sábado, 17 de outubro de 2026

Carl, o explorador de masmorras


Carl, o Explorador de Masmorras (ou Dungeon Crawler  Carl, no original, geralmente referido pela sigla DCC, que é como eu vou me referir ao livro daqui pra diante) é um litRPG (abreviação para literary role playing game, um gênero literário combinando as convenções do RPG eletrônico com ficção científica e romances de fantasia - direto da wikipedia!) que me foi dado por um amigo (que não será nomeado) que tem bastante interesse el litRPG e está tentando engajar novos leitores. Uma cruzada nobre. Como DCC é o mais famosos dos LitRPGs, acredito que a idéia era começar pelo mais popular, afinal, popular significa que é o mais acessível/melhor. 

Essa, pelo menos, foi a linha de raciocínio do amigo que me deu o livro. 

De cara, posso afirmar: depois de DCC, vou manter a maior distância que puder entre mim e qualquer outro livro de litRPG. 

Em tempo: litRPG, pelo que eu entendo, começou como um fenômeno de internet, sendo publicado interiamente online (incluindo DCC, mas eu posso estar errado; não me dei ao trabalho de pesquisar), o que significa que não tem intenção de ter uma estrutura literária tradicional, sendo atualizado pelo autor quando ele termina um novo trecho, que então pode ser lido isoladamente (por quem já leu o que foi publicado anteriormente) ou como parte da obra como um todo. 

E aí temos o primeiro problema de DCC: ele foi publicado como um livro, mas não tem a estrutura de um livro. Ele é basicamente uma grande introdução - de 400 páginas... - sem início, meio ou fim. Ele começa começando: há um ataque alienígena, o planeta terra é totalmente devastado e os poucos sobreviventes precisam enfrentar uma masmorra criada pelos tais alienígenas pra sobreviver. Carl está dentro da masmorra no final do primeiro capítulo do livro (que tem 9 páginas) que termina com uma página inteira de exposição sobre a natureza do lugar. 

Daí pra frente, até o final, o livro se resume à um ciclo de: Exposição sobre a natureza da masmorra numa sala segura/sala da guilda, Carl anda pela masmorra matando monstros, Carl chega à proxima sala segura/sala da guilda, exposição sobre a natureza da masmorra numa sala segura/sala da guilda, Carl anda pela masmorra matando monstros... Tudo isso salpicado com textos de destaque de "conquistas" (como eu disse, o gênero é baseado em convenções de jogos eletrônicos) que é basicamente a forma do autor de demonstrar todo o seu conhecimento de cultura nerd misturado com um humor quinta série. 

Para além da questão de estrutura do livro, no que diz respeito à trama e o tema, é um livro de fantasia voltado pra "machões", com um protagonista brucutu — grandalhão (Carl tem 1,90), que vive comparando todos os outros personagens à sua própria estatura e porte físico (mesmo que a força na masmorra dependa de atributos numéricos e o seu gato é mais forte do que ele), que faz questão de atribuir gênero a tudo (incluindo monstros, vozes sem corpo, etc.), sexualiza — sob uma ótica puramente masculina — qualquer coisa identificada como "feminina" e com um complexo de herói que beira o ridículo. Ele acumula ainda traumas não resolvidos de abandono materno e, de modo geral, é incapaz de lidar com seus próprios sentimentos de uma forma minimamente significativa. 

Além desses problemas diretos, a obra se esforça ainda mais em ser a pior versão possível de uma  fantasia já bastante medíocre, incluindo: 

Os blocos (imensos) de exposição gratuita, incluem descrições minuciosas de atributos aleatórios (e sem sentido) sendo elevados de nível, além de detalhes sobre a mecânica do jogo que não fazem nenhuma diferença dentro do cenário --- Donut, a gata, tem Força maior do que Carl, mas Carl é mais forte; mesmo tendo números medíocres em coisas como mecânica e explosivos, Carl é capaz de criar um novo tipo de dispositivo extremamente poderoso que é capaz de derrotrar inimigos de nível extreeeemamente mais alto; Donut tem agilidade maior e é muito menor do que Carl, mas ele é muito melhor em escapar de ataques. De modo geral, existe um sistema numérico com atributos (os mesmos de deidê) e habilidades (â lá GURPS) mas nada disso faz qualquer diferença factual.

Beira a ofensa ou demonstra uma total falta de tato - e não, isso não se enquadra como humor ácido ou terror cômico. É, na verdade, um descuido absoluto e repugnante, além de uma completa falta de empatia. Tanto o humor ácido quanto o terror, ao retratarem a crueldade, geralmente possuem um propósito — uma crítica ou uma mensagem a ser transmitida. O que temos aqui é apenas uma justaposição de algo cruel com piadas estúpidas — piadas que, invariavelmente, miram em pessoas em posição de vulnerabilidade (os chefões descritos em dois momentos como "caricaturas" e "estereótipos exagerados" de pessoas da terra, e o primeiro deles é uma mulher hispânica obesa, que vive na sujeira e sofre de transtorno de acumulação). É uma demonstração flagrante de falta de inteligência emocional e, sinceramente, repugnante.

Acho que o que temos aqui é o resultado de um autor privilegiado que que não precisa se importar, e encontrou uma audiência de pessoas que, igualmente, não se importam - por total falta de empatia, ignorância ou,, como no caso do autor, posições privilegiadas. Falta-lhes tato e bom gosto; são insensíveis, carecem totalmente de empatia... e por quê? Porque não precisam ser diferentes. Que sorte estar desse lado, né? Qualquer outra pessoa poderia acabar sendo o alvo dessas piadas. Mas são só piadas, certo?

É frustrante uma obra como essa recebendo a atenção que está recebendo, e perceber novamente que algumas pessoas podem se dar ao luxo de serem descuidadas — de escrever merda sem critério, publicar merda sem critério e rir de merda sem critério. 

Antes de concluir (depois da reveleção da trama, marcada adiante), pra dar um exemplo direto de quanto esse livro me pareceu nojento, vou revelar detalhes da cena dos bebês goblins (incluindo alguns eventos que acontecem logo antes e depois dela), pra que, antes de ir ler o livro, tu possa conferir por conta própria se consegue achar algo assim minimamente aceitável — não é uma revelação grave (nada nessa porra de livro faz lá muita diferença) mas estejam avisados que haverá 

*** REVELAÇÕES DA TRAMA ADIANTE ***

Depois que o gato e Carl matam aquela mulher hispânica de quem falei antes — uma cena, por si só, bastante brutal (ela estava sentindo dor, sem entender por que estava ali ou o que lhe havia acontecido; chorava, pedia ajuda e, por fim, pedia perdão enquanto Carl terminava de estrangulá-la) — eu fiquei tão chocado que pensei em parar de ler o livro. Carl, por outro lado, sentiu um breve enjoo, mas o gato continuou com suas tiradas — ah, ah, ah, um gato falante, que engraçado, né? Vamos mudar de assunto. E assim seguimos, até chegarmos aos goblins.

