quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Os Náufragos do Ar - A Ilha Misteriosa

Sempre tive uma curiosidade enorme de ler A Ilha Misteriosa, porque sabia que o livro concluía a história do Capitão Nemo, narrando seu destino depois dos acontecimentos narrados em Vinte Mil Léguas Submarinas, um livro que li ainda adolescente e que me deixou boas lembranças.

Infelizmente, porém, essa edição da editora Villa Rica - da qual eu nunca tinha ouvido falar, alias - contém apenas a primeira - e extremamente chata - parte do livro. Sem qualquer aviso de que se trata de uma versão parcial da obra, o livro me enganou lindamente.

Por alguma razão misteriosa, a editora decidiu por bem dividir a obra em dois -ou mais, não pesquisei - volumes. Sim, tem um "I" ali, depois do "subtítulo" do livro (eu só percebi isso agora, quando escaneei a capa pra ilustrar essa postagem. Uma escolha infeliz de cores esconde essa informação de maneira magistral. É quase um "onde está Wally"! Pior, a cena retratada na capa mostra, justamente, um dos últimos eventos da história, que obviamente não está presente no livro! Em nenhum momento desse primeiro volume há qualquer indício de que o vulcão explosivo da capa apresenta algum perigo aos náufragos - de fato, em um dado momento do livro, eles passeiam por dentro da cratera do vulcão, completamente inativo! Mancada feia, Vila Rica!

O livro, nessa versão estripada, narra a chegada e a "colonização" da ilha pelos náufragos, apenas, apresentando inúmeros mistérios - como o misterioso salvamento de Cyrus, o lider da expedição e a "criatura" do lago que salva Top, o cão grupo - que só serão revelados nos volumes seguintes. Bastante frustrante. Alias, falando no salvamento de Top, ele é atacado por uma criatura terrivelmente perigosa, uma "vaca-marinha" (na verdade, um dugongo) de uns... 14 quilos Considerando que um dugongo nasce com um peso que varia de 20 à 35 quilos, essa "terrível fera" devia ser um aborto morto-vivo, pelo peso. Um dos inúmeros erros do livro, que converte algumas medidas, como as de peso (e erram ao fazer isso) mas não distâncias, mantendo as milhas originais do livro. Uma confusão.

A Ilha Misteriosa trata do "naufrágio" de um grupo de cinco prisioneiros de guerra americanos, que, durante a guerra da sesseção escapam das tropas sulistas usando um balão, mas são pegos por um furacão que os joga em algum ponto do hemisfério sul, próximo à Nova Zelândia ("próximo" significa cerca de 2.500 quilômetros, nesse caso). O grupo, liderado pelo engenheiro Cyrus Smith, consegue, em meio ano, não só sobreviver na ilha (aparentemente abandonada) mas também criar uma colônia com duas habitações, com direito à paredes de tijolos, fornos, forjas, ferramentas de aço e até nitroglicerina! Sim, os caras são ninjas!

No decorrer da história (não contada nesse livro) eles acabam resgatando outro náufrago em uma ilha próxima, Ayrton (personagem de outro livro de Verne, Os Filhos do Capitão Grant), encontram e treinam um orangotango, enfrentam um ataque pirata e, finalmente, descobrem a presença do capitão Nemo na ilha - que no climax do livro, acaba sendo destruída pela erupção do Monte Franklin, um vulcão não tão inativo quanto se pensava. Sim, a segunda parte da história é bem mais eletrizante do que a primeira, o que me faz refletir no porque de dividir a obra em duas... Editoras. Nunca vou entender o que acontece dentro delas...

Enfim!

Aqueles que tiverem acesso à este livro e sua(s) continuação(ões) ou uma versão integral da Ilha Misteriosa podem ter certeza que é uma obra interessantíssima, particularmente se for lido em seguida de Vinte Mil Léguas submarinas.

Essa versão da editora Villa Rica, no entanto, por todos os problemas citados acima, não merece atenção. Há versões integrais da obra publicadas em português em diversas épocas, então não é exatamente uma dificuldade de se encontrar uma boa tradução integral, tanto em livrarias quanto em sebos. Sugiro fortemente que seja preferida uma versão com ilustrações - vindos da obra original - que são de encher os olhos!

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

The Heritage of Shannara

 Continuando com minha pequena aventura no cenário de Shannara, aqui vai a resenha da mais recente série de livros escritos por Terry Brooks para o cenário.

The Heritage of Shannara é uma quadrilogia de livros que se passa cerca de 300 anos depois da série original, composta por  The Scions of Shannara, The Druid of Shannara, The Elf Queen of Shannara e The Talismans of Shannara. Eu pretendia fazer uma resenha de cada livro, mas no final do primeiro volume fica claro que apesar de estar em quatro livros separados, essa série - assim como as séries que Brooks escreveu depois de sua trilogia original - é uma grande história única, e não faria sentido fazer uma resenha de cada um deles separadamente.

Heritage of Shannara é o primeiro arco de histórias passada depois da trilogia original (Sword, Elfstones e Wishsong) em ordem cronológica. Nessa saga, acompanhamos os quatro herdeiros da linhagem Shannara/Ohmsferd lidando com a última busca ditada pelo espírito de Alanon, o último dos Druidas. Eles devem lidar com uma nova ameaça que está infestado as Four Lands (eu realmente gostaria de achar uma tradução legal pra isso, mas "Quatro Terras" parece coisa de universo alternativo da DC Comics...), trazer os elfos de volta (sim, os elfos de Shannara estão SEMPRE fugindo/se escondendo/metendo a cabeça na areia e fodendo tudo no processo...) e ainda restabelecer a ordem dos Druidas - que, com Alanon, que era o último druida, morto há mais de 300 anos, significa criar uma nova ordem meio que do nada, na verdade.

Cada um dos três primeiros livros acompanha um dos herdeiros em sua busca particular, enquanto o quarto e último livro mostra o desfecho da história, com as explicações que não foram dadas ao longo dos livros anteriores, a maioria das explicações de porquês/comos as coisas aconteceram e como os herdeiros irão lidar com suas descobertas e com os resustados de suas buscas.

