publicação....

domingo, 12 de julho de 2020

The Three Body Problem

Vou começar dizendo que esse foi um livro difícil.

The Three Body Problem (cujo nome deriva do problema de física conhecido como, bem, problema dos três corpos) é um livro de ficção científica escrito pelo autor chinês Liu Cixin. Além de ser extremamente carregado de questões filosóficas e de problemas de física bastante complexos - que eu não consegui entender nem parcialmente, mesmo tendo feito várias pausas no audiobook pra pesquisar sobre as questões tratadas - tem uma estrutura bastante complicada por ser escrito de forma não linear, com a narrativa indo e vindo desde a China da década de 60, durante a revolução cultural que ocorria na China naquela década, até os dias atuais - passando por vários momentos cronológicos entre esses dois pontos. A narrativa não linear, somada aos problemas de física e filosofia apresentados e o estilo de escrita do autor tornam esse livro um desafio bastante considerável.

Eu não sei se o estilo de escrita de Liu Cixin é característico de autores chineses como um todo, porque tive poucas oportunidades de ler livros de autores chineses (e nenhum deles foi na última década), mas ela é mais similar à escrita de autores japonêses que li do que aqueles autores ocidentais, o que me leva a crer que a forma de escrita (longa, arrastada, reflexiva, sem um ponto-de-vista definido muitas vezes) é uma característica da literatura oriental e não apenas desse autor.

A trama em si trata de uma investigação policial sobre mortes recentes de eminentes pesquisadores da área da física, o que faz com que o detetive do caso procure a ajuda de um pesquisador de nanotecnologia para tentar fazer sentido nas questões científicas sobre as quais o tal detetive tem muito pouco conhecimento. A investigação acaba esbarrado em uma conspiração governal global que, de alguma forma, está ligada à um programa de realidade virtual que se passa em um planeta que reside em um sistema de três sois.
Sim, investigações policiais, conspirações governamentais, jogos de realidade virtual, física e filosofia, tudo dentro do mesmo livro.

"- Tá, Domenico" pergunta alguém depois de ler o que eu escrevi até aqui "e a parte de ser um livro de ficção científica?" Bem, acontece que a tal conspiração global envolve alguns assuntos bastante convulsos, que basicamente permitem que algumas idéias de física experimental (como entrelaçamento quântico) além de áreas por enquanto pouco exploradas (como nanotecnologia) sejam usadas como ferramentas eficientes, incluindo, obviamente, armas.

É, física quântica, nanotecnologia, paradoxos de física e realidade virtuais. Imaginem isso em uma narrativa não linear.

Eu já mencionei que esse livro é complicado?

Bom, Three Body Problem é o primeiro de uma trilogia de livros (Remembrance of Earth's Past), e basicamente serve pra dar o chute inicial na história, apresentando a conspiração em si, que certamente será explorada nos outros dois livros.
Eu levei semanas pra conseguir ouvir esse livro, e ainda vou levar algum tempo pra me recuperar dele - e avançar para o próximo livro da trilogia. 

Vale a pena como leitura? Com certeza. Ele é coeso e bem escrito, mas extremamente complexo em seus conceitos e estrutura de narrativa.

Post Scriptum: vou deixar, adiante, algumas linhas de resenha pessoal, para que eu possa lembrar de pontos importantes do livro pra quando for voltar pra série - o que deve levar algum tempo. Se alguém quiser ler, fique à vontade, mas o conteúdo terá sérias revelações sobre a trama! O material adiante serve como guia pra eu não me perder na leitura (eu já mencionei que esse livro é complicado....?) e tentar lembrar da estrutura cronológica dos acontecimentos.


***REVELEAÇÕES SOBRE A TRAMA ADIANTE!!!***

Então, sim, alienígenas. É claro que há alienígenas.

A parte genial sobre eles é que não há alienígenas na terra. Eles existem em um sistema solar distante, que possui três sóis, e foram a inspiração para a criação do tal jogo de realidade virtual, já que eles tem sérios problemas com o seu sistema solar trinário, e estão à beira da extinção.

Como a comunicação com os tais alienígenas foi feita apenas por rádio, eles são retratados no livro como sendo idênticos à humanos, mas eu duvido que seja o caso.
Enfim.

