Carl, o Explorador de Masmorras (ou Dungeon Crawler Carl, no original, geralmente referido pela sigla DCC, que é como eu vou me referir ao livro daqui pra diante) é um litRPG (abreviação para literary role playing game, um gênero literário combinando as convenções do RPG eletrônico com ficção científica e romances de fantasia - direto da wikipedia!) que me foi dado por um amigo (que não será nomeado) que tem bastante interesse el litRPG e está tentando engajar novos leitores. Uma cruzada nobre. Como DCC é o mais famosos dos LitRPGs, acredito que a idéia era começar pelo mais popular, afinal, popular significa que é o mais acessível/melhor.
Essa, pelo menos, foi a linha de raciocínio do amigo que me deu o livro.
De cara, posso afirmar: depois de DCC, vou manter a maior distância que puder entre mim e qualquer outro livro de litRPG.
Em tempo: litRPG, pelo que eu entendo, começou como um fenômeno de internet, sendo publicado interiamente online (incluindo DCC, mas eu posso estar errado; não me dei ao trabalho de pesquisar), o que significa que não tem intenção de ter uma estrutura literária tradicional, sendo atualizado pelo autor quando ele termina um novo trecho, que então pode ser lido isoladamente (por quem já leu o que foi publicado anteriormente) ou como parte da obra como um todo.
E aí temos o primeiro problema de DCC: ele foi publicado como um livro, mas não tem a estrutura de um livro. Ele é basicamente uma grande introdução - de 400 páginas... - sem início, meio ou fim. Ele começa começando: há um ataque alienígena, o planeta terra é totalmente devastado e os poucos sobreviventes precisam enfrentar uma masmorra criada pelos tais alienígenas pra sobreviver. Carl está dentro da masmorra no final do primeiro capítulo do livro (que tem 9 páginas) que termina com uma página inteira de exposição sobre a natureza do lugar.
Daí pra frente, até o final, o livro se resume à um ciclo de: Exposição sobre a natureza da masmorra numa sala segura/sala da guilda, Carl anda pela masmorra matando monstros, Carl chega à proxima sala segura/sala da guilda, exposição sobre a natureza da masmorra numa sala segura/sala da guilda, Carl anda pela masmorra matando monstros... Tudo isso salpicado com textos de destaque de "conquistas" (como eu disse, o gênero é baseado em convenções de jogos eletrônicos) que é basicamente a forma do autor de demonstrar todo o seu conhecimento de cultura nerd misturado com um humor quinta série.
Para além da questão de estrutura do livro, no que diz respeito à trama e o tema, é um livro de fantasia voltado pra "machões", com um protagonista brucutu — grandalhão (Carl tem 1,90), que vive comparando todos os outros personagens à sua própria estatura e porte físico (mesmo que a força na masmorra dependa de atributos numéricos e o seu gato é mais forte do que ele), que faz questão de atribuir gênero a tudo (incluindo monstros, vozes sem corpo, etc.), sexualiza — sob uma ótica puramente masculina — qualquer coisa identificada como "feminina" e com um complexo de herói que beira o ridículo. Ele acumula ainda traumas não resolvidos de abandono materno e, de modo geral, é incapaz de lidar com seus próprios sentimentos de uma forma minimamente significativa.
Além desses problemas diretos, a obra se esforça ainda mais em ser a pior versão possível de uma fantasia já bastante medíocre, incluindo:
Os blocos (imensos) de exposição gratuita, incluem descrições minuciosas de atributos aleatórios (e sem sentido) sendo elevados de nível, além de detalhes sobre a mecânica do jogo que não fazem nenhuma diferença dentro do cenário --- Donut, a gata, tem Força maior do que Carl, mas Carl é mais forte; mesmo tendo números medíocres em coisas como mecânica e explosivos, Carl é capaz de criar um novo tipo de dispositivo extremamente poderoso que é capaz de derrotrar inimigos de nível extreeeemamente mais alto; Donut tem agilidade maior e é muito menor do que Carl, mas ele é muito melhor em escapar de ataques. De modo geral, existe um sistema numérico com atributos (os mesmos de deidê) e habilidades (â lá GURPS) mas nada disso faz qualquer diferença factual.
