terça-feira, 20 de outubro de 2026

Adeus, Mamãe Gato

Seis anos atrás, uma gata começou a rondar as Gaylands. As outras gatas não pareciam incomodadas, então eu nunca me importei com a presença dela. Ela não me deixava chegar muito perto, então mantinhamos uma certa distância. 

Isso até uma fatídica noite, em que escuto miados estranhos vindo da sala de entulho (meu antigo quarto, que foi onde eu basicamente tinha socado tudo que tinha sobrado da limpeza, organização e reforma da garagem que se tornou a Taverna do Valhalla). Lá chegando, encontrei uma gata enrolada dentro de uma caixa de lixo, com três filhotes recém nascidos miando como loucos! 

Lembro que a caixa de lixo tinha um pote de cerâmica aos pedaços, e tinha medo que a gata ou os filhotes fossem se machucar. Fiquei cuidando, e quando ela saiu da volta dos filhotes, removi os cacos de dentro. Na verdade, removi todo o lixo de dentro, mas deixei a caixa imóvel. Pra minha surpresa, a gata estava interessada menos na caixa e mais no lixo em si, e mudou os filhotes pra caixa de lixo nova assim que voltou... Deixei ela e os filhotes na "nova" caixa de lixo, removendo só os cacos do pote. 


Queria poder dizer que a gata virou uma moradora das Gaylands naquele momento, mas não foi o caso. Muito embora eu tenha mantido ela e os filhotes confinados por alguns dias, minha esposa da época não gostava desse arranjo e soltava os bichos. Numa dessas solturas sem supervisão, um dos filhotes (Lios, que era todo branco) caiu na piscina e morreu. Em outra, a gata sumiu. Por sorte, nessa altura, os filhotes sobreviventes (Trigul e Dokka, ambos ainda conosco) já estavam desmamados. 

A gata reapareceu uns meses depois, prenha novamente. Minha esposa, na época, não vinha nas Gaylands - já estavamos na pandemia, e ela decidiu ficar com os pais, em Pelotas; o casamento acabou logo depois - e eu pude confinar a gata, decidido, dessa vez, a mantê-la presa até o final do desmame, e então mandar castrá-la. 

Mas... Ela veio doente. Estava com rinotraqueíte. Infectou os filhotes, e foi um momento de desespero, enquanto eu, na alta pandemia, tentava encontrar alguém que podesse me dar uma carona até um veterinário, enquanto fazia contas de cabeça de como ia pagar a internação dos bichanos. A Taverna tinha fechado, eu estava sem emprego, e só tinha economias pra gastar. Trigul ficou muito, muito doente muito, muito rápido, e eu precisei arranjar uma clínica num domingo, porque achei que ele não chegaria ao dia seguinte - e, de acordo com o veterinário, realmente não teria chegado. A internação foi um assalto, mas eu não tinha opção. Lembro que a situação era ridiculamente desesperadora: eu precisava pagar todos os dias, ou eles "liberavam" o bicho. E era um valor absurdamente alto. Eu abri uma vakinha, pedia dinheiro emprestado todos os dias pra amigos, e, pra surpresa de ninguém que conheça as peças, minha família quase toda se recusou a me ajudar. Foi essa situação me que me fez desistir de tentar me manter próximo deles. Queria acreditar no inferno, só pra saber que eles vão queimar lá! 

A Mamãe Gato e a Dokka não estavam tão ruins, e eu esperei até a segunda pra internar ambas, em uma clínica aqui mesmo, no Capão do Leão. Era nos cafundós, mas a internação era bem mais barata, e a veterinária me assegurou que eu não precisava me preocupar em pagar nada até que elas tivessem alta. 
A internação do Trigul foi a que menos durou, oxalá! Foram umas duas semanas. A Dokka foi preocupante, porque ela ficou deprimida, não comia. Estava só no soro, e em dado momento, a veterinária me chamou pra me despedir dela. Estava só osso, o pelo tinha caído quase todo. Chorei, abraçado na gata, pelos 5 minutos que a veterinária me deu com ela. Mamãe Gato, enquanto isso, se recuperou rapido, embora seus filhotes tenham nascido mortos. A veterinária pediu pra ficar com ela pra realizar a castração. Ela ficou um mês e meio internada, e quando foi liberada, levei o Trigul pra ser castrado também. Já a Dokka ficou mais um mês internada, mas acabou se recuperando também, e pra que fosse monitorada mais um tempo, deixei ela internada pra ser castrada, como fiz com a Mamãe Gato. 

A Vakinha cobriu a internação do Trigul, e eu consegui algumas ilustrações, que pagaram as despesas das gatas. 

Foi um ano complicado, 2020. Eu não tinha dinheiro pra ocmprar comida. O pouco que entrava ia pra ração dos gatos - eram 9, nessa altura: as trigêmeas (Spitzbart, Blitz e Affe), Mamãe Gato e seus dois filhotes, Miette (ou como é comumente conhecida, a Gata de Churrasco), Maya Tûk Skywalker (sim, ela tem nome e dois sobrenomes) e Nippet. Em algum momento no meio daquele ano, a Affe (que era, de longe a mais independente de todas as gatas, as vezes sumindo por uma semana) decidiu que as Gaylands não eram mais onde ela queria viver. Ela sumiu, e nunca mais voltou. Eu procurei, caminhei pelo bairro todo chamando, várias vezes, mas nunca vi nem vislumbres da gata. Espero que tenha achado uma casa melhor. Mas me aperta o peito sempre que eu lembro dela, e que não sei o seu paradeiro. 