Ye, a primeira pesquisadora que entrou em contato com os alienígenas, na década de 70 (depois de ter escapado da revolução cultural da década anterior, onde o pai dela foi morto por suas "idéias reacionarias" leia-se: Aceitar que as teorias de um ocidental sobre física, um sujeito chamado Einstein, estavam corretas) e ela foi considerada uma espécie de traídora da cultura chinesa. Graças à isso, Ye acha que a humanidade é um saco de bosta e, quando entra em contato com sinais de rádio alienígenas meio que sem querer, descobrido que eles desejam conquistar a terra e erradicar a humanidade, manda um sinal indicando a posição do nosso planetinha na esperança que os aliens venham mesmo e exterminem os terráqueos.

Ye acaba compartilhando essa informação com um playboy antiespecista (Mike Evans) em algum momento na década de 90, acho, e Evans usa os recursos do pai, um empresário do petróleo, pra conseguir um navio cargueiro e tentar se comunicar com os aliens - o que ele consegue. Dessa comunicação surge o jogo de realidade virtual, porque alguns membros do grupo formado por Evans (ETO, Earth-Trissolarian Organization) acham que podem resolver o problema pra que os alienígenas não nos invadam. Outros membros do ETO estão tentando preparar a humanidade para a chegada dos aliens (prevista pra 450 anos no futuro) na forma de uma resistência, e outros ainda desejam uma fusão pacífica entre humanos e trissolarianos.

Os trissolarianos, por sua vez, querem a subjugação da terra, e com a ajuda de algumas pessoas como Ye - que querem que a humanidade se exploda mesmo - tem eliminado cientístas que desenvolvem tecnologias que podem fazer com que os humanos desenvolvam métodos de defesa eficientes contra os trissolarianos (que obviamente tem uma tecnologia muito mais avançada do que a nossa).

É uma trama bem interessante, apesar de algo convulsa, e tem várias partes técnicas que me escapam totalmente a compreensão (como a comunicação por ressonância quântica) que eu considero como uma parafernália fictícia, porque meu cérebro não consegue acompanhar a trama não linear, a narrativa oriental e as questões filosóficas e históricas da China - tudo isso em audio e em inglês - e ainda processar todas as informações técnicas. Alguma coisa tem que ficar pra trás!

domingo, 24 de maio de 2020

The Hour of the Dragon

Eu já li todas as histórias em quadrinhos do Conan, tanto as produzidas pela Marvel quanto pela Dark Horse. Eu também gosto dos filmes protagonizados pelo Arnoldo, o Lavrador Negro - sim, ambos os filmes - e tenho uma apreciação considerável pelo cenário criado nessas publicações.
Mas ouvir um conto original de Howard pela primeira vez foi uma experiência surpreendente. Eu admito que esperava uma escrita crua, até um pouco pobre, devido à época em que foi escrita e ao tipo de meio no qual era publicado.
Ledo engano.
Foi realmente surpreendente ver o modo elegante com o qual Howard tece sua trama com uma escrita vivaz e energética, sendo capaz de, com poucas palavras, descrever com precisão cada personagem da trama, além de adicionar, de forma totalmente orgânica, a história do seu cenário na narrativa. A escrita é fluida embora enxuta, os diálogos são coerentes e as falas honestas. Tudo é eficiente.
Howard é um autor de personagens, e se há uma pequena falha em sua escrita, são suas descrições de lugares. Todo o ambiente fica meio turvo e sem cor. Admito que pode ser até um pouco proposital, para adicionar mistério, mas honestamente acredito que a falta de visualidade do autor seja sua única falha - ao menos nesse conto - e uma que não é exatamente grave, apenas peculiar.
A trama em si é instigante e a cada capítulo o leitor (ou ouvinte, no meu caso) se vê desejando continuar a história, para ver o que vai acontecer em seguida. Definitivamente uma narrativa bem construída.
Depois de ouvir este conto, definitivamente fiquei interessado em conhecer todas as histórias do Cimério escritas por Howard.
E não, o Conan de Howard não é o Conan da Marvel nem o Conan do cinema. São criaturas bastante diferentes. Algumas características em comum estão lá, mas definitivamente são feras distintas. Cada uma com suas qualidades distintas - e todos eles são grandes personagens - mas distintos eles de fato são.
Leitura fortemente recomendada!