Uma das coisas que eu gostei muito nessa série foi o fato de Brooks ter trazido de volta todos os elementos da trilogia original de uma forma ou outra. Temos a Espada de Shannara, a Espada de Leah, as Pedras Ellficas originais, um possuidor do Wishsong, um druida solitário, três grupos em busca de três objetivos que vão mudar a história do mundo... É quase um remake, mas não se enganem, é uma história completamente diferente, apesar de todos os pontos em comum! E isso é o mais divertido em Heritage of Shannara!

Na verdade, depois de demorar algum tempo pra entender que tudo tinha mudado em termos de política das Four Lands - os anões escravizados, os elfos fugindo DE NOVO!, um grande exército humano dominando tudo e impondo suas leis tirânicas... - e que grande parte disso era, outra vez, maquinação de uma força maligna - muito embora dessa vez a tal força maligna aparentemente sabe o que está fazendo e tem um plano conciso e eficiente - o que me tomou boa parte do primeiro livro, o resto da história na verdade foi extremamente divertido. Em retrospecto, na verdade, eu acho que gostei mais dessa história do que dos três livros originais. Adoro quando o autor explora o cenário e faz o leitor pensar "Ei, eu lembro disso, lá daquele outro livro!"

Minha única crítica é que a história é muito enrolada. Muitos acontecimentos parecem tomar muito mais tempo do que o necessário, e certamente a história podia ter sido comprimida em três livros - ou, na verdade, se eu estivesse lendo os livros físicos, provavelmente acharia desperdício de capas a história não estar em um volume único.

Então, fora a encheção de lingüiça - que não é particularmente exagerada - e do maldito plot dos elfos fugindo e se escondendo em um lugar bizarro mais uma vez - que, isso sim, já cansou... - essa é uma boa história, com personagens interessantíssimos e um excelente uso do cenário desenvolvido ao longo dos outros livros!

Praqueles interessados em conhecer Shannara, definitivamente esse é um livro indicado pra tanto!

sábado, 9 de julho de 2016

De Bárbaros e Bruxas

Um Jarl chega às terras de outro num fim-de-tarde sombrio, e com a promessa de uma noite tempestuosa, é convidado à sentar-se e beber da hospitalidade de seu anfitrião.

Tendo recebido seu irmão-de-armas, após os preparos necessários, ambos sentam-se no grande salão, solitários exceto por alguns barris de cerveja e um fogo já meio morto. Lá fora, a noite ruge em ventos negros e relâmpagos pálidos.

Depois de degustarem alguma comida, ambos acendem seus cachimbos para acompanhar suas cervejas, e o anfitrião, depois de ouvir intensamente a noite lá fora por alguns minutos, começa:

- Ah, meu amigo... As madrugadas são o lar das malditas coisas que vêm pelas brechas formadas pelos ângulos da mente desperta.

- A mente desperta... Qual foi a maldita coisa de agora?

- Uma sombra. Um espectro. Não sei bem definir. Uma coisa. Odeio lucidez demais.

- Tu viu? Na tua torre?

- "Ver"... Hum... Não tenho certeza se ver seria o verbo correto. Não acho que ela teria um verbo correto.

- Lucidez é uma coisa útil, às vezes, mas um bom andarilho da madrugada sabe que a noite traz coisas interessantes á nossa cabeça. A criatividade é uma das maiores beneficiadas!

- A criatividade cria medos e dúvidas. Sombras. Eu não queria nada disso. Não queria estar lúcido. Eu quria algo que eu pudesse cortar, apunhalar, golpear. Algo que sangrasse e lutasse de volta.

- Com o monte de cerveja qe tens aqui, não é difícil deixar de estar lúcido!

- De fato! Chifres e cascos! Acho que vou mesmo me dar um pouco de esquecimento etílico!

- Coisa do demo!

Ambos riem e canecas de cerveja são servidas e bebidas. O anfitrião volta a falar:

- Meu inimigo tem meu sangue. E ele conhece o campo de batalha. Mas eu tenho ao meu lado o fator surpresa. O exército dele é maior, e eu acho que sou taticamente mais apto. Mas estou em dúvida. Não sei se devo ou não atacar. Sempre odiei atacar outros nórdicos... Decisão difícil.

- Atacar outro nórdico pode não ser legal. Se você for perder homens do teu exército, pior ainda. Eles precisam fazer a colheita!

- É no que estou pensando.... Vou perder homens demais....

- Quando não sobravam mais inimigos os nórdicos sempre brigavam entre sim... O grande defeito deles.

- É que nesse caso, o ganho é imenso!

- O orgulho e a sede de sangue dos deuses...

- Um tesouro que não pode ser medido em palavras! Hum... Sede de sangue.... Será isso?

- Uma vez tinha um cara que se chamava Beowulf, e ele queria uma coisa rica e poderosa que não podia ser medida em palavras... E, para encurtar a história,  ele se fudeu no final.

- Malditas lendas nórdicas!

- Pois é...

- Recuar, recuar.... Tão perto. Tão perto.... Maldita sombra.

- Ivar Ivarson morreu em ampla vantagem numérica e moral... O descontrole e a raiva não deixaram ele pensar direito e ele sucumbiu ante a coragem e determinação de Uhtred Ragnarson, que era mais jovem e não estava precisando recuperar PVs como ele!

- Háh! A diferença é que meu inimigo é jovem, tolo, despreparado e está mole pelos anos sem guerra!
 E ele nem sabe que eu estou aqui!

- Sempre há um risco. Não sei. Um ealdormen não deveria dar conselhos ou instigar guerras e batalhas que não lhe afetam. Prefiro não opinar. Queira ou não queira batalhas trazem morte.
 E perdas.

Ambos bebem mais um pouco, imersos em seus próprios pensamentos. Até que o visitante retoma a palavra:

- Tu quer roubar a mulher desse cara? Para isso não precisas de guerra, mas de um bom sceadugengan!

- Porque sempre se trata de mulheres?

- Porque nórdicos gostam de mulheres... O deus cristão não gosta, mas Frey tem Freya e Odin e Thor são os guerreiros fornicadores... Aesires, Vanires, todos gostam de desembainhar as espadas!