A gata de Carl, Donut, tem muito carisma (em termos de atributos; eu, como leitor, aparentemente sou imune ao seu elevadíssimo carisma e sua natureza felina), então os goblins que ela e Carl encontram em um covil agem de forma amigável e até começam a se abrir com ela. Duas dessas goblins (fêmeas, obviamente) mostram-se bastante vulneráveis, falando sobre traumas do passado, além de seus sonhos e esperanças --- basicamente, os monstros são seres sencientes que foram aprisionados ou escravizados nas masmorras e, sabendo que não conseguem escapar, tentam sobreviver até acumularem XP suficiente para serem transferidos para níveis inferiores, onde correm menos risco de serem massacrados por jogadores e podem manter seus filhotes em segurança (um detalhe importante para o que vem a seguir). Obviamente, as duas goblins fêmeas dão em cima de Carl. Como não? Donut cnvence os goblins a partiresm em uma missão, deixando ela e Carl sozinhos no covil.  Eles aproveitam para roubar tudo o que os goblins possuíam, e em seguida, o gato sugere ir atrás do chefe dos goblins, que está no fundo do covil, para ganhar XP. Carl hesita por um momento, mencionando que ainda se lembra da sensação de espancar aquela pobre mulher hispânica até a morte com as próprias mãos e diz ao gato que outra luta não seja a melhor escolha no momento — apenas para logo em seguida dar uma guinada de 180 graus — que deveria ser engraçada, com um "Beleza, vamos nessa" (porque, afinal, a falta de empatia é hilária, não é?). Então, eles decidem enviar explosivos para a sala do chefe, à frente deles, para eliminá-lo sem precisar lutar. Carl empurra o carrinho de explosivos para dentro e, após a explosão, rindo de empolgação com o sucesso, a gata (que deu uma espiadela pra dentro da sala enquanto Carl empurrava o carrinho de explosivos) conta que viu o chefe, e que ele estava lendo para um grupo de bebês lá dentro. Ela faz questão de rir ainda mais, comentando como os bebês eram uma gracinha e — ha, ha! — que Carl deveria ter visto o carrinho atropelando um deles antes de explodir. Bebês de escravos ou prisioneiros sendo esmagados pelo carrinho do nosso protagonista, sob as risadas de uma gata mimada — hilário, não é?

A gata só se importa com a XP, espólios e a possível fama que ambos podem trazer. Carl não sente orgulho, mas segue em frente, pois perder tempo refletindo, processando ou questionando suas próprias ações seria um desperdício. Ao invés disso, somos "contemplados" com mais do humor de qualidade do autor. 

Essa é a estrutura geral do livro. O capítulo seguinte começa com uma enxurrada de anúncios repletos de trocadilhos quinta série, sobre as inúmeras conquistas que eles obtiveram (algo como: "Conquista: Você é um assassino em massa! Recompensa: blá-blá-blá" — o auge do humor, sem dúvida). Divertídíssimo. 

Mais tarde, Carl e a gata vão dormir. Entre dois parágrafos repletos de divagações sobre seus atributos, Carl consegue encontrar um espacinho — cerca de duas frases — para refletir sobre o que acabaram de fazer. Ele rapidamente joga o assunto para debaixo do tapete, convencendo a si mesmo de que a culpa não é dele, mas sim do jogo — afinal, ele "não teve escolha". Como qualquer criminoso de guerra diante de um júri. É a beleza de transferir a própria responsabilidade para quem está acima na hierarquia. 

É assim que surge o que se tornará o mantra de Carl pelo restante do livro. Ele conclui, cheio de bravura (só que não): "podem me machucar, podem até me matar, mas não vão me quebrar" — o sujeito é literalmente um psicopata desde o primeir capítulo, esmigalhando cabeças de goblins contra o chão com próprias mãos! Não tem nada adiante pra alguém "quebrar". 

Logo em seguida, começa a fama de Carl e da gata. A gata imediatamente se entrega de corpo e alma à fama, e, dli em diante, fica obcecada apenas pelos seguidores e por aparecer na TV. Quando foi que isso passou a ser algo cativante? É simplesmente revoltante: na primeira vez que ela aparece num estúdio de TV, cumprimenta a plateia e pergunta, com toda a doçura, se eles estão gostando do programa. Só pra reforçar que nada desse livro se qualifica como humor ácido ou como qualquer tipo de crítica a alguma coisa. Não é um momento do tipo "Vocês não estão entretidos?" Não há subversão, não há rebeldia, não há profundidade oculta.

É só... absolutamente... vulgar.


*** FIM DAS REVELAÇÕES DA TRAMA ***


Carl, Explorador de masmorras é um livro que não é um livro, que deveria ter ficado confinado em algum canto escuro da internet ao invés de se tornar um fenômeno popular. Mas o fato de termos um livro sem qualquer extrutura, com um par de protagonistas completamente psicoátas, fala muito sobre a sociedade atual, talvez. Eu não tenho qualquer intenção de entrar no mérito dessa questão, já que me concentro aqui apenas em resenhar livros — pra ajudar minha memória terrível e também pelo exercício de escrita — e não em crítica literária ou social. Mas esse livro ter se tornado tão popular ao ponto de, aparentemente, estar sendo adaptado pra uma série, é, honestamente, esntristecedor. E, aparentemente, eu ter detestado o livro significa que eu "não sei me divertir" — sim, eu ouvi isso (ou algo que o valha) quando dei meu primeiro parecer sobre a obra pro amigo que me deu o livro de presente. 

Enfim. 

Este não é um livro. Por mais que esteja publicado nesse formato, é só uma transcrição de várias horas de jogo de MMO ruim feita por um guri de 15 anos. Saber que esse livro é o mais famoso dos tais litRPGs me faz ter certeza que vou me manter bem longe desse estilo literário. 

Leitura veementemente não recomendada. 

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Porque todos deveriam deixar de usar IA generativa

Eu tenho sido contra imagens, textos e vídeos gerados por IA desde que eles começaram a aparecer. Depois de estudar o que pude sobre o assunto - sem ser capaz de compreender as minúcias já que não tenho nenhum tipo de formação em informática e sou, honestamente, bastante ignorante na área de progração em geral - decidi que era hora de deixar minha posição clara e direta. 

Antes de continuar lendo, um apelo: Não leia o texto a seguir com o intuito de confrontar tudo o que está escrito, na tentativa de defender o uso de IA ou me provar errado. Eu venho discutindo isso há muito tempo, com muita gente, e pesquisado exaustivamente. Essa é uma postagem de opinião, pessoal e intranferível, e apesar de eu estar disposto à discutir quqlquer dos pontos listados, eu vou sumariamente deletar qualquer tipo de comentário que tente sumariamente negar ou que tenha por intenção me ofender pessoalmente por minhas opiniões.

Além disso, não coloquei nenhum link para nenhum dos pontos levantados. Eu espero que qualquer pessoa que se dê ao trabalho de ler esse material tenha o interesse em aprender e possa usar suas próprias capacidades para pesquisar sobre o assunto, lendo materiais relacionados à cada um dos pontos levantados. Faça pesquisas, procure dados de fontes confiáveis. Verifique tudo o que eu estou dizendo aqui. Por favor. Não leia simplesmente procurando argumentos para antagonizar as opiniões emitidas aqui. 