Para aqueles curiosos em ouvir The Hour of the Dragon, uma versão em domínio público pode ser encontrada no youtube. Deixo o vídeo aqui. Vale cada minuto.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

The Fractal Prince

The Fractal Prince é o segundo livro de Hannu Rajaniemi, e é uma continuação direta de The Quantun Thief (que eu já resenhei aqui). Levei algum tempo pra descobrir que o livro original dessa atualmente) trilogia existia, e o audiobook ficou algum tempo esperando no HD do meu micro pra ser ouvido, enquanto eu escutava The Wheel of Time, o que, considerando que são 16 livros, levou algum tempo pra acontecer (mais especificamente, três anos inteiros).

Três anos. Eu não tinha me dado conta disso até esse momento. Definitivamente preciso fazer uma resenha da série como um todo....

Mas estou derivando.

Do momento que eu soube que este livro existia até o momento de começar a ouvi-lo de fato, a continuação dele foi lançada, e eu acabei baixando ela também, e certamente vou ouvi-la em breve. Mas definitivamente vai ter que ser depois de escutar alguma coisa menos.... Complexa.

Assim como seu predecessor, este livro é denso com idéias complexas e conceitos metafísicos. De fato, este livro é extremamente complexo, porque além das questões de transhumanismo e política em escala interplanetária, Rajaniemi escolheu contar a história do principe fractal como uma história das mil e uma noites, com contos dentro de outros contos. De fato, a coisa é feita de forma tão intrincada que inception (o filme com Leonardo DiCaprio, pra deixar bem claro) parece um episódio de Caverna do Dragão em comparação.

Le Flambeur conta histórias sobre seus sonhos e memórias enquanto está disfarçado como outras pessoas se passando por um impostor fingindo ser algum outro sujeito. E as histórias e contos que ele narra algumas vezes contem algum tipo de narrativa dentro delas mesmas. São tantas camadas de contos, uns dentro dos outros, que em dado momento fica difícil saber quem é o verdadeiro Le Flambeur dentro da trama como um todo, o que é totalmente intencional.

O livro abre com alguns capítulos realmente difíceis de deglutir, com conceitos exotéricos aparentemente narrados de forma que seja impossível de acompanhar - quase como criando uma atmosfera de sonho, uma realidade que não pode ser realmente compreendida porque não faz sentido. Ou isso ou eu realmente tenho sérias limitações em compreender conceitos de fisica e matemática, como por exemplo a idéia de alguém "surfando em um ângulo deficitário" - seja lá o que isso significa.... Bom, o livro (ou série, como já são três deles) tem inclusive um glossário de termos, pra que seja possível entender algumas coisas ao menos superficialmente sobre o cenário.

Mas, passados esses capítulos iniciais, o autor passa a trabalhar com uma narração mais direta - apesar da quantidade de conceitos extravagantes presentes na obra.

E não pensem que a analogia com as Mil e Uma Noites foi uma escolha incongruente. Este livro trás uma série de alegorias à cultura do oriente médio, algumas mais remotas, outras bastante diretas. De fato, a estrutura narrativa do livro e as alegorias que ele faz criam uma aura de misticismo ao redor da obra, que em alguns pontos quase se confunde com fantasia, embora seu tema central ainda seja um dos mais clássicos da ficção científica (o transhumanismo).

Assim como o anterior, este livro é extremamente bem escrito e tem uma história excelente, e se não fosse tão denso em idéias "não euclidianas" e com narrativas tquase kafkianas, eu iria para sua continuação imediatamente. Mas meu cérebro precisa se recuperar da quantidade de informação que precisou processar ao longo desse livro pra que suas válvulas não queimem - porque minha capacidade de processamento cerebral está bem mais próxima dos diodos, válvulas e pistões de um cenário steampunk do que do pós-humanista futuro de Jean Le Flambeur.

Assim como seu antecessor, leitura fortemente recomendada - de fato, eu espero pelo dia em que vou encontrar alguém que tenha lido algum dos livros da série pra poder comparar minha incompreensividade (esse termo existe...?) com relação à alguns dos conceitos do cenário!