Ambos gargalham e bebem longamente, antes do anfitrião, com um sorriso lupino no rosto, voltar a falar:

- Só um companheiro de fé me poderia por pra rir numa situação como essa!

- Ninguém entra no castelo com suas armas. E se tu usar teu privilégio de usar a tua porque estás no teu castelo, estás abusando e ferindo tua própria honra.

Ambos bebem em silêncio por um momento, até o visitante exultar com emoção:

- Wyrd Biõ Ful aered!

Há o choque de canecos de um brinde amistoso, e depois de grunhidos de satisfação e mais cerveja ser sorvida e as canecas serem enchidas novamente, o visitante continua:

- Há dias tu vem falando de uma mulher misteriosa e só diz: ela, ela ela... Tu vai roubar a mulher de quem?

- Chifres e cascos! Eu tenho mesmo falado nisso?

- Consideravelmente!

- Esse é exatamente o problema, meu bom amigo.... Eu não posso falar quem é, e no entanto....
 Não consigo pensar em outra coisa.

- Não sendo a minha, as lanças dos meus homens vão continuar imóveis, escoradas nas muralhas cinzentas da minha fortaleza!

- Não te preocupes! Se eu me visse desejoso das tuas terras, preferiria cortar minha garganta antes de atacar!

- Mas guerras são guerras e se tuas tropas se moverem tu vai provocar derramamento de sangue...

- Ah....  O calor da cerveja.  Eu precisava disso.  minha vista turva, e eu me sinto mais leve!

- Mulheres são como cerveja! Turvam o olhar dos homens, meu amigo!

- Garn e Fenris, eu tenho mesmo falado nela?  Digo... Tenho falado tanto assim?

- Não sei. Eu notei, e não sou nenhum Sherlock Holmes... Mas temos falado bastante. Quando uma mulher habita nossos desejos ela sempre aparece, em qualquer assunto. É como RPG!

- Isso é preocupante.  Me disseram que ela tem perguntado sobre mim. Mas eu acreditava que estava... Incólume? Segregado? Se eu tenho falado nela, imagino que deve ficar evidente quando estou com ela! Cifres e cascos! Isso é deveras preocupante!

- Ragnar era um senhor forte e imponente, dono de uma frota de três navios, governante das colinas, um líder generoso que dava muitos braceletes... E ele descartou Kjartan, que não parecia um aliado em potencial. Wyrd Biõ ful aered... Ganhou um inimigo mortal. Deixa um bom contingente guardando tua fortaleza e te afasta! Reúne alguns bons homens e vai saquear ou caçar javalis no sul. Espairar as idéias. Esquecer essa mulher... A paz sempre é valiosa e só percebemos seu valor quando entramos em guerra!

- Wyrd Biõ ful aered Se tiver que ser, será.  Tens razão.  Mas a maldita sede de sangue.....

- É Loki tentando nos aprontar! Na verdade conheço dois senhores do norte com os quais acho que não deverias mecher, pois os outros senhores não veriam isso com bons olhos: Struik e Bebaarde.
 O resto eu não conheço, e não ligo. Se um homem possibilita que roubem sua mulher é porque não tem dado a ela o que merece... E guerra é guerra. Se tu precisa... As fiandeiras aprontam!

- Tu achas mesmo que eu seria capaz de levantar minha espada contra qualquer um desses dois?
 Struik é um irmão de armas! A esposa dele é como uma irmã pra mim!

- Não conheço tua relação com eles. Conheço muito pouco os dois, infelizmente.

- Bebaarde é um senhor fraco. Vastos territórios e se empenha em batalhas contra outros povos. Inclusive já entrou em conflito com o Struik, certa feita. E tive que mover minhas tropas. Não gosto dele, nem sei se ele é bem visto.

- "É provérbio meu que, tendo excluído tudo que é impossível, aquilo que fica, por mais improvável que pareça, é a verdade."Conan Doyle - A Coroa de berilos. - Sherlock holmes. Pensando assim, as únicas mulheres com quem sei que trocas correspondências são a Heks e a Rozen. Não citei as duas por mal. Foi só uma leitura superficial.

- Estranho tu veres a Heks trocando correspondências comigo, já que em geral nos falamos ao vivo.

- Ah, então foi nas correspondências com a Moer. Pessoas envolvidas, enfim. Essas cartas são comentadas por todos, não sou um bisbilhoteiro!

Ambos gargalham amistosamente, e o anfitrião retoma a palavra:

- Minha vida é um livro aberto, meu caro! Nada do que pudestes encontrar nos meus alfarrábios mancharia minha honra!

- Que bom! Quando os fatos estão expostos a todos não precisamos de explicações para desembainhar a espada em público quando ferirem nossa honra! Mas fiz loucuras de amor bem toscas e tenho plena convicção de que até mesmo os homens mais maduros podem fazer merda quando estão apaixonados. E isso é legal porque mostra nosso lado primitivo. Quando Cernunnos quer que pensemos com a cabeça de baixo, meu amigo, sai da frente por que vão ser apenas chifres e cascos!
 Todas as leis, medos, vergonhas, responsabilidades desaparecem e só dá ELA.

- Esse é exatamente o problema. Os anos me ensinaram a agir com a cabeça. E eu sei que sou bom fazendo isso.  Mas nesse momento, só tenho vontade de desembainhar a espada e derramar sangue!
 E que hajam baixas! Que morram meus homens!

- Tu tem que decidir se tu quer a MULHER ou o SANGUE. São duas coisas diferentes, embora não pareça.

- So que depois de uma guerra muito sangrenta, a vitória pode ter mais gosto de derrota e cinzas do que o doce do hidromel.

- Exatamente! Beowulf de novo!

- Malditas lendas nórdicas! Mas me diz, o que queres dizer com mulher e sangue serem coisas diferentes? Acaso crê que eu derramaria sangue apenas pela luxuria da batalha?

- Lembra do Ragnar oferecendo a coroa da Nortúmbria pro Uhtred? Ele queria! Sede de poder! Mas sabia que como rei só teria compromissos e chateações. Como guerreiros pode ter as mulheres, as bebidas, a liberdade, o regozijo da batalha!  "Mas nesse momento, só tenho vontade de desembainhar a espada e derramar sangue!"