Beira a ofensa ou demonstra uma total falta de tato - e não, isso não se enquadra como humor ácido ou terror cômico. É, na verdade, um descuido absoluto e repugnante, além de uma completa falta de empatia. Tanto o humor ácido quanto o terror, ao retratarem a crueldade, geralmente possuem um propósito — uma crítica ou uma mensagem a ser transmitida. O que temos aqui é apenas uma justaposição de algo cruel com piadas estúpidas — piadas que, invariavelmente, miram em pessoas em posição de vulnerabilidade (os chefões descritos em dois momentos como "caricaturas" e "estereótipos exagerados" de pessoas da terra, e o primeiro deles é uma mulher hispânica obesa, que vive na sujeira e sofre de transtorno de acumulação). É uma demonstração flagrante de falta de inteligência emocional e, sinceramente, repugnante.
Acho que o que temos aqui é o resultado de um autor privilegiado que que não precisa se importar, e encontrou uma audiência de pessoas que, igualmente, não se importam - por total falta de empatia, ignorância ou,, como no caso do autor, posições privilegiadas. Falta-lhes tato e bom gosto; são insensíveis, carecem totalmente de empatia... e por quê? Porque não precisam ser diferentes. Que sorte estar desse lado, né? Qualquer outra pessoa poderia acabar sendo o alvo dessas piadas. Mas são só piadas, certo?
É frustrante uma obra como essa recebendo a atenção que está recebendo, e perceber novamente que algumas pessoas podem se dar ao luxo de serem descuidadas — de escrever merda sem critério, publicar merda sem critério e rir de merda sem critério.
Antes de concluir (depois da reveleção da trama, marcada adiante), pra dar um exemplo direto de quanto esse livro me pareceu nojento, vou revelar detalhes da cena dos bebês goblins (incluindo alguns eventos que acontecem logo antes e depois dela), pra que, antes de ir ler o livro, tu possa conferir por conta própria se consegue achar algo assim minimamente aceitável — não é uma revelação grave (nada nessa porra de livro faz lá muita diferença) mas estejam avisados que haverá
*** REVELAÇÕES DA TRAMA ADIANTE ***
Depois que o gato e Carl matam aquela mulher hispânica de quem falei antes — uma cena, por si só, bastante brutal (ela estava sentindo dor, sem entender por que estava ali ou o que lhe havia acontecido; chorava, pedia ajuda e, por fim, pedia perdão enquanto Carl terminava de estrangulá-la) — eu fiquei tão chocado que pensei em parar de ler o livro. Carl, por outro lado, sentiu um breve enjoo, mas o gato continuou com suas tiradas — ah, ah, ah, um gato falante, que engraçado, né? Vamos mudar de assunto. E assim seguimos, até chegarmos aos goblins.
A gata de Carl, Donut, tem muito carisma (em termos de atributos; eu, como leitor, aparentemente sou imune ao seu elevadíssimo carisma e sua natureza felina), então os goblins que ela e Carl encontram em um covil agem de forma amigável e até começam a se abrir com ela. Duas dessas goblins (fêmeas, obviamente) mostram-se bastante vulneráveis, falando sobre traumas do passado, além de seus sonhos e esperanças --- basicamente, os monstros são seres sencientes que foram aprisionados ou escravizados nas masmorras e, sabendo que não conseguem escapar, tentam sobreviver até acumularem XP suficiente para serem transferidos para níveis inferiores, onde correm menos risco de serem massacrados por jogadores e podem manter seus filhotes em segurança (um detalhe importante para o que vem a seguir). Obviamente, as duas goblins fêmeas dão em cima de Carl. Como não? Donut cnvence os goblins a partiresm em uma missão, deixando ela e Carl sozinhos no covil. Eles aproveitam para roubar tudo o que os goblins possuíam, e em seguida, o gato sugere ir atrás do chefe dos goblins, que está no fundo do covil, para ganhar XP. Carl hesita por um momento, mencionando que ainda se lembra da sensação de espancar aquela pobre mulher hispânica até a morte com as próprias mãos e diz ao gato que outra luta não seja a melhor escolha no momento — apenas para logo em seguida dar uma guinada de 180 graus — que deveria ser engraçada, com um "Beleza, vamos nessa" (porque, afinal, a falta de empatia é hilária, não é?). Então, eles decidem enviar explosivos para a sala do chefe, à frente deles, para eliminá-lo sem precisar lutar. Carl empurra o carrinho de explosivos para dentro e, após a explosão, rindo de empolgação com o sucesso, a gata (que deu uma espiadela pra dentro da sala enquanto Carl empurrava o carrinho de explosivos) conta que viu o chefe, e que ele estava lendo para um grupo de bebês lá dentro. Ela faz questão de rir ainda mais, comentando como os bebês eram uma gracinha e — ha, ha! — que Carl deveria ter visto o carrinho atropelando um deles antes de explodir. Bebês de escravos ou prisioneiros sendo esmagados pelo carrinho do nosso protagonista, sob as risadas de uma gata mimada — hilário, não é?