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

A Memory of Light

E cheguei, finalmente, ao último livro da série criada por Robert Jordan e escrito por Brandon Sanderson. A Memory of Light é o décimo quarto livro da série, ou o décimo quinto se for levado em consideração New Spring, livro que Jordan escreveu como uma introdução à série em 2004. Eu, pessoalmente, comecei a série por New Spring, o que foi uma satisfação considerável - mas o livro não é essencial, basicamente tratando de eventos ocorridos 20 anos antes da história da série, e servindo, literalmente, como introdução à hist´ria. Ele serve não apenas para apresentar as motivações de alguns personagens que não tiveram tanto espaço na série - mas que são de extrema importância para a história - mas também para tratar dos eventos que levaram ao começo da série.

Mas não estou aqui para falar da introdução da série, e sim de seu final.

A Memory of Light é um livro longo, que tem a missão de não apenas finalizar a história mas também resolver todas as tramas importantes que não haviam sido concluídas na série até este ponto. Grande parte do livro narra a Última Batalha, em que o Dragão Renascido precisa enfrentar O Escuro. Sendo o foco principal deste livro, a Última Batalha é muito bem desenvolvida, com várias reviravoltas - o que é de se esperar uma guerra que conta com exércitos de conjuradores - e extremamente satisfatória de ler. Apesar de quase todos os personagens da ´serie estarem envolvidos na batalha, Sanderson consegue descrevê-la com maestria, de modo que ela nunca pareça confusa (bom, não mais confusa do que uma batalha de larga escala deveria ser). O autor tem várias idéias para o uso criativo e inesperado de efeitos mágicos, e várias magias - particularmente portais - são utilizados de modo surpreendente na batalha, o que fornece várias cenas memoráveis. A batalha, em sí, é extremamente satisfatórias, e apesar de ser longa e ter vários pontos de vista, nunca se torna cansativa. Os eventos são bem encadeados e eu me encontrei interessado em ouvir os acontecimentos que rodeavam todos os seus personagens, inclusive aqueles com os quais não criei afinidades ao longo da série (estou olhando pra ti, Matt Cauthon!). Uma das partes que mais me surpreendeu na Última Batalha é que vários personagens morrem, o que era de se esperar, mas Sanderson descreve essas mortes de modo banal, sem heroísmo ou "últimas palavras". Os personagens se encontram em uma situação de desvantagem e, bem, são mortos. Fim. Algumas mortes são extremamente inesperadas e abruptas, e alguns personagens tem sua morte simplesmente narrada por outros personagens, o que foi um tanto chocante pra mim ao longo da narrativa, mas faz todo sentido dentro de um campo de batalha, e admito que gostei de como essas mortes foram narradas devido à isso. Além disso, algumas mortes são, de fato, heróicas, mesmo que abruptas, o que eu considero extremamente adequado numa batalha apocalíptica.

Embora a maioria das "pontas soltas" das tramas criadas em outros livros tenham sido amarradas durante a Última Batalha, algumas aconteceram antes ou depois dela. Não sei se alguma trama ficou sem conclusão, mas eu não consigo me lembrar de nada. Algumas são pouco satisfatórias, como a de Padan Fain, que foi um antagonista importante ao longo da primeira metade da série, depois foi caindo na obscuridade, desaparecendo completamente nos últimos volumes só pra aparecer na Última Batalha de forma extremamente inesperada e ser morto sem grandes repercussões - simplesmente para fechar a trama dele. Perrin sofre de algo semelhante, desenvolvendo novas habilidades rapidamente ao longo do último livro, mesmo tendo tido problemas pra compreender o Sonho do Lobo antes. Ele simplesmente passa a compreender a sua funcionalidade de forma reflexiva nesse livro, podendo resolver problemas que não teria como serem resolvidos se ele não tivesses novos poderes.

Me divertido bastante lendo as passagens de Perrin nesse livro - como em quase todos os outros - principalmente pela sua batalha final com o Algoz, que além de uma conclusão extremamente satisfatória foi muito bem escrita e emocionante de ouvir. Mat ainda brilha muito mais ao longo do livro, como sempre, e embora eu não simpatize muito com o personagem, ele ganhou algumas passagens interessantes nesse livro. Sem um inimigo jurado para derrotar, ele acaba se tornando o comandante da Última Batalha, o que foi interessante. Rand toma algumas decisões importantes nesse livro, e definitivamente a conclusão da batalha dele com O Escuro é bastante apropriada.

Todos os outros personagens recebem bem menos foco do que nossos três protagonistas, o que era de se esperar, mas alguns deles receberam conclusões pouco apropriadas, infelizmente.