- O problema é que a coroa me interessa. Uma sala cheia de cerveja que me engorde e me deixe lasso, sem precisar voltar pro campo de batalha vez após vez. Cansei de errar e campear guerra. quero a paz gorda, quero a rotina chata de receber os senhores e seus pedidos, quero doar os braceletes que já conquistei, ao invés de encher meus braços de metal até que eles fiquem... ...pesados demais até pra levantare uma arma! Minha sede de sangue é por uma fortaleza forte, uma terra rica e uma vida chata!

- Te entendo! Cara, eu te conheço há uns anos, mas há pouco tempo te conheço como amigo próximo e só agora percebo algumas coisas. E uma delas é que andas bastante preocupado com a hora de essa terra rica e vida chata chegarem... E eu entendo essa tua preocupação, mas queria te dizer para não ficar tão preocupado. Nós vivemos numa sociedade fudida que tá pouco ligando para o nosso tipo de gente, então não precisamos seguir as regrinhas deles. Naquela época em que tu falava das Crônicas Saxônicas nas tuas missivas e ficou triste com o lance com a Liefje, tu escreveu uma carta muito triste e depressiva, cheio de "constatações" sobre si mesmo e foi muito triste ler aquilo. Mesmo que eu não te conhecesse eu não gostaria de ler. E o que eu posso te dizer é que tu não é aquilo, cara. Tu não é nenhum looser do jeito que tu te descreveu e a nossa hora chega. Relaxa! Se tu realmente quer essa mulher, vai lá e pega ela para ti! Mas não te preocupa demais. Deve estar parecendo que estou viajando na maionese e saindo do assunto, mas esses assuntos tem a ver um com o outro e eu queria falar isso e nunca tive oportunidade. Tu é foda, cara. Ninguém é melhor que ninguém nessa porra. Um castelo chato com uma rainha no trono ao lado não é melhor que a liberdade de andar para lá e para cá. Na paz temos sede de sangue, na guerra temos sede de paz. A gente sempre vai ver problema nas coisas e encher a cabeça de preocupações. É normal. Como já disse o cara aquele: a vida é o que acontece enquanto fazemos planos! Enjoy! Happy fun! Braceletes também são bons!

- Tu sabes que acabas de te contradizer de forma épica, certo?

-  Talvez, mas eu disse o que queria: Um trono chato com senhores vindo pedir coisas não é melhor ou pior que uma guerra incessante por ocupar esse trono. Então faz o que tu queres, é tudo da lei.

- Das sagas nórdicas pra bruxaria moderna de Crowley!  isso tá muito interessante!

- É... Porque os malditos padres não deixaram sobrar nada da bruxaria antiga.

- Valeu, Jakhals. De verdade. Eu na verdade ando bem feliz, por esses tempos... E essa foi só uma noite de melancolia sem lua numa infindável sucessão de noites de lua cheia! Mas foi bom trocar essas palavras! E se fosse fácil assim, eu ia lá e pegava essa mulher, mesmo. Mas admito que tenho muito, muito medo do que isso pode gerar.

- Eu sei, mas ali ainda surgiu uma reminiscência daquele pensamento de "eu tenho que casar e ter uma casa e filhos" e eu só queria ressaltar que tu vai ter isso, se quiser, mas que não precisa te preocupar!

- São os anos pesando nos ombros...

E em silêncio, ambos beberam até o barril estar seco e seus pensamentos estarem cheios, e então se retiraram, como sombras, e deixaram o forro morrer e a noite de tempestade se acalmar em uma manhã nublada.

(a conversa é uma transcrição ipsis literis de um encontro real, ocorrido há alguns anos atrás, e apenas os nomes dos envolvidos - e daqueles citados - forma alterados)

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Praticamente Inofensiva

Finalmente cheguei ao fim da Trilogia de Cinco do Guia do Mochileiro das Galáxias!

Depois de um terrível desapontamento com o terrível Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes, que foi, digamos, uma obra com gosto de chá de camomila com quatro colheres de sopa de açúcar, cheguei um pouco receoso ao quinto e último livro da Trilogia de Cinco.

Mas, por sorte, o livro é bom! Não excelente, como os dois primeiros volumes, mas tão bom quanto o terceiro, certamente!

Apesar de Zaphod Beeblebrox e Marvin, o Androide Paranóide não aparecerem no livro, os outros personagens da série (Trillian, Ford Prefect e Arthur Dent) estão aqui, diferente do livro anterior, focado apenas em Arthur Dent - e na tenebrosa Fenchurch, a mulher-água-com-açucar.

A história também retoma algumas coisinhas da trilogia original que foram completamente deixadas de lado no quarto livro, como Vogons, o próprio Guia do Mochileiro das Galáxias e até mesmo as últimas palavras de Agrajag de que Arthur encontraria ele em Stavromula Beta.

O livro também retoma o clima nonsense dos primeiros livros e, apesar de não fazer isso tão magistralmente, definitivamente permite que o leitor relembre o quão bom os primeiros volumes foram - e que bela bosta foi o quarto!

Li pela internet afora que, na verdade, alguns fãs da série não consideram esse livro como pertencente à saga do Guia do Mochileiro das Galaxias - eu, particularmente, preferiria desconsiderar Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes, mas ok... - provavelmente por conta do final, que encerra a série definitivamente, o que pode ser uma alegação válida, apesar dos personagens do livro, já que a trama revolve em torno de realidades alternativas. O próprio Douglas Adams considera que o quinto livro realmente termina de forma um tanto quanto sombria, e enquanto escrevia O Salmão da Dúvida, chegou a dizer que talvez fosse depurar o conteúdo do livro e transforma-lo em um sexto livro da série do Guia do Mochileiro das Galaxias - o livro, infelizmente, não chegou a ser terminado antes da morte de Adams, e portanto nunca saberemos se essa possibilidade poderia mesmo ter ocorrido.

Apesar de haverem outros livros e contos ligados ao universo do Guia, creio que não devo voltar à esse universo, já que esses outros livros não foram escritos por Adams - exceto por Young Zaphod Plays it Safe, que provavelmente, como o nome indica, gira em torno de Zaphod Beeblebrox, o personagem da série que eu menos gosto, e portanto não me chama a atenção.