Isso tudo dito, vamos à minha opiniõ de porque as pessoas deveriam peremptoriamente deixar de cnsumir e produzir qualquer material usando IA: 

Ao contário do que vem sendo dito, IA generativa não é apenas uma brincadeira e definitivamente não é inevitável. Não é preciso simplesmente "aceitar que IA é o futuro" e se adaptar ou morrer. Muitos artistas foram afetados pela popularização de IA, e vários sites de imagen e textos - incluindo galerias, estantes de RPG e de literatura em geral - estão literalmente entupidas de lixo criado por pessoas que nunca se deram ao trabalho de estudar ou praticar arte, mas com comandos simples podem gerar, literalmente, dezenas de imagens em uma hora. Além do impacto financeiro para muitos artistas - principalmente aqueles em início de carreira, mas definitivamente não só para eles - que perderam seu espaço em um mercado de trabalho que já não é exatamente recompensador - IA generativa também é eticamente repreensível, por vários motivos: 

- Ela se baseia no roubo de criadores originais. A IA não consegue "criar" nada, ela literalmente vasculha a internet, incluindo trabalhos de artistas renomados vivos ou mortos e também daqueles que estão ativamente trabalhando e, de forma alguma, deram sua permissão para que seu trabalho fosse usado para esse propósito. Só isso já deveria ser suficiente para qualquer pessoa com um mínimo de ética parar de usar IA totalmente. 

Mas se a carreira e os direitos de artistas que estão tendo seu trabalho roubado não lhe importa, ainda há uma outra questão à ser considerada: A IA de última geração é catastrófica para o meio ambiente, desestabilizando fontes de água com o consumo excessivo para refrigeração dos data centers que ela exige, elevando os preços da eletricidade onde existem, além de contaminar água potável ao seu redor, espalhando doenças para a população local. E como geralmente são instalados em áreas de baixa renda, eles ainda por cima atingem uma população vulnerável e ajuda a perpetua o classismo. 

Em termos menos ligados à questão puramente artistica, a IA de última geração está sendo usada para produzir CSAM (material de abuso sexual infantil), usada usada como arma por empresas de tecnologia, agitadores e governos para disseminar desinformação e propaganda. E vem sendo usada largamente para explicitar idéias preconceitusosas, aumentando a demoização e isolamento de grupos marginalizados.

Também aumenta os riscos de segurança cibernética, incluindo intrusão de malware, violações de privacidade de dados e roubo de identidade. 

E do ponto de vista puramente financeiro ligada ao uso de IA: como exige uma quantidade enorme de processamento, os data centers que permitem a geração de IA consumem quantidades enormes de chips, o que vem aumentando drasticamente seu preço, especialmente memória RAM, o que tem afastado cada vez mais o acesso à esse tipo de tecnologia do consumidor comum. 

E pra fechar com chave de ouro, IA deixando as pessoas burras. Estudo após estudo comprova repetidamente que o uso da IA ​​de geração está tornando as pessoas mais burras, menos capazes de processar informações e reconhecer fatos - uma qualidade da IA que, obivamente, pode ser explorada pelas grandes produtoras de tecnologia, principalmente as de IA, aumentando acesso a ainda mais riqueza pelos donos dessas empresas enquanto deixa os usuários communs dependentes de uma tecnologia que "facilita" sua vida. 

Obviamente, todos os pontos listados acima vão piorar com o avanço do uso de IA generativa, criando mais datacenters, afetando mais pessoas financeira, cultural e psicologicamente. 

A IA de geração está anos-luz da verdadeira inteligência artificial e não pode se tornar realmente uma inteligência artificial genuína - qualquer um que sugira o contrário está mentindo por ignorância ou por motivos excusos. A IA generativa que estamos usando é uma ferramente limitada, que compromete a sociedade e já está causando danos consideráveis. 

Ela é É antiética, perigosa, catastrófica para o meio ambiente e está transformando seu cérebro em lama.

Os únicos que realmente se beneficiam são os já mega-ricos, donos das grandes empresas de tecnologia, que como todo grande homem de negócios, destroem tudo em sua busca implacável por mais riqueza e poder.

Quando você diz que IA "é inevitável", "é só uma brincadeira" ou até mesmo "isso facilita minha vida", você está realmente dizendo "eu não me importo com outras pessoas, com o meio ambiente eu só quero minha máquina de correção automática divertidinha".

O resto do mundo, lieralmente, que se exploda. 

E vejam, eu não estou dizendo que IA generativa não tem pontos positivos. Ela tem. Várias empresas vêm usando ela para resolver problemas, desenvolver novas idéias e lidar com quantidades muito grandes de informação que seriam impossíveis de serem resolvidas meramente por humanos. E mesmo no campo artístico, há possibilidade de utilização para explorar novos viéses utilizando sua própria produção, tentnado cfriar uma nova forma de ver seu próprio trabalho. Além de potencialmente facilitar a finalização da produção. A IA pode ser usada de modo positivo. O problema é que os prejuizos que ela vem causando superam seus benefícios exponencialmente. 

Mais uma vez: Eu não coloquei nenhum link pra absolutamente nenhum dos pontos que levantei aqui - o que teria sido relativamente fácil - simplesmente porque o objetivo aqui é argumentar sobre o assunto na esperança de que, quem quer que esteja lendo isso, se interesse em usar seu próprio cérebro e pelo menos se dê ao trabalho de verificar os pontos que eu estou levantando. 

Pesquisem sobre o assunto. Vejam o que os dados dizem. Procurem fontes confiáveis e leiam o que está sendo dito sobre o que eu coloquei aqui. 

E foda-se a IA! 

domingo, 11 de maio de 2025

Shadows in the Moonlight

Uma versão sépia da ilustração de
que deu origem à esse resenha

Recebi uma encomenda de uma ilustração do pirata Sergius de Khrosha, um adversário de Conan que aparece no conto Shadows in the Moonlight. Nunca tinha lido o conto - de fato, não me soou sequer familiar - então fui atrás da história não só pra ouvir a descrição direta de Sergius, mas também pra aproveitar um conto do Conan.  

Originalmente Iron Shadows in the Moon - cuja tradução para português, Sombras de Ferro ao Luar é o nome usado nas versões brasileiras do conto - Shadows in the Mooonlight é um conto originalmente publicado em Weird Tales em abril de 1934. É o que se espera de um conto genuíno do bárbaro, repleto de astúcia, lutas ferozes, mistérios insondáveis e, claro, macacos gigantes! Abandonado pela sorte depois de uma incursão com os Companheiros Livres foi interceptada pelo implacável Xá Amurath, Conan, salva uma cativa e se aventura por uma ilha misteriosa, onde confronta uma enigmática ruína, enfrenta piratas e eventualmente precisa lidar com uma besta monstruosa. Espada e feitiçaria da melhor qualidade. 

Shadows in the Moonlight pode ser ouvido direto no sirte da Librivox. É um conto curto, de cerca de uma hora e meia de duração. Vale cada minuto. 