De modo geral, A Memory in Light é o que se poderia esperar da conclusão da série. A Última Batalha é o clímax da série, e os últimos capítulos do livro me pareceram pouco interessantes, e, de fato, a finalização do livro, em seu último epílogo, me pareceu... Bom, preguiçosa. Algumas coisas me incomodaram - como Rand pretende que vai ter uma vida normal tendo o rosto do vilão mais relevante do cenário, conhecido por praticamente cada Canalizador do continente, é algo que eu não consegui conceber. A relação dele com suas três amantes também ficou extremamente vaga, o que eu entendo que talvez fosse algo desconfortável para Sanderson descrever, mas ainda assim, pareceu pouco satisfatório. Mas na verdade o livro não tem uma conclusão de fato. A Última Batalha acontece, e as brasas do seu fim vão simplesmente esmorecendo até que se apagam, o que finaliza o livro. Pra uma saga tão longa e complexa, eu admito que esperava bem mais do epílogo. Não chega à comprometer a série, definitivamente, mas ficou pouco adequado.

O livro, em si, é excelente, e embora ele não conclua a saga com a quantidade de detalhes que eu teria gostado, ele não causa nenhum tipo de dano à história, tendo um final simplesmente vago demais para o meu gosto pessoal. Um bom livro, mas não a melhor das conclusões para uma saga tão rica.

Ainda assim, leitura fortemente recomendada! A série como um todo é extremamente divertida, e eu provavelmente vou escrever uma pequena resenha sobre a série como um todo, assim que tiver tempo.

Até lá, leiam Wheel of Time, antes que vire série de TV!

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Missão em Sidar

Missão em Sidar é um livreco de bolso da coleção argonauta - que eu já havia decidido não ler mais, devido ao fato de ter descoberto que eles retiram partes dos textos dos livros que traduzem pra que caibam no seu formato de bolso. Encontrei esse livro pegando poeira no meio de mais outros livros quando estava movendo algumas coisas na casa, e pensei "Raios, é uma leitura de o que? Umas duas horas. Não vai doer muito ler essa coisa e ficar livre dessa editora pra sempre" afinal, um livro à mão não deve ser desperdiçado.

Bem, o livro certamente não é doloroso de ler. Admito que os jargões lusitanos tornem o livro praticamente impossível de se tornar imersiva, o que já é um ponto negativo, mas a história em si não é de todo ruim, até certo ponto.

Deixe eu avisar aqui, antes de continuar à seguir: vou fazer revelações sobre a trama adiante, porque este não é um livro particularmente interessante, pra ser honesto. Se alguém quiser ler o livro, e não quiser sofrer as terríveis revelações da trama a seguir, é só passar na Taverna do Valhalla e pedir. Não terei nenhum problema em simplesmente dar o livro de presente.

Dito isso, vamos à história.

Nosso personagens são dois humanos e dois <<robots>> (é assim que eles são grafados no livro, o que, obviamente, é bastante fastidioso depois de algum tempo) em uma missão em um planeta que vou negociado com uma outra raça. Pois bem, a tal raça não é lá grandes coisas em termos tecnológicos ou sociais, e pratica o escravagismo. E Sidar, o tal planeta, tem duas raças nativas, pouco desenvolvidas, e os quatro personagens principais aparentemente acham que sabem melhor como lidar com eles (apesar de enfiarem cigarros literalmente até em suas orelhas....) ao invés de permitir que os ratos alienígenas os escravizem.

A parte interessante do livro é que o protagonista morre em dado momento do livro, antes do meio. A narrativa então foca no seu <<robot>>, que faz uma cirurgia pra remover as pernas do humano e acoplar em si mesmo, tendo perdido as suas em um combate com uma besta do planeta. Essa idéia é deveras interessante, e eu fiquei bastante surpreso com ela, exceto que, depois de duas páginas, eu me dei conta que... Bem, o autor ia ressucitar o sujeito morto. E aí vamos com o novo protagonista, que faz algumas observações interessantes quanto às limitações do corpo humano, e como eles devem sofrer terrívelmente por serem fracotes e precisarem descansar, esse tipo de coisa. Quisera o livro tivesse seguido essa linha de ação e esquecido o protagonista inicial....