Como uma nota relativa ao universo do Guia do Mochileiro das Galáxias, descobri também que Douglas Adamns criou uma "edição terra" do Guia, na forma de um site, antes mesmo da Wikipedia dar as caras, e que parece bem interessante! Pra aqueles interessados, o site é o h2g2, e me pareceu bem interessante, pelo pouco que li.

Bom, pra finalizar, eu diria aos interessados na série que fiquem só nos primeiros dois livros, ou, se quiserem um pouco mais de divertimento, o terceiro e o quinto livros são boas pedidas. Mas, façam um favor à si mesmos, e fiquem longe do quarto livro!

Finda essa resenha, só me resta dizer Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes!

sexta-feira, 10 de junho de 2016

A Study in Emerald


A Study in Emerald é um conto de Neil Gaiman sobre Sherlock Holmes passado no cenário dos Mythos de H. P. Lovecraft - sim, o cara do Chutulhu!

É, parece uma salada monstruosa de batata com pizza inglesa picada e cobertura de polvo cru, eu sei. Mas acreditem: É muito bom!

Esse conto está presente no livro Coisas Frágeis, que eu já resenhei aqui no Café com Letra, e inclusive já mencionei lá - como sendo "Surpreendentemente surpreendente!" E tenho que dizer que, após ler o conto outra vez, agora no original em inglês, eu definitivamente concordo comigo mesmo com relação à isso!

É, essa afirmação ficou meio maluca. Deve ser influência de algum Grande Antigo.

Não, eles definitivamente não se importam tanto assim comigo. Deve ter sido o melete de cogumelos que comi mais cedo, mesmo.

Enfim!

Gaiman publicou esse conto tanto em Coisas Frágeis como em Shadows over Baker Street - que é uma coletânea de contos de vários autores misturando as obras de Arthur Conan Doile e H. P. Lovecraft. Sim, a idéia é boa e muita gente parece ter embarcado nela!

A parte divertida aqui é que Gaiman disponibilizou o conto em sua página pessoal - e com o bônus de ter usado um lay-out e ilustrações que fazem o conto parecer estar impresso em um folhetim de época, incluindo uma série de propagandas de produtos que remetem à outros personagens folclóricos como Drácula, Frankenstein e Doctor Jekill. Uma sacada genial!

O link pro conto está bem ali à vista no site do Gaiman, mas eu vou deixar aqui um segundo link, diretamente pro material em .pdf pra quem preferir ir direto pro conto sem precisar passar pelo site - sei lá, mas vai saber? Tem maluco de todo jeito nesse mundo.

Ah, sim: Como o título sugere, o conto está em inglês. Pra ler em português - sem o lay-out e as ilustrações, infelizmente - só no livro Coisas Frágeis, mesmo.

"Mas é só isso a resenha, Domênico?" pergunta alguém. Sim. Se Sherlock Holmes encontra Chutulhu não é atrativo suficiente pra tu ler o conto, então não adianta eu gastar meu latim aqui. E não tem muito mais que eu possa usar pra resenhar esse conto do que Sherlock Holmes encontra Chutullu, de qualquer modo, então...



Ph'nglui mglw'nafh Cthulhu R'lyeh wgah'nagl fhtagn

sábado, 4 de junho de 2016

Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes

Depois de uma breve pausa para ler Stonehenge, voltei à Trilogia de Cinco do Guia do Mochileiro das Galáxias, pra terminar de ler ela dessa vez. Eu já tinha lido uma versão desse livro, "Adeus, valeu o peixo", publicada em Portugal - e como todos sabem (se não sabem, agora saberão) eu tenho sérias dificuldades em ler livros em idioma lusitano porque muitas vezes eu não entendo perfeitamente o que os tradutores querem dizer e as palavras ou semânticas completamente diferentes entre as duas línguas portuguesas acabam me catapultando pra fora do livro, impedindo uma imersão na leitura.

Quando li o livro pela primeira vez, portanto, culpei a língua lusitana pelo fato de ter achado o livro tão ruim - particularmente comparado com os outros três. Ledo engano. O livro é ruim mesmo, até em bom idioma tupiniquim.

Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes tem três grandes problemas: A descaracterização dos personagens (subitamente Arthur Dent se torna um galã auto-confiante absolutamente hábil e capaz), um romance automático e sem sentido e a falta de nexo geral do livro, incluindo a lógica sem lógica do desaparecimento dos golfinhos.

Sim, porque ninguém explica porque diabos os golfinhos foram embora. "porque a terra estava pra ser destruída, oras!" diz alguém. Ok, seria válido, se os próprios golfinhos aparentemente não tivessem feito alguma coisa que impediu isso! O que eles fizeram nunca fica claro, no fim das contas - mas sabemos que foram eles por conta dos aquários presenteados à pessoas aleatórias. Que é outro problema. Porque eles deram os aquarios de presente pro Arthur - um humano sem nenhuma importância - pra Fenchurch - outra humana sem importância, exceto por ter descoberto alguma coisa que também não fica clara sobre o que é, apesar de ser aparentemente importante - e pro Wonko - que, esse sim, tinha pelo menos alguma ligação com os golfinhos - não faz sentido algum.

Ok, coisas sem sentido algum fazem parte dos livros do Guia do Mochileiro das Galáxias, mas mesmo as coisas sem sentido tem alguma lógica - geralmente distorcida. Mas essa história dos aquários eu realmente não entendi.

Alias, não entendi o papel da Fenchurch no livro, além de ser um par romântico pro Arthur, em um dos romances mais água com açúcar, gratuitos, sem razão de ser e desnecessários de todos os livros que eu já li. Sim, eu já passei por "casais destinados", mas em geral esses casais estavam em livros extremamente ruins e com uma história absolutamente medonha.

O que, pensando bem, é exatamente o caso aqui...

Douglas Adams disse que seu editor cobrou muito dos prazos, e por conta disso o resultado do livro ficou aquém do que ele gostara. Uma boa desculpa, mas eu fico imaginando quanto a mais de livro ele ia precisar pra fazer essa história ficar um pouco menos espinhosa, e definitivamente creio que só funcionaria se ele fosse totalmente reescrito.