Leitura fortemente recomendada! 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Carmilla

 Apesar de um grande apreço pelas lendas sobre vampirismo - tendo assistido todos os filmes sobre o tema nos quais pude por as mãos, assim como lido vários livros sobre o assunto, e até possuir uma enciclopédia sobre o assunto - derivado, certamente, do meu primeiro contato com RPG através do infâme Vampiro: A Máscara, eu nunca tinha, até hoje, lido as primeiras obras sobre o assunto: The Vampyre, de John William Polidori (que ainda preciso ler) publicada em 1818, e Carmilla, de Joseph Sheridan Le Fanu, publicada em 1871. 

Apesar de Dracula, de Bran Stoker, ser considerada a obra mais seminal sobre o assunto, ele não é o primeiro livro a tratar do tema, como muitos acreditam. De fato, ele deve bastante à Carmilla, e várias representações de personagens e arquétipos em Drácula são obviamente influenciados pelo livro de Le Fanu, como o tema sexual (embora Carmilla seja lésbica), o fato doe Carmilla dormir em um caixão durante o dia, poder atravessar paredes assumir forma animal (um grande gato negro, no caso de Carmilla) e possuir poderes hipnóticos. A descrição de Lucy é também bastante semelhante a de Carmilla, tanto fisicamente quanto em seu modo de atrair suas vítimas. O Dr. Abraham Van Helsing de Stoker é um paralelo direto com o caçador de vampiro de Le Fanu, Baron Vordenburg, ambos investigando os vampiros e possuindo considerável conhecimento sobre seus hábitos, poderes e fraquezas. A influência da obra de Le Fanu também pode ser vista no nomes dos personagens e locais: "Karnstein" se tornou "Carfax", "Reinfeldt" se tornou "Renfield" - e no manuscrito mais antigo de Drácula, de 1890, o castelo de Drácula está situado na Estíria (onde se passa Carmilla) e só nas versões posteriores foi alterado para a Transilvânia. 

Carmilla é uma novela curta - um grande benefício se comparado com o exaustivo Drácula - narrado em primeira pessoa (a partir do ponto de vista de Laura, o alvo de Carmilla) com apenas seis personagens nomeados e mais um punhado de coadjuvantes que aparecem apenas esporadicamente, sendo uma leitura fácil e com poucos rodeios, mas ainda assim instigante. Além disso, diferente de Drácula, oferece uma explicação para a origem dos vampiros (a origem da maldição presente no filme Dracula de Bran Stoker é uma adição de Copolla á história). 

Em geral, uma boa leitura, com uma trama interessante - apesar de certamente familiar para aqueles que conhecem Drácula - e um estilo eficiente. 

Leitura fortemente recomendada! 

Em tempo: eu ouvi o audiobook no librivox, que é uma biblioteca de audios que estão em domínio público que pode ser acessada gratuitamente por qualquer um - infeizmente exclusivamente em inglês. A versão que eu ouvi é muito bem narrada por Elizabeth Klett, e definitivamente ajuda na digestão da obra. Deixarei o link para o livro no site da librivox adiante: 

Carmilla, de Joseph Sheridan Le Fanu, no Librivox, lido por Elizabeth Klett


terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Gato Amarelo


Deitado na sua caminha de cachorro, a única coisa que era realmente dele - além, claro, de todo o pátio e dos humanos que moram nele - o Gato Amarelo foi enterrdo no dia que morreu pela útima vez, vésperas do reveillon de 2025. Exatamente dois anos depois da última vez que ele morreu, na véspera do reveillon de 2023. 

Sim, o Gato Amarelo morreu dois anos atrás, provavelmente sua sexta vida, tendo perdido um bom pedaço da cabeça e do pescoço em alguma briga felina numa dessas noites de verão do fim do ano. Mas, naquele dia, ele resolveu que ia perder a vida dentro do meu atelier, em cima de uma confortável caminha de cahorro amarela, que literalmente nenhum dos outros gatos dava a menor atenção. 

Pro azar dele, antes de fechar o ano, eu vim dar uma olhada nas gatas que vivem no atelier. 

Vejam, o atelier é onde as gatas comem e dormem, mas ela tem uma portinhola pra rua que permite que as gatas (são cinco delas) entrem e saiam à vontade - a menos, claro, que alguma delas decida dormir na rampa de acesso da portinhola, o que causa tumultos constantes..

Mas, naquela última noite de 2023, não houve tumulto. Todas as cinco gatas olhavam fixamente para o enorme Gato Amarelo, em seus extertores de morte, sentado na caminha de cahorro amarela que ninguém dava a menor atenção. Com uma ferida imensa, que deformava o rosto até o peito, cujo icor negro tinha se espalhado pelo pelo ao redor, dando a impressão de que se tratava de um animal que havia cavado a própria sepultura de dentro pra fora. As larvas de verme, o fato de ser possível ver parte do crânio do animal através da ferida, e o fedor à carniça que ele deixava no ambiente só aumentavam a impressão de que eu olhava pra uma criatura morta-viva. Ou, mais especificamente, um bicho morto que tinha decidio que aquela caminha de cachorro amarela que nenhum outro gato dava atenção era o lugar correto pra morrer, mas se recusava a aceitar a derrota e estava ali, ainda vivo, embora morto. 

E assim, nessa recusa de se entregar, tivemos que montar uma armadilha pra capturar o Gato Amarelo, porque mesmo morto (embora não admitisse) ele se recusava a deixar de ser um animal arisco. 

No fim, captura, levamos o moribundo as pressas pra um veterinário. Este nos deu poucas expectativas - aalgo como 7 ou menos em 2d6. Era provável que sobrevivesse, mas tinha boas chances disso não acontecer. 

Depois de alguns dias de tratamento intensivo, e mais alguns dias de recuperação pra que passasse por uma castração, ele voltou pras Gaylands, com instruções de receber pomadas regenerativas todos os dias - ele tinha perdido um bom naco de carne - e ficar longe de encrenca. Por dois meses, ele ficou trancado em uma sala de contenção de 3x5, acompanhado de sua caminha de cahorro amarela que nenhum outro gato dava atenção, recebendo comida, água e remédios mas se recusando a deixar ser tocado, o que era preocupante porque não conseguiamos passar a tal pomada regenerativa nele. 

Ainda assim, mesmo tendo perdido a útima vida, o Gato Amarelo sobreviveu. A cicatriz, em carne viva, foi fechando, e no final virou uma cicatriz pouco notável - exceto pela orelha meio deslocada e com pouca mobilidade do lado direito. 

E então, soltamos o gato novamente nos campos das Gaylands. 

Todas as manhãs, ele miava pedindo comida nas ruínas da Taverna do Valhalla. Todas as noites, ele voltava para dormir na sua caminha de cachorro amarela que nenhum outro gato dava atenção. 

Todas as vezes que eu alimentava ou que ele chegava pra dormir, eu oferecia a minha mão pra ele cheirar. Ele cheirava, mas não permitia ser tocado. 

Até o fim do inverno de 2023. Numa fatídica noite em que veio dormir na sua caminha de cahorro amarela que nenhum outro gato dava atenção, eu ofereci minha mão pra ele cheirar, e ele devolveu uma cabeçada carinhosa. esfregou o cucuruto na minha mão, e deixou eu alisar seu queixo. 