A gata só se importa com a XP, espólios e a possível fama que ambos podem trazer. Carl não sente orgulho, mas segue em frente, pois perder tempo refletindo, processando ou questionando suas próprias ações seria um desperdício. Ao invés disso, somos "contemplados" com mais do humor de qualidade do autor.
Essa é a estrutura geral do livro. O capítulo seguinte começa com uma enxurrada de anúncios repletos de trocadilhos quinta série, sobre as inúmeras conquistas que eles obtiveram (algo como: "Conquista: Você é um assassino em massa! Recompensa: blá-blá-blá" — o auge do humor, sem dúvida). Divertídíssimo.
Mais tarde, Carl e a gata vão dormir. Entre dois parágrafos repletos de divagações sobre seus atributos, Carl consegue encontrar um espacinho — cerca de duas frases — para refletir sobre o que acabaram de fazer. Ele rapidamente joga o assunto para debaixo do tapete, convencendo a si mesmo de que a culpa não é dele, mas sim do jogo — afinal, ele "não teve escolha". Como qualquer criminoso de guerra diante de um júri. É a beleza de transferir a própria responsabilidade para quem está acima na hierarquia.
É assim que surge o que se tornará o mantra de Carl pelo restante do livro. Ele conclui, cheio de bravura (só que não): "podem me machucar, podem até me matar, mas não vão me quebrar" — o sujeito é literalmente um psicopata desde o primeir capítulo, esmigalhando cabeças de goblins contra o chão com próprias mãos! Não tem nada adiante pra alguém "quebrar".
Logo em seguida, começa a fama de Carl e da gata. A gata imediatamente se entrega de corpo e alma à fama, e, dli em diante, fica obcecada apenas pelos seguidores e por aparecer na TV. Quando foi que isso passou a ser algo cativante? É simplesmente revoltante: na primeira vez que ela aparece num estúdio de TV, cumprimenta a plateia e pergunta, com toda a doçura, se eles estão gostando do programa. Só pra reforçar que nada desse livro se qualifica como humor ácido ou como qualquer tipo de crítica a alguma coisa. Não é um momento do tipo "Vocês não estão entretidos?" Não há subversão, não há rebeldia, não há profundidade oculta.
É só... absolutamente... vulgar.
*** FIM DAS REVELAÇÕES DA TRAMA ***
Carl, Explorador de masmorras é um livro que não é um livro, que deveria ter ficado confinado em algum canto escuro da internet ao invés de se tornar um fenômeno popular. Mas o fato de termos um livro sem qualquer extrutura, com um par de protagonistas completamente psicoátas, fala muito sobre a sociedade atual, talvez. Eu não tenho qualquer intenção de entrar no mérito dessa questão, já que me concentro aqui apenas em resenhar livros — pra ajudar minha memória terrível e também pelo exercício de escrita — e não em crítica literária ou social. Mas esse livro ter se tornado tão popular ao ponto de, aparentemente, estar sendo adaptado pra uma série, é, honestamente, esntristecedor. E, aparentemente, eu ter detestado o livro significa que eu "não sei me divertir" — sim, eu ouvi isso (ou algo que o valha) quando dei meu primeiro parecer sobre a obra pro amigo que me deu o livro de presente.
Enfim.
Este não é um livro. Por mais que esteja publicado nesse formato, é só uma transcrição de várias horas de jogo de MMO ruim feita por um guri de 15 anos. Saber que esse livro é o mais famoso dos tais litRPGs me faz ter certeza que vou me manter bem longe desse estilo literário.
Leitura veementemente não recomendada.