Bom, vamos ver se Praticamente Inofensiva consegue ao menos fechar essa trilogia (de cinco volumes) de uma forma que salve um pouco a dignidade dos três primeiros livros apesar desse quarto volume tenebroso.

Aceito críticas e defesas efusivas nos comentários, mas duvido que alguém consiga me convencer de que esse livro vale o papel no qual foi impresso.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Stonehenge

Atenção: Essa será uma resenha longa e analítica, com um monte de dados históricos e com algumas reflexões pessoais acerca do livro e de seu tema. Resumidamente: Comprido e chato. Mas pelo menos, não vai ter nenhum spoiler, então fiquem tranquilos com relação à isso - já é alguma coisa, certo? 

Primeiro, um pouco com relação à minha história pessoal com esse livro - o resto vai se desenvolver a partir daí: 

Consegui minha cópia de Stonehenge diretamente do Oscar, lá da Montecristo - e depois de já tê-lo agradecido pessoalmente, esse é meu reconhecimento público! De fato, eu queria há muito tempo ler esse livro. Foi através dele que conheci Bernard Cornwell, e sem ter ouvido falar sobre esse livro em particular, anos atrás, eu provavelmente nunca teria tido as conversas que me levaram à descobrir seus outros livros. Então, muito grato, Oscar, por finalmente permitir que eu lesse o livro que me fez conhecer o meu autor contemporâneo favorito!

Fiquei sabendo da existência do livro Stonehenge por conta de uma pesquisa que fiz sobre druidismo alguns anos atrás. Stonehenge era uma das literaturas recomendadas em praticamente todos os lugares que falavam sobre a associação dos Druidas com o círculo de pedras que dá nome ao livro. O que me leva à algumas explicações que me parecem necessárias sobre o monumento megalítico: 

Com relação ao nome: Stone é fácil, uma das palavras mais reconhecíveis do inglês. "Henge", por outro lado, é arcaica, e apesar de ter ganho muitos usos ao longo do tempo, acabou se tornando um termo extinto no inglês - talvez até por ter sentidos demais... Originalmente, ao que parece, o termo era usado como sinônimo de "forca" e suas derivações. Depois, foi associada à erguer, suspender, levantar, pendurar... E finalmente caiu em desuso. Então Stonehenge, numa tradução do inglês arcaico, seriam "pedras suspensas", nome dado por conta das placas em formato de lintel que compõem o monumento. 

Depois, com relação à origem: Esse monumento é da idade do bronze, em algum ponto cerca de quatro ou cinco mil anos atrás - Cornwell aponta que as datações dizem que ele é de cerca de 3.000 A.C., mas alguns pesquisadores dizem que ele é uns mil anos mais recente que isso. Não se sabe ao certo qual o objetivo de sua construção - nem para que finalidade era usado. 

Onde: fica nas planícies de Salisbury, próximo a Amesbury, no condado de Wiltshire, no Sul da Inglaterra - tanto Salisbury quanto Amesbury aparecem no livro de Cornwell: a primeira como uma colina sagrada, a segunda como Cathallo, a cidade vizinha de Ratharrym, que por sua vez é a cidade ao lado da qual é construído Stonehenge. 

No tocante aos Druidas: As pesquisas no local apontam que houve intensa atividade druídica em Stonehenge, mas como os druidas só chegaram àquela região por volta de 1.200 A.C., eles certamente já tropicaram com o local em amplo estado de degeneração, e nada tiveram a ver com sua construção - de fato, eles aparentemente não moveram uma única pedra de lugar! 


Bom, após toda essa conversa sobre Stonehenge, o monumento, vamos à Stonehenge, o livro! 

Antes de mais nada, é importante observar que o livro se passa na idade do bronze, na época da criação de Stonehenge - que, obviamente, não é chamado por seu nome contemporâneo nem uma única vez durante o livro. Isso significa que, pra maioria, nenhum elemento do livro é familiar. Esse é tanto um ponto positivo quanto negativo no livro: se por um lado não reconhecemos nada da cultura com a qual Cornwell lida no livro (afinal, quantos aí leram livros ou assistiram filmes passados na idade do bronze?) por outro lado é absolutamente incrível ver toda a cultura se desfraldando diante dos olhos a medida que o livro avança. 

E acredito que isso tenha muito a ver com a reação das pessoas que eu conheço que tiveram a oportunidade de ler o livro. Todas elas (foram quatro, que eu me lembre) leram uma parte dele e acabaram deixando-o de lado. Sim, elas desistiram dele. Todas forma unânimes: o livro é chato. Eu acredito que o problema do livro seja justamente o cenário. Quem já leu Cornwell sabe que ele faz excelentes descrições de batalhas e retrata muito bem a cultura dos locais onde suas tramas se passam. Mas é importante observar que os livros dele geralmente se passam em ambientes amplamente familiares: Europa do século 19 na série Sharp, ilhas britânicas tomadas por vikings nas Crônicas Saxônicas e a Europa medieval dominada pela igreja na trilogia do Graal. Mesmo quem não é um especialista em história conhece um monte de livros, filmes e jogos passados nesses cenários - ou amplamente baseados nesses cenários - o que nos coloca em uma posição confortável enquanto leitores. Cornwell não precisa descrever cada pormenor de uma cidade medieval pra que nossa imaginação complete o cenário. O mesmo vale para um bando de vikings fazendo um cerco ou mosqueteiros fazendo fumaça com seus rifles. Agora, idade do bronze... Não lembro de nenhum filme ou livro que se passe nessa época - se alguém lembrar, por favor, coloque nos comentários, este blogueiro agradece! 

No entanto, Corwell faz um excelente trabalho recriando o período histórico onde se dá a construção do monumento que nomeia o livro, e apesar de haverem poucas certezas com relação à Stonehenge, seja nos métodos usados para sua construção ou sua finalidade, Cornwell cria uma série de extrapolações, baseadas em pesquisas e em "achismos" pessoais que geram uma narrativa interessantíssima para explicar a Dança dos Gigantes. É interessante notar que, como há pouquíssimos achados arqueológicos ao redor de Stonehenge, Cornwell usa praticamente todos, amarrados de forma magistral. De fato, a trama toda do livro é excelente, com uma história sólida e narrada de modo magistral. 