Enfim, eventualmente o tal <<robot>> acha um outro <<robot>> que tinha sido dado como destruído, recolhe sua cabeça, ainda funcionando (num evento interessante, considerando as condições em que a cabeça estava, sendo adorada por nativos e se ligando e desligando de tempos em tempos graças aos galhos que lhe eram enfiados na cabeça) e segue de volta para a civilização.

Lá eles ressuscitam o protagonista humano, lhe dão as pernas novamente, constroem um novo corpo pro <<robot>> que só tinha cabeça e novas pernas pro <<robot>> protagonista. E a partir desse ponto, a coisa fica maluca.

Até aqui tudo já estava muito bizarro. A idéia de tecnologia suficientemente eficiente pra cortar um humano ao meio, mnater suas pernas funcionando por dias, depois recolocar no corpo original, que havia morrida dias antes é completamente incongruente com o fato do tal humano ter um adaptador que lhe foi instalado na garganta que o deixa desconfortável, falha e faz com que ele fique extremamente doente, ao ponto de mal poder andar - mesmo com caixas de remédios à sua disposição, literalmente. Cirurgias no futuro funcionam pra algumas coisas, mas não pra outras, o que já acabou com minha suspensão de descrença.

Mas daí, o autor me vem com o plano fantástico pra salvar o planeta: evaporar os metais pesados no centro do planeta pra usar a falta de peso - e a evaporação rápida - como meio de propelir o tal planeta pra fora de sua órbita, na direção do sistema solar! Se as implicações de desestabilizar o centro de um planeta não fossem suficientes pra me deixar de cabelo em pé, e a idéia de transformar um planeta em uma bexiga furada não fosse totalmente estúpida, a viagem interplanetária ia levar 50 anos! É uma viagem interestelar, e sem entrar na questão de que a atmosfera do planeta ia ser mandada pra casa do caralho no processo de "descompressão planetária", ainda tem a questão de que a vida no planeta, no vazio do espaço, sem nenhuma estrela para aquecer ele ia ser obviamente insustentável! Além disso, a lua do planeta ainda segue normal, ali, na volta dele, apesar de todo o rebuliço gravitacional que eles fizeram no pobre balão furado de dimensões planetárias!

Sim, esse livro me irritou deveras! A ponto de eu ter deixado até palavrões no texto, coisa que eu costumo não fazer. O desenvolvimento não é de todo ruim, eu admito, mas a conclusão.... Caralho, que conclusão de merda!

Coleção argonauta, adeus para nunca mais!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Mundo sem Estrelas

Mais um livro sessão-d-tarde de Poul Anderson. Eu fico me perguntando quanto tempo Hollywood ainda vai levar pra começar a adaptar os livros de Anderson em blockbusters de ficção científica, porque eles serviriam de forma excelente pra isso!

Seguindo a tradição das capas tenebrosas e que não fazem sentido com a trama que aparentemente amaldiçoam as versões brasileiras do autor, Mundo sem Estrelas é um bom livro, despretensioso mas com uma história divertida, apesar da apresentação horrível e sem sentido com frases de impacto que pouco tem à ver com a trama.

A premissa do livro é que em um futuro distante, os humanos passaram a viver para sempre graças à uma droga que impede o envelhecimento. Eles precisam apagar suas memórias de tempos em tempos, ou podem acabar esquecendo de partes importantes de sua personalidade - aparentemente, o cérebro humanos só tem uma limitada quantidade de espaço pra informações nesse cenário, o que é, por si só, uma premissa interessante. Graças à essa imortalidade virtual - humanos ainda possuem corpos tão frágeis como sempre - a humanidade pode se engajar em longas viagens para os confins do universo, que podem levar décadas. E considerando que a humanidade apenas cresce, já que ela não é mais aterrorizada pela premissa da morte, essas viagens são necessárias para encontrar novos planetas habitáveis para os humanos.

Nossa história começa com o Capitão Argens reunindo uma tripulação para realizar uma viagem para travar contato com uma raça recém descoberta que pode ter interesses em comercializar com os humanos. Graças à um erro de comunicação, no entanto, a nave Meteoro acaba realizando um pouso forçado em um planeta vizinho àquele que desejavam chegar, e precisam não apenas sobreviver ao planeta alienígena, mas se preocupar com as raças nativas.