Eu nunca vou esquecer aquele dia. Vejam, eu sempre quis um gato amarelo, e pedia todas as manhãs e todas as noites pra ele deixar eu lhe dar algum carinho. Era tudo o que eu queria em troca da atenção e dos ccuidados desprendidos: a chance de lhe dar um cafuné. 

E ele me deu a oportunidade. 

Depois disso, seu comportamento mudou completamente. Me esperava na porta todas as manhãs, se esfregando com vontade nas minhas pernas todos os dias, enquanto eu distribuia ração para as outras gatas. Então subia na mesa de desenho e exigia esfregadas na cabeça, ronronando, antes de comer. Durante o útimo ano e meio, esse era meu ritual diário. 

Vai ser bastante difícil entrar no atelier em 2025, sabendo que nunca mais vou ter essa recepção. 

Sim, porque depois de dois anos, a última vida do Gato Amarelo expirou. Ontem, no fim da tarde, notamos que ele respirava com dificuldade. Chamamos um veterinário, que fez um exame, e sugeriu internar. Era o plano pra hoje. Já tinhamos falado com uma clínica - a mesma onde ele foi operado e castrado dois anos atrás - e assim que a Bianca chegasse do trabalho, ao meio-dia, iamos direto leva-lo. Ainda cedo, essa manhã, o veterinário passou aqui, administrou uma injeção, mas não conseguia dizer qual era o problema. Exames eram necessário. Levamos isso em conta na internação. 

Mas jamais teremos os exames. Não passaremos o reveillon angustiados enquanto ele está internado. A sala de contenção onde ele ficaria quando voltasse não vai ser limpa pra receber o Gato Amarelo de volta. 

Nessa amarga manhã do útimo dia de 2024, enquanto fazia um chá pra sentar na sala de conteção com o Gato Amarelo enquanto esperávamos o retorno da Bianca, ele morreu. Sem briga, sem selvageria. Morreu encostado na porta, talvez esperando que eu voltasse pra lhe fazer companhia, talvez desejando passar seus últimos momentos no capinzal das Gaylands. Não sei. E me doi que nenhuma dessas coisas tenha ocorrido. Quando abri a porta, ele já estava estirado, sem reação. Corri pro veterinário - que mora atravessando a rua - que fez massagem cardiaca nele, mas foi em vão. 

O Gato Amarelo me deu quatro anos de sua vida. Dois deles rondando o pátio das Gaylands, aceitando comida mas se escondendo pelos cantos, meio ano de uma convivência forçada - no começo, ao menos - e depois distante, mas me deu seu melhor ano e meio no final. Com cabeçadas, ronronadas, carícias, miados estridentes pra anunciar sua chegada, exigências de atenção e um ritual matinal que me fazia sorrir todos os dias. 

Ele vai fazer muita falta. 2025 vai começar muito, muito menos feliz sem ele aqui.

Mas vai ficar a lembrança de um gato arisco que se tornou meu maior companheiro. Da útima vida que ele tinha, e que escolheu compartilhar comigo. E isso eu vou lembrar ao longo do próximo ano, e de todos os anos seguintes, até que a minha útima vida também se vá. 

domingo, 10 de novembro de 2024

She: A History of Adventure


    She, ou nas versões traduzidas para o português, Ela, a Feiticeira, é um livro de aventura do autor Sir Henry Rider Haggard publicado em 1887. 

    Sir Henry Rider Haggard (ou H. Rider Haggard, como assinava seus livros) publicou 50 livro ao longo de sua vida, tendo outros 5 publicados post morten. Foi um pioneiro no gênero litrerário Mundo Perdido, e sua obra mais conhecida, várias vezes adaptada para cinema de uma ou outra forma é As Minas do Rei Salomão. 

    Eu já tinha ouvido falar nas Minas do Rei Salomão - assisti pelo menos três adaptações em filme - mas honestamente, nunca ftive muito interesse em procurar o livro original. 'She', no entanto, era uma obra que eu desconhecia completamente até recentemente, quando encontrei na rede uma imagem de personagens de ficção heróica d final dos século 10 e começo do século 20. A imagem tinha vários personagens que eu reconhecia (e que, graças à minha péssima meória, eu não lembro mais quem eram, com exceção do Tarzan), com uma única exceção: Uma mulher pálida, em um vestido e véus brancos, anotada na imagem como "Ayesha". Fui pesquisar sobre ela, descobri o livro e subsequentemente encontrei a versão em audio na Librivox. Apesar da obra completa estar à disposição no site - assim como inúmeros outros - eu admito que é um pouco complexo de ouvir pela troca constante de narradores entre os capitulos, incluindo alguns narradores que não falantes nativos do inglês, o que em parte atrapalha a imersão e, por outro lado, soa engraçado em algumas partes, o que reduzo impacto da narrativa tensa, principalmente nos capítulos finais. 

    'She' é uma narrativa moldura escrita em forma epistolar: a história da viagem de Horace Holly e Leo Vincey à Africa para desvendar um mistério do passado de Leo é manuscrita por Holly, e o calhamaço então é entregue para um editor inglês, quando o par de aventureiros reotrnam à sua terra natal. O editor nos conta como conheceu rapidamente os protagonista e então, alguns anos mais tarde, recebeu o manuscrito que agora está sendo puvlicado em forma de livro.

O "Ostraco de Amenartas,
criado pela irmã de Haggard, Agnes Barber,
usado para produzir fac-símiles
que ilustravam algumas versões do livro.
 

    O enredo do livro segue Horace Holly, um jovem professor da Universidade de Cambridge, que recebe de Vincey, seu melhor amigo, a tarefa de criar seu filho, Leo. Ele dá a Holly uma espécie de cofre, com instruções de que ela não deve ser aberta até o aniversário de 25 anos de Leo. Quando a caixa é aberta, eles descobrem o antigo "Óstraco de Amenartas" - um fragmento de cerâmica com inscrições em grego, - além de uma tradução para o latim do Ostraco, com instruções e informações extras, aparentemente recolhidas pelos ancestrais de Leo. O conjunto cria um enigma relativo à origem de Leo e um mistério envolvendo uma antiga sacerdotisa egipcias. Seguindo as instruções encontradas no cofre, Holly, Leo e seu servo, Job, viajam para o leste da África.

    'She' é uma obra fortemente estabelecido em ideais neoimperialistas, enaltecendo os princípios da cultura inglesa e retratando os nativos africanos com uma cultura selvagem - em contraste com a erudita e esclarecida Ayesha, de origem Árabe, que apresenta ponderações filosóficas sobre religião e política e desdenha dos ingleses que consideram seus feitos como "bruxaria"

    De fato, uma das coisas que eu estranho na escoha da tradução para o português da obra, é o fato de Ayesha mas de uma vez repreender Holly quando este presenciava algum feito "milagroso" derivado dos seus conhecimentos chamando-os de feitiçaria ou magia. Ela sempre se identifica como uma mulher da ciência, que passou literalmente séculos aprimorando seus conhecimentos, desdenhando até mesmo de noções de religião como mera crendice e superstição sem fundamento. 