O livro trata de xamanismo, principalmente, e do medo dos homens com relação aos deuses (ou seja: todos os fenômenos inexplicáveis ao redor deles, que na idade do bronze, eram muitos!) e isso é parte central da construção do monumento. Eu gostei, particularmente, do fato dele ter incluído no livro ilustrações das várias fases da construção do templo, seguindo com exatidão todas as descobertas com relação à ele, mesmo que obviamente tenha extrapolado os motivos e, suspeito, algumas questões cronológicas. Mas, é claro, como se sabe tão pouco sobre o local, não é particularmente importante o quão acurado histórica, religiosa e arqueologicamente o livro está correto - afinal, é uma ficção, não um tratado científico - apesar de, claro, uma boa quantidade de acuidade histórica sempre ser esperado dos trabalhos de Cornwell.

Então, a conclusão sobre o livro, do meu ponto de vista, é de uma excelente narrativa com um cenário muito bem desenvolvido, sobre um tema que não se sabe praticamente nada de forma concreta - e que, apesar de ser o título do livro, serve como pano-de-fundo de uma trama muto mais interessante. 

Eu não recomendaria Stonehenge como primeiro livro de Cornwell para nenhum leitor, exceto aqueles interessados especificamente em um romance passado na idade do bronze (o que provavelmente é algo difícil de encontrar) já que ele parece muito diferente da narrativa mais típica do autor. 

Mas recomendo fortemente a leitura para qualquer um interessado em um cenário totalmente diferente do usual! Pra esses, Stonehenge é um prato cheio! 

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Músicas das Eras Passadas

Não, essa postagem não tem nada à ver com livros ou café. Enquanto pesquisava sobre instrumentos e música antiga pra compor uma ilustração, acabei encontrando algumas informações interessantes com relação ao assunto, e achei que valia uma postagem. 

Eu não sabia - provavelmente por nunca ter pensado muito à sério sobre o assunto, na verdade - mas há uma série de composições musicais que pré-datam o ano zero da história (aquele ano lindo quando, de acordo com a igreja católica, nasceu o meu, o seu, o nosso cristo [sim, esse foi um comentário sarcástico e totalmente desnecessário, só aceita]), vindas de várias partes do mundo. Encontrei algumas delas pelo youtube e realmente gostei bastante do que ouvi! Então, vamos à uma lista com as três que eu considero mai interessantes, em termos históricos: 

A primeira delas é o Epitáfio de Seikilos (sim, o link leva pra versão em inglês da wikipedia, porque lá, além deles manterem o nome original do grego que nomeia o nome da música, além de ter mais informações, como a tradução da letra, que não tem na wikipédia em português). Essa é a mais antiga composição completa conhecida. Apesar de haverem algumas composições mais antigas - como as outras duas sobre as quais eu vou falar aqui - elas estão todas com algum fragmento faltando. O Epitáfio de Seikilos está totalmente completa e legível. Ela foi encontrada em um túmulo próximo à turquia, cuja data varia de algo entre 200 A.C. e 100 D.C., escrito em grego e que, além da letra de uma música, contém sua notação musical. A inscrição final da lápide tem duas traduções possíveis: ou Sekilo à Euterpe, o que implicaria que à musica foi composta pra falecida esposa de Sekilo, mas também pode significar Sekilo, filho de Euterpos, o que pode indicar que é o túmulo do próprio Sekilo. 

No link, há uma versão da música completa (ela tem cerca de 45 segundos de duração), mas eu escolhi uma versão do youtube que me soou mais interessante, por ser um pouquinho mais longa que a original, e diferente das outras versões que eu encontrei, que incluem vários instrumentos e são mais rápidas, esa é mais lenta, o que, pra uma música inscrita em um epitáfio, me pareceu mais adequada. A seguir, a letra original (pra quem quiser acompanhar em grego) e uma tradução livre para o português:

"Hoson zēs, phainou 
Mēden holōs sy lypou; 
Pros oligon esti to zēn 
To telos ho chronos apaitei."

Em português: 

"Enquanto viveres, brilhe, 
Não deixe que nada te entristeça além da medida.
Pois a tua vida é curta, 
E o tempo clamará seu quinhão."


A segunda música dessa postagem na verdade é uma composição dupla, os dois Hinos Délficos (sim, outro link pra wikipedia em inglês, porque esses hinos sequer têm uma entrada em português), escritos entre 128 e 138 A.C. e que, apesar de não estarem completos, apresentam o nome de seu autor, Pythaides de Atenas, o que a torna a mais antiga peça musical do ocidente cujo autor é conhecido. Os hinos são dedicados à Apolo, como o nome indica, a divindade patrona de Delfos e considera uma divindade oracular, que enviava augúrios através de sua sacerdotisa  (Provavelmente todo mundo já ouviu falar do Oráculo de Delfos, não? Praqueles que não conhecem, deixei um link pra facilitar a vida - dessa vez em bom português), e por isso a obra é conhecida como Hinos Délficos. 

As letras do Hino são longas, e há uma versão em inglês nos links, que eu não estou com paciência pra traduzir no momento - google tradutor praqueles que não entendem inglês, me perdoem). 



A última música foi, na verdade, a que me levou às outras, as Canções Hurritas (que também não têm uma entrada na wikipédia em português). Essas composições são um conjunto de músicas em escrita cuneiforme encontrado em tabletes de barro encontrado em Ugarit, no norte da Síria. Do conjunto todo, uma das peças, contendo Hino Hurrita à Nikkal, está praticamente intacta, o que permitiu traduzir a letra e a música de forma quase perfeita - quase, porque a própria escrita cuneiforme não é completamente entendida. 