Paulo, o cara que vende rações do outro lado da rua, me deixava pegar ração à ver, e foi graças à ele que eu consegui alimentar a gataria. Enquanto isso, eu me alimentava das plantas do pátio: ora-pro-nóbis, pinhões e caquis, principalmente. Pagava internet, mas a energia eu religava quando a CEEE cortava - eles literalmente entravam no meu pátio, desligavam os desjuntores e trancavam o relógio; eu quebrava o cadeado, religava a luz e esperava o mês seguinte. A água foi desligada e o registro removido, mas eu tinha água de poço, então não liguei. Passava os dias desenhando, enviando ilustrações pra editoras, publicando em sites, redes sociais, e tentava pescar qualquer coisa que aparecia. Fiquei nessa por meio ano, até que a Bianca entrou na minha vida, e tornou tudo muito, muito melhor, em todos os sentidos (caralho, como eu amo essa mulher!). Ela adora os gatos, alegra minha vida e fez com que, ao invés de viver no automático trabalhando pra sobreviver, eu quisesse ter um futuro. Ela fez - e faz - toda a diferença! 

No fim de 2020, as coisas estavam mais ou menos nos eixos. Eu não tinha grana pra pagar as dívidas com a CEEE ainda, mas pelo menos não estava fazendo mais dívidas. Tive que lidar com isso quando a Equatorial ganhou o leilão da privatização (maldito Dudu Milk, espero que tenha hemorróidas e que seu pau nunca mais suba, seu vendilhão mau caráter!) mas consegui saudar as dividas, novamente, graças à dinheiro emprestado de amigos. 

Eu sei, me perdi divagando. Mas a chegada da Mamãe Gato às Gaylands foi uma epopéia cheia de situações específicas, e falar dela sem mencionar isso tudo parece tornar as coisas menos importantes. 

Enfim. 

A Mamãe Gato tinha problemas de saúde desde sempre. Acreditamos que seja por ela ser resultado de endocruzamento (filhotes que resultam do acasalamento de indivíduos que são geneticamente próximos) por conta das famílias de gatos da região. Foi a hipótese levantada por dois amigos meus veterinários que viram a gata, além da veterinária que castou ela. Ela tinha má formação na mandíbula, com dentes pequenos e presas enviesadas, os olhos eram completamente pretos, como se houvesse uma camada de insufilme sobre eles, seus miados eram um susurro inaudível, a língua era longa demais pra ficar dentro da boca, e sempre ficava uma ponta pra fora. E ela era quadriculada, pelo menos na cabeça (o que não era um defeito, mas sim um charme da gata). Eventualmente, ela começou a babar de forma exagerada, mas considerando todos os problemas que ela tinha, além da idade avançada, isso era normal - nós não tinhamos idéia da idade dela, na verdade; os veterinários que a verificaram ao longo dos anos disseram que, por causa do endocruzamento, era difícil dizer a idade dela, e ela podia ter entre 1 e 10 anos quando chegou nas Gaylands; eu assumi que ela tinha 5, no meio do caminho. 

Um mês atrás, mas ou menos, ela começou a ter dificuldade de comer. Pegar ração no prato era difícil - por causa do formato da mandíbula e da falta de dentes - e começamos a preparar fígado e outras comidas em pasta pra ela. Eventualmente, ela parou de comer ração. Então, uma semana atrás, ela começou a ter reações físicas quando comia - botava a lingua pra fora e passava a patinha no rosto quando comia algo sólido. Ficou ruim um dia, no outro comeu normalmente, daí reagia a comida sólida, mas melhorava no dia seguinte... Estava perdendo peso, mas tinha energia. Agia normalmente. Bebia água. Lambia as pastas que preparávamos. No sábado, parecia abatida. Mas no domingo, ela teve uma reação boa, comeu bem, correu pela casa. Mas decidimos que ela precisava ver um veterinário. Decidimos levá-la no fim da tarde. Bianca saiu pro trabalho, eu me fui pras lidas de casa. No meio da manhã, cheguei no quarto e a gata não respondia. Chamei a Bianca, que se desembestou o trabalho, e levamos ela pro veterinário. Glandulas salivares inchadas foi o diagnóstico. Foi internada, pra receber soro e antibióticos. Mas estava pouco responsiva. Resistiu a noite, mas morreu na manhã de terça. 

Está enterrada ao lado do Gato Amarelo, dentro de uma caixa de lados altos, como a caixa de lixo que escolheu pra ter seus filhotes, deitada sobre o pano que instalamos sobre o forno, seu lugar favorito. 
Ela trouxe muita alegria pras Gaylands, e nos deixou dois lindos filhotes, que, como ela, enchem a casa com sua presença. 

Por mais complexa que tenha sido sua história nas Gaylands, Mamãe Gato foi profundamente amada, e sei que demos bons anos pra ela, e que ela foi uma gata muito feliz aqui. 

Ela será lembrada e estará conosco pelo resto de nossas vidas. 

Adeus, Mamãe Gato. Obrigado por tudo.

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