A obra também toca em alguns assuntos referentes à sexualidade, apresentando uma cultura matriarcal entre os Amahagger (a tribo que reverencia Ayesha e no meio dos quais os protaginstas estão inseridos durante a maior parte da história) e retrata Ayesha como uma mulher irresistível e totalmente ciente disso, que utiliza este atributo para subjugar e dominar facilmente tanto Holly (um misógino contumaz) quanto Leo (determinado a rejeitar Ayesha por seus atos relacionados à uma nativa).

    Eu admito que, apesar de ser apresentada como a antagonista da história, Ayesha é a personagem com pela qual eu senti a maior empatia. Ela tem objetivos claros, uma visão de mundo esclarecida e conhece perfeitamente suas capacidades. Enquanto isso, Holly tem sérios problemas em lidar com sua aparência - ele é feio ao ponto de ser apelidado de "babuíno" pelos Amahagger - sendo extremamente autoreferente e um tanto preconceituoso. Leo, embora seja retratado como o perfeito cavalheiro inglês, passa uma certa infantilidade e empáfia de quem sempre teve tudo o que quis, e embora tenha tido acesso à toda a cultura acessível em seu tempo, é bastante imaturo e pouco perspicaz. 

Mas isso pode ser preconceito de um leitor inserido no paradigma do século 21, lendo uma obra com quase 140 anos de idade. 

Enfim! 

Há mais três livros com Ayesha como personagem, publicados por Haggard, incluindo um encontro com Allan Quartermain, e eu estou bastante inclinado a procurar esses livros noa Librivox pra ler todo que ele escreveu sobre a personagem - e provavelmente vou ler As Minas do Rei Salomão e os outros livros do Allan Quarterman. 

Gostei bastante da escrita de Haggard, e achei as idéias e a trama do livro excelentes! 

Leitura fortemente recomendada! 

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Série Infinity's End

 Ano passado eu ouvi e resenhei os três primeiros livros da série Infinity's End, Caspian's Gambit, Caspian's Fortune (em uma única resenha) e Tempest Rising. A série foi escrita por Eric Warren e a versão que eu ouvi da série foi narrada por Larry Gorman - que faz um excelente trabalho, alias! 

Eu honestamente achei que estava mantendo a série resenhada "em dia" a medida que fui terminando cada livro, então foi uma considerável surpresa chegar aqui e descobrir que só tinha resenhado os primeiros dois volumes e o conto introdutório! 

Não vou resenhar cada um dos livros separadamente, porque minha memória não é boa o suficiente pra separar a trama de cada um individualmente - em teoria, é pra isso que eu mantenho esse maldito blog... - então vou resumir minha experiência aqui dos volumes 3 à 9 da série: Darkest Reach, Journey's Edge, Secrets Past, Planetfall, Broken Links, Memory's Blade e Infinity's End.

A série toda está no canal do autor, no youtube, e acredito que foi colocada lá por ele mesmo, considerando os comentários nos vídeos, o fato deles estarem lá há 2 anos sem repercussões e com uma considerável quantidade de comentários, reações e visualizações. 

Não que Eric Warren seja um grande autor - ele sequer tem uma entrada na wikipedia, o que diz muito sobre seu reconhecimento - e eu duvido muito que alguém teria se dado ao trabalho de piratear o trabalho do sujeito. 

O comentário acima provavelmente deixa claro o que eu achei da série... 

Como eu disse nos primeiros dois volumes, Eric Warren não traz nada de novo nos seus livros. É um space opera bem básico, com muitos alienígenas (interessantes e diversos, de fato, mas nada particularmente inovador) e uma trama de ameaça galáctica, na forma de uma espécie invasora que aparentemente tem capacidades de distorção temporal, oferecendo uma ameaça considerável à Coalisão (a Federação de Star Trek com um nome um pouco diferente). 

O protagonista da série é Caspian Robeaux, que no primeiro livro é um ex-membro da Coalisão que foi exonerado graças à um incidente à alguns anos. Sem dinheiro, trabalhando pra vigaristas pra conseguir consertar uma nave velha e tendo como unico aliado um velho robô com um senso de humor questionável. Ele recebe, eventualmente, a proposta pra um serviço pra Coalisão que pode limpar o seu nome - porque, obviamente, ele não cometeu nenhum erro realmente, e só foi incriminado injustamente. 

Nos livros subsequentes - e aqui obviamente haverão revelações sobre a trama! - ele se torna um membro relutante da Tempest (cuja tripulação não confia nele, porque, afinal, ele é um criminoso) na tentativa de contactar os Sil, uma espécie alienígena "visinha" mas que não faz parte da Coalisão, tendo uma tecnologia muito mais desenvolvida, e que pode ajudar com a ameaça que vem do outro lado da galáxia. 

Acontece que o tal incidente que fez Robeaux ser expulso da Coalisão foi justamente um ataque à uma nave Sil usando uma tecnologia experimental. De maneira bastante forçada, eles conseguem contatar os Sil e garantem um emissário da espécie pra ajudar com a tal ameaça intergaláctica. 

No processo, no entanto, eles enfrentam um monstro interdimensional que quase consome a nave e uma parte da tripulação (incluindo o capitão e o interesse romantico de Robeaux) morrem no processo. 

E é a partir daqui que a trama vai pro espaço (trocadilho obbviamente intencional). 

Além de um permanente estado de insegurança por parte de Robeaux, que de alguma forma ainda consegue ter apoio de alguns membros da tripulação da Tempest - mesmo sendo um bêbado inútil com passado criminoso. A tripulação usa tecnologia Sil em conjunto com tecnologia experimental pra melhorar a eficiência da Tempest (o correspondente à construir um carro de fórmula 1 a partir de um fusca, em uma semana, estando dentro do fusca no processo) o que permite que eles vão de encontro com a ameaça galáctica (sozinhos, porque eles são a única nave da Coalisão que tem potência de um carro de fórmula 1 em uma equipe de fuscas) comandados pela primeira oficial da nave. 

Eles acabam apanhando feio para os Athru (a espécie que vem de fora da galáxia com sua tecnologia de deslocamento temporal), caem em um planeta temporalmente embriagado, descobrem que a primeira oficial é meio Athru, uma descoberta que custa a vida de alguns tripulantes (incluindo a namorada da primeira oficial) porque a personalidade Athru recém desperta é dominante - mas logo em seguida é subjugada, porque ela só era necessária pra haver esse ataque psicótico da primeira oficial. Como a primeira oficial não é mais confiável, Robeaux (que agora todos sabem que foi injustamente acusado do incidente com os Sil anos atrás) se torna o novo capitão e eles conseguem sair do planeta deslocado no tempo pra descobrir que se passarma 50 anos na Tempest - que estava em órbita - e que agora toda a galáxia está dominada pelos Athru. 

Finalmente eles divisam um plano pra contactar os Sil (apesar da emissária ser considerada uma traidora por... Motivos) que se aliaram aos Athru mas não gostam deles, e graças à mãe da primeira oficial (que é uma Athru; a mãe, não a primeira oficial, que é só meio-athru) eles bolam uma estratégia totalmente descabida de atacar a ameaça de dentro, com uma única nave, que apesar de ser uma relíquia do passado (à essas alturas o equivalente à um Modelo T nas ruas de hoje) AINDA é mais eficiente do que todas as outras naves singulares. 