A trama se desenvolve de uma maneira bastante interessante, e as culturas alienígenas são bem exploradas. O final é previsível, como é comum no caso de Anderson, e um tanto quanto romântico demais pro meu gosto, mas não estraga a experiência.

Como nota de rodapé, graças à este livro, eu descobri que Anderson também escrevia músicas, além de livros! Mary Omeara, que é cantada em trechos ao longo desse livro - e se entrelaça com a trama - por Valland, um humano de três mil anos e o Übermensch do livro, que canta, luta, filosofa, inspira a tripulação e consegue fazer amizade com os nativos enquanto cria táticas de combate quase infalíveis (além de ser o último romântico do universo). Um personagem interessante, apesar de excessivamente perfeito.

Abaixo, a única versão da música Mary Omeara que eu consegui achar na internet. Não tenho certeza do grupo que canta, e pelo que eu entendi da descrição do vídeo, pode ser o próprio Anderson cantando nessa versão.



Um bom livro, com assuntos interessantes infelizmente apenas rasamente discutidas, mas ainda assim apresentando premissas instigantes e uma trama sólida. Vale a leitura, com certeza!

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Towers of Midnight

Penúltimo livro da série Wheel of Time, e segundo livro escrito por Brandon Sanderson como parte da finalização da série. Rapida recapitulação de eventos com relaâo à execução deste livro: Robert Jordan, o autor original da série, faleceu em 2007 antes de concluir o último livro, mas deixou vários manuscritos explicando como a série deveria acabar, e a esposa dele contratou Sanderson para finalizar o último volume. Sanderson concordou, mas considerando o volume de material deixado por Jordan, decidiu escrever uma trilogia.

Esse livro, ah, esse livro! Finalmente temos um grande foco em Perrin Aybara, meu personagem favorito da série! E que quantidade imensa de diferentes experiência temos para o personagem nesse livro! Não só Perrin finalmente resolve seus problemas com os White Cloacks de uma vez por todas, mas também faz as pases com seu lobo interior, luta contra Isan no Sonho do Lobo em uma série de combates espetaculares (Sanderson sabe realmente como escrever bons combates, e sua criatividade em lidar com a realidade dos sonhos é espetacular!) e ainda salva Egweine e a Torre Branca no processo!

A cena em que ele forja Mah'alleinir é absurdamente divertida de ler, e me remeteu em algo a forja da Espada de Shannara em First King of Shannara, mas com mais energia. Eu tinha um sorriso nos lábios ao longo da descrição de toda a cena, e certamente alarmei alguns transeuntes ao vibrar de forma excessivamente efusiva com a conclusão da narrativa, enquanto andava pelo Calçadão de Pelotas!
Um dia eu ainda vou escrever um livro com uma cena de forja de artefato que faça juz à esses dois exemplos!

Perrin me oferece uma quantidade imensa de emoções ao longo desse livro. A morte de Hoper foi esperada, eu já imaginava que o mentor de Young Bull iria morrer (na verdade, achei que isso poderia ter acontecido até antes na série) e chorei copiosamente na cena em que Perrin descreve a sua descoberta sobre o "lobo que não era um lobo". Me trás água aos olhos só de lembrar da passagem. Um dos melhores exemplos de tragédia que eu jamais li. 

Mat passa por algumas coisinhas importante. Ele vai até Elayne pra convencer ela a começar a construir os dragões" - canhões de bronze - e depois consegue se livra do Gholan, que estava atrás dele há vários livros, enganando a criatura e derrubando ela através de um portal para o vazio, onde e ela cairá para sempre. Além disso, ele vai com  Thom e Noal resgatar Moiraine, na torre de Ghenjei. Apesar de passar por várias coisas relevantes ao longo do livro, eu admito que achei a parte de Mat a mais... Desgastante. Talvez por ele ter a maior parte dos capítulos do livro, e eu estar com muito mais interesse em Perrin que, infelizmente, não teve muito espaço ao longo da série.

Rand tem a participação menos interessante ao logno do livro. Considerando o final do livro anterior, eu esperava grandes ações por parte dele, mas, ao invés disso, ele vai até Egwene - que é a Amyrlin seat - e diz pra ela que vai destruir os selos, o que faz a coisa toda ficar um tanto complicada porque ela acha que isso é devido à loucura dele. Pois é, o problema é que eles tem um vínculo mental, podem sentir um ao outro, e as razões dele são absurdamente lógicas, mas ele não explica NADA ao longo do encontro, o que cria uma tensão entre os dois completamente desnecessária. O próximo livro provavelmente vai ter que idar com isso, que será um problema diplomático completamente desnecessário e poderia dar espaço pro desenvolvimento e foco em outros personagens (Perrin. Sim, eu estou olhando pro Perrin) e tramas mais interessantes - e menos forçados.