Nota: Eu sei que a Tempest ser a nave mais pica das galáxias vem do fato dela ter tecnologia Sil combinada com tecnologia da Coalisão em conjunto com uma tecnologia experimental, que seria o equivalente à ter um tanque com uma bomba atômica dentro durante a primeira guerra mas estar lutando contra toda a europa aliada à Asia... Sei lá, pra mim não fez o menor sentido... 

Enfim! 

Começam as reviravoltas mirabolantes: eles descobrem que os Athru são uma "versão evoluída" dos humanos, que passaram tipo 3 milhões de anos em um planeta fora de sincronia com o resto da realidade. E que o planeta terra não é o planeta natal dos humanos - os "humanos" são na verdade o resquício de uma raça que morreu milênios atrás, só que antes mandou "naves arca" com gente criogênizada pelo espaço. Uma dessas naves chegou na "terra" onde uma outra raça alienígena ajudou eles a terraformar o planeta (a esse ponto, eu já nem sei se a "terra" era pra ser a NOSSA terra ou uma versão variante... A coisa fica realmente confusa), o que levou à formação da coalisão. Enquanto isso, os Athru (que faziam parte de uma outra nave arca) estavam evoluindo à moda louco na galáxia ao lado porque chegaram no seu planeta atual milhões de anos antes dos humanos chegarem à "terra". Então os Athru - com milhões de anos de tecnologia na frente, e sem nenhuma semelhança com um humanos - decidiram que os humanos deveriam ser eliminados porque eles eram uma mancha na pureza genética da raça, uma espécie de ancestral defeituoso que ainda andava por aí. 

A Tempest vai lá, explode tudo, a mãe da primeira oficial morre, Robeaux é considerado um herói, os 100 humanos que sobraram decidem reerguer a Coalisão (que, honestamente, era uma organização pra lá de problemática), Box (o robô com senso de humor questionável, lembra? eu mencionei ele lá no começo) vira chefe da enfermaria da Tempest, fim. 

Tem um ou dois outros personagens relevantes que eu deixei de fora - como a emissária dos Sil - de propósito, porque o texto já tá mais longo do que essa série vale... 

O fato é que a construção de cenário tem vááários problemas. Além do final scooby-doo, que deixa tudo ainda mais bizonho; os Athru estavam todos concentrados ao redor de um único planeta, esperando uma bomba atômica explodir eles, e não tinham nenhum tipo de decentralização de comando: o Palpatine (porque eles tinham um Grande Lorde Negro do Mal, obviamente) era o único que mandava na espécie toda (que não era uma mente coletiva, percebam; eles só descobriram, no alto de sua evolução, que tirania absolutista era a melhor forma de governo. Pois é) e quando ele morreu o resto dos Athru concordaram coletivamente que não valia a pena exterminar os humanos. A lógica é que a propaganda do Palpatine (eu realmente não gravei o nome do Grande Lorde Negro do Mal do livro...) mostrava os humanos como moralmente falhos e inclinados à genocídios, e por isso todos concordavam que eles deviam ser exterminados. Daí quando os humanos vão lá e eliminam uma parte considerável dos Athru, eles decidem que não, os humanos nem são tão mauvados assim... Daí então os Athru, sem uma liderança firme, muito mais avançados tecnologicamente que todas as outras espécies conhecidas decidem, de repente que.... vão embora. Boa sorte, boa vida, apaga a luz o último que sair. 

Tá certo. 

Daí tem os robôs. O Box é o melhor piloto, o melhor médico, o melhor engenheiro e o melhor combatente da tripulação da Tempest, sem competição. E ele é um modelo antigo de robô, desenvolvido pra carga. Mas, estranhamente, não tem nenhum outro robô na Tempest - ou em qualquer lugar na história. Considerando as capacidades de um robô, porque não ter um contingente deles em cada nave, se pra mais nada, pra trabalhos perigosos como explorar planetas desconhecidos ou trabalho pesado? Em Star Trek, os androides não existem por razões sociais largamente explicadas dentro do cenário, e o Data é basicamente uma entidade singular. Em Star Wars, droides são empregados pra uma enorme variedade de trabalhos, mas tem a personalidade apagada de tempos em tempos pra não causarem problema. Agora, em Infinity's End, não tem nada disso. Box nunca é considerado um objeto, mas sim um indivíduo, todo mundo sabe que robôs existem por aí, mas por algum motivo todo mundo decide, sem razão nenhuma, que robôs são "desnecessários". Sem explicações. Eles só... Não são necessários. Então pararam de fabricar eles. Assim, do nada. 

E a primeira oficial usa a porra de uma katana! Uma katana, caralho! 

Bom, como eu disse, eu tive problemas com a série. Particularmente o último livro, que parece apressado, tem várias reviravoltas completamente estapafúrdias, uma quantidade de Deus ex Machina que eu não esperava e esplicações costuradas com macarrão cozido demais. Eu tinha remado um pouco pra terminar o livro oito, e a choradeira constante da primeira oficial e do Robeaux me cansaram eventualmente, mas o final da série é o que acabou com a série pra mim. 

Provavelmente não lerei - ou ouvirei, enfim - nada do Eric Warren no futuro, e, obviamente, não recomendo a série; mesmo estando à disposição no youtube de forma totalmente gratuita, é só perda de tempo. 

Enfim, pode ser que tenha gente que, como eu, tenha tempo pra perder. Vai saber... 

sábado, 20 de maio de 2023

Tempest Rising


 Segundo livro da série Infinity's End, do autor Eric Warren, que eu decidi ouvir depois de ter encontrado meio que sem quereo o primeiro volume da série em um canal que, eu assumo, é mantido pelo próprio autor no youtube. 

Assi como no caso do primeiro livro - e do conto introdutório da série - que eu ouvi inicialmente, não há nada de novo na trama pra qualquer leitor de ficção científica. Temos um cenário nos moldes de Star Wars (só que sem magos espaciais) em que várias espécies alienígenas organizadas em grupos com motivações distintas, com uma trama centrada em um personagem ladino (nos melhores moldes de Han Solo) que precisa contactar uma espécie isolacionista para salvar a galáxia de uma ameaça sinistra. 

Com um robô com aspirações humanas, um anti-herói em quem ninguém confia mas que na verdade é uma pessoa "boa de coração" e algumas tramas políticas rasas, é uma combinação de vários elementos de séries de ficção científica num caldo consistente - mas tão pouco memorável quanto qualquer bom sopão que alguém já comeu na vida. 

A narração de Larry Gorman é excelente, e o livro não é longo o suficiente para se tornar chato e tem alguns momentos interessantes - apesar de, definitivamente, ficar devendo para o primeiro volume da série em praticamente todos os requisitos. 