Além disso, uma nova trama começou a se desenrolar na Torre Negra, onde aparentemente alguma coisa está controlando a mente de Asha'man e de Aes Sedai do Ajah vermelho - sempre elas. Mais uma vez, uma mudança de foco meio que sem sentido já que estamos no penúltimo livro, mas eu imagino que seja absolutamente necessário dar algum tipo de atenção pra torre negra, de alguma forma.

Em geral, o livro é bom. Não tem um final climático como aconteceu com quase todos os livros até aqui - quando o livro terminou eu fiquei "Ué, sério? Assim, acabando?" porque estava esperando os finais com revelações bombásticas, decisões inesperadas, reviravoltas na trama - ou descobertas scooby-doo - que sempre aparecem nos finais dos livros anteriores. Há várias resoluções importantes no livro, o que é de se esperar, já que é o penúltimo da série e ainda há muitas pontas soltas, mas as únicas partes em que eu realmente me diverti foram os capítulos com o Perrin - o encontro dele com Egwene, na Torr Branca, me fez rir alto! De longe o personagem mais interessante neste livro.

Não tão bom quanto a anterior, me pareceu menos inspirado. Ainda assim, pra quem leu toda a série até aqui, não é nem de longe o pior livro da série.


















terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Pedra no Céu

O primeiro livro publicado por Isaac Asimov em 1950, e que é a gênese do que mais tarde se tornaria o imenso universo literário da Fundação, uma série de livros que conta como o homem se espalhou e dominou o universo sobre a qual eu já falei aqui.

Apesar dos primeiros escritos de Asimov sobre o universo da Fundação datarem de dois anos antes da publicação deste livro, estas histórias foram escritas na forma de contos em revistas de ficção científica. Pedra no Céu é o primeiro livro publicado por Asimov e portanto considerado como o ponto de partida desse universo - os contos originais foram, dois anos depois da publicação de Pedra no Céu, reescritas por Asimov (para que as datas e fatos coincidissem de maneira mais harmônica) e compilados em um livro coeso, na forma do primeiro livro da trilogia da Fundação.

Apesar de ter fcado extremamente satisfeito em ter lido esta história depois de ter lido Fundação e poder perceber a semente daquele livro aqui - há muitos paralelos entre os livros, alias - mas imagino que o caminho oposto também deva ser extremamente interessante.

Um dos aspectos que eu mais gostei desse livro é o fato de que o protagonista (Joseph Schwartz, um alfaiate aposentado) é um homem do nosso tempo, transportado, graças à um acidente, para o futuro em que já existe um império galáctico e onde a terra nem sequer é mais reconhecida como o berço da humanidade. Esse ponto de partida nos permite explorar o cenário junto com Joseph, o que foi certamente uma idéia magistral de Asimov para mostrar as estranhezas da civilização do futuro (incluindo uma inicial barreira linguistica enfrentada pelo protagonista ao chegar no futuro).

O livro tem um pouco de tudo: religião, preconceito racial, conspirações e informações desencontradas (que, alias, pra mim, é o ponto alto do livro) e uma revolução à caminho.

É interessante observar que Asimov adicionou um posfácio em 1982 explicando que, na época em que escreveu o livro, não se sabiam quais seriam as consequências da radioatividade causada pelos ataques nucleares à Hiroshima e Nagasaki, e no livro os efeitos da radiação tomaram uma proporção muito maior do que realmente aconteceu.

Apesar de um final irrealisticamente otimista, o que é comum nos livros de Asimov, a trama em si é extremamente empolgante e mesmo o final sendo muito mais positivo do que se poderia esperar, ele faz sentido dentro da obra como um todo.

Definitivamente uma excelente leitura, fortemente recomendada!

Agradecimentos especiais ao Luciano Abel (e por extensão à Livraria Julio Werne) por ter me apresentado o livro. Eu provavelmente não teria procurado por ele se não fosse a esfuziante propaganda!