Um bom "audio para fazer alguma outra coisa ouvindo". Devo ouvir os outros audiobooks da série, já que estão facilmente disponíveis no youtube. Em geral, boa "leitura". 

terça-feira, 18 de abril de 2023

Caspian's Gambit & Caspian's Fortune


Caspian's Fortune é, oficiamente, o primeiro volume da série Infinity's End, do autor Eric Warren. Caspian's Gambit é um prelúdio para a série, e eu assumo que foi lançado em algum momento em que a série já estava em andamento - eu não consegui encontrar entradas nem para a série em si nem para o autor na wikipedia pra confirmar datas e lançamentos, o que, alias, pareceu bastante estranho, considerando que ele tem, aparentemente, mais de 20 livros lançados, alguns deles na lista de best sellers. 

A série em si tem 9 volumes (além do prelúdio) pelo que consegui levantar, e eles vão aumentando de tamanho a cada livro, como de praxe em séries literarias. Encontrei uma lista com todos os volumes até o nono em um canal dedicado ao autor no youtube. 

Trupiquei nesses livros meio sem querer no youtube, não sei bem como, e nunca tinha ouvido falar no autor ou nos livros antes. Mas como estava ouvindo um audiobook em duas partes e a segunda parte foi removida do youtube antes de eu poder ouvir (não ter grana pra manter um audible é uma coisa triste na minha vida.... Mas um dia eu reativo minha conta lá!) tive que encontrar uma substituição, e Caspian's Fortune estava na minha lista de "assistir depois". Como era o único audibook lá, fui dar uma olhada e como a conta era relativamente antiga e com vários livros uploadeados há algum tempo, achei que era uma aposta mais ou menos segura. 

Os livros não são um obra-prima da ficção científica. Não trazem conceitos revolucionários nem roteiros originais. Aliens, naves, lasers, impérios intergalácticos e armas apocalípticas. Uma história bastante "sessão da tarde" de fato - como os livros de Poul Anderson, que eu leio quando consigo botar as mãos em algum. Mas Eric Warren é um autor competente, com uma escrita fluida e eficiente e seus personagens são bem construídos, interessantes e bem explorados (o piloto de Caspian é um robô viciado em novelas mexicanas, por exemplo). 

Eric Warren não traz nada de novo nesses dois primeiros livros - e duvido que os próximos volumes façam algo diferente - mas o estilo de escrita, a narração extremamente eficiente de Larry Gorman e o refrescante fato de (PEQUENA REVELAÇÃO SOBRE A TRAMA!) não haver romance no enredo definitivamente me fizeram querer continuar acompanhando as aventuras de Caspian pela galáxia. 

Um bom livro (particularmente em sua versão em audio) e um bom conto introdutório. Em geral, uma leitura válida para quem só quer ouvir (ou ler, imagino) uma obra de ficção científica despretensiosa. 

Certamente ouvirei os próximos volumes à seguir - se o youtube não tirar eles do ar antes... 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Os Gelos de Ganymedes

Mais um livro sessão da tarde do meu autor favorito de desligar o cérebro, Poul Anderson. Esse livreco, no entanto, diferente da maioria dos livros de Anderson, me frustrou bastante, e ao invés de me deixarcom a sensação usual de que "tem idéias interessantes, mas a maioria foi explorada com pouca profundidade" que eu geralmente tenho quando leio os livros do autor, os Gelos de Ganymedes realmente me incomodou com seu desenvolvimento. 

A premissa do livro é interessante - como acontece com quase todas as obras de Anderson: um grupo deterraformadores profissionais é contratado para tornar a vida da colônia humana em Ganimedes (que no livro é escrita com "Y" porque sim), a lua de Júpiter que já foi colonizada há algumas décadas mas que ainda sofre profundamente com as condições climáticas do maior satélite natural do planeta dos anéis. 

Uma idéia extremamente interessante ao longo do livro é o fato de que a Ordem dos Engenheiros Planetários (os tais peritos em terraformação) tem uma postura quase religiosa com relação ao seu trabalho e seu dever com a Ordem em si. Eles colocam em risco suas vidas várias vezes ao longo do livro para proteger seu profissionalismo e o bom nome da Ordem. Não é dado nenhum tipo de explicação sobre o assunto de forma mais explícita, e se por um lado pode ser simplesmente o fato de estarmos diante dos mais leais funcionários de uma empresa jamais vistos ao longo da história da literatura, parece que há uma certa compulsão que faz com que os homens e mulheres que trabalham para a Abadia (o nome dado ao escritório central da Ordem, na lua) protejam, à todo custo, sua profissão. 

Mas, como tudo no trabalho de Anderson, isso não é realmente explorado ou explicado. 

Enfim, de volta à trama em si: 

O que acontece é que em Ganimedes, esses primeiros colonos la instalados na imaginativamente cidade batizada de "X" desenvolveram uma comunidade que, embora não possua ocnhecimento de engenharia avançado o suficiente para modificar o planeta ao seu redor, possui um conhecimento extremo de genética que permite que eles tenham alterado seus habitantes para suportarem o ambinte hostil do planeta. Esses humanos alterados - em contraste com os <<Cinc>> e os Angels>>, os líderes da comunidade, aparentemente sem alterações - que formam a maior parte da mão de obra da lua tem uma interessante característica secundária devido à sua alteração genética, que é o de serem extremamente afáveis e de baixa inteligência. 

Eu imagino se isso teria sido feito de propósito... 

Enquanto os <<Angels>> são os lideres religiosos e acasata mais alta de Ganimedes, os <<Cinc>> são os líderes civís, subordinados da liderança religiosa e fazendo todo o serviço burocrático de fato, enquanto os humanos alterados são a força de trabalho dos branquelos. 

Ah, alias, eu memcionei que os colonos originais eram um grupo de extremistas religiosos chamada de Doutrina Branca Americana? Então. A colônia é basicamente um antro da Klu Klux Klan no espaço. 

Considerando que os membros da Abadia senviados para o trabalho de verificação inicial são homens e mulheres de diferentes culturas da terra e do resto do sistema solar - tendo um marciano, uma japonesa, um indiano e um europeu que eu lembre agora de cabeça - obviamente que a chegada deles causa um certo rebuliço imediatamente. 

Alias, as descobertas feitas ao longo do livro fazem com que haja uma consideravel tensão entre os dois grupos o tempo todo, com escutas, uso de idiomas diferentes utilizados para a conversação, uma conspiração envolvendo um grupo de cientistas extinto há séculos... Tem algumas coisas bem interessantes que podiam realmente dar uma baita história. 

Mas ao invés disso, Anderson decide se focar em dois dos personagens, perdidos no planeta, sem contato com o resto da ppulação de Ganimedes, criando teorias infundadas e decidindo como salvar a própria pele da situação em que se encontram. Basicamente desconsiderando toda a construção de cenário e se concentrando nesse drama de sobrevivência que, no final, leva literalmente 4 páginas para resolver a situação na Luazinha quando os dois finalmente conseguem voltar pra X e desbancam o governo sem aparentemente dificuldade nehuma... 

Um desperdício do tamanho de um livro de bolso. 

De fato, esse foi, facilmente, o livro mais frustrante de Anderson, que costuma resolver sua trama com pressa e deixa de desenvolver alguns dos assuntos mais interessantes na suas tramas, mas definitivamente nunca nessas proporções. 

Infelizmente, este é o primeiro livro de Poul Anderson que eu não posso recomendar para ninguém.