Além de ser uma interessante peça musical - ninguém espera por aqueles últimos 30 segundos, tenho certeza! - essa peça tem duas características bastante relevantes: A primeira é que ela data de 1400 A.C. - sim, tem três mil e quatrocentos anos de idade! - e a segunda, e ainda mais notável, é que ela usa uma escala musical heptatônica (conhecida pelo menos desde o século 18 A.C. através de pelo menos três tabletes de barro Acádicos) mas também diatônica, uma escala que, até a descoberta dos tabletes contendo as Canções Hurritas, acreditava-se ter sido criada por Pitágoras, no século 4 A.C. - ou seja, mais ou menos mil anos depois das Canções Hurritas terem sido escritas!   

Não achei muitas informações relativas à esse pequeno mistério musical, mas tenho certeza que deve ter algumas interessantes teorias pela internet afora com relação à isso (provavelmente envolvendo aliens) ou não. 

Sem mais delongas, a mais antiga peça musical conhecida:



Boa viagem musical, e até a próxima postagem - provavelmente sobre café ou livros! 

terça-feira, 17 de maio de 2016

A vida, o Universo e Tudo Mais

Esse é o livro que conclui a primeira trilogia - dentro da trilogia de cinco livros... - do Mochileiro das Galaxias. Foi bom ter feito a resenha dos outros dois volumes separadamente, porque, definitivamente, esse livro é bem diferente dos outros. Eu ainda não li o quarto e o quinto livros da trilogia, mas imagino que a narrativa do senhor Adams deve mudar bastante nos dois últimos volumes, considerando como A Vida, o Universo e Tudo Mais se desenrola.

Esse livro parece mais sóbrio que os outros dois. Tão sóbrio quanto algúem que bebeu uma duzia de dinamites pangalácticas de canudinho, claro, mas os dois livros anteriores parecem ter sido escritos dentro de uma festa voadora que perdeu o controle. 

O livro tem, de fato, uma trama quase lógica - novamente, dentro da lógica distorcida do cenário - e se os outros dois livros não fizessem um trabalho tão bom em esmagar o cérebro do leitor entre uma fatia de limão e uma barra de ouro de bom tamanho, seria possível até ler esse livro juntando as peças pra entender o que está acontecendo. Mas como os eventos todos dos livros anteriores acontecem de modo aleatório e sem muita explicação, eu basicamente fui lendo os acontecimentos da trama e pensando que, dentro da maluquice do universo uma vez presidido pelo senhor Zaphod Beeblebrox, aquilo fazia tanto sentido quanto todo o resto. Além disso, a peça pra entender o mistério reside - de forma aparentemente aleatória -no penúltimo capítulo do livro, então mesmo um leitor lendo o livro de maneira lógica - eu adoraria ver isso - não conseguiria juntar todas as peças até o finalzinho do livro. 

A trama do livro segue nossos "bravos heróis" na tentativa de impedir que uma terrível civilização, separada do resto do universo milênios atrás, seja libertada de seu exílio temporal, já que o grande objetivo dessa civilização é nada mais nada menos do que destruir todo o resto do universo. Um caso extremo de xenofobia, devo observar. 

A chave pra a libertação do planeta Krikkit - que é onde vive a tal civilização - é composta por cinco itens de materiais variados que estão espalhados pelo universo. Para encontrar os itens, Arthur Dent e seus companheiros amalucados precisam voltar à terra antes dela ter sido destruída, visitar uma festa que está rolando há 20 anos - e durante a viagem Arthur é sequestrado por aqule vaso de petúnias lá do primeiro livro. Não pergunte, só lendo o livro pra entender - e finalmente se dirigem para Krikkit depois de descobrirem que os robôs brancos assassinos que estão reunindo as peças da chave já conseguiram todas as cinco peças. 

A coisa toda termina com a descoberta de que a civilização de Krikkit foi manipulada o tempo todo por um super-computador meio morto que falhou em sua missão de destruir o universo eons atrás, e decidiu que precisava concluir sua missão - mesmo depois de ter sido vaporizado pelos seus criadores. Sim, é tudo muito maluco, e por conta disso, é difícil tentar manter um foco realmente lógico na leitura, como eu disse lá em cima. Mas vale a pena tentar, de qualquer forma. 

No fim, tudo termina bem. Arthur Dent continua sendo o ser humano mais lamentável do universo, Trillian - que é a única outra humana do universo... - ainda é uma personagem que eu teria gostado de ver mais nas histórias (cara, ela arranja um encontro com o Thor, como não gostar de uma mulher assim?), Ford continua tão apático como sempre, Zaphod provavelmente vai se meter em muitos problemas e Marvin.... Bom, eu admito que não sei  que foi feito do Marvin no fim do livro. Mas provavelmente está se arrastando e suspirando em algum lugar do universo, como sempre. 

A Vida, o Universo e Tudo o Mais não é tão divertido quanto seus dois antecessores, e considerando que a história teria terminado tão bem no final do Restaurante no Fim do Universo quanto terminou no final desse livro, concluo, pessoalmente, que esse livro é bem descartável, na verdade. Claro, dentro d trama toda do cenário. Enquanto leitura de ficção nonsense, apesar de um pouco cansativo - provavelmente porque eu li os três livros um atrás do outro, o que provavelmente teve algum impacto permanente nas minhas terminações nervosas... - é um bom livro. Não excelente, mas bom. 

De qualquer forma, três já foram, faltam dois. Provavelmente vou pegar alguma coisa diferente pra ler antes de concluir a trilogia de cinco, mas certamente resenhas dos últimos dois livros vão aparecer por aqui. 

Enquanto isso, boa viagem e não esqueçam de carregar suas toalhas! 

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Precisamos de mais lobos

É interessante como linhas de raciocínio podem ser totalmente tortuosas e nos levam as vezes à reflexões profundas.
A imagem que iniciou essa pequena reflexão
Esses dias, enquanto estava tendo umas conversa sobre Mundo das Trevas (como Lobisomem é legal e Vampiro é uma bosta) com o meu caríssmo Gafanha, postei uma imagem da Barbie e do He-Man no facebook. O Gafanha, como resultado, veio me perguntar se eu já tinha assistido True Detective. Eu fiquei um pouco confuso com a pergunta. O que diabos Barbie, Lobisomens e séries de detetive têm em comum? Bom, a resposta foi que, basicamente, como o Mundo das Trevas tem algumas coisas meio Chutulhianas, o cérebro do Gafanha lembrou de um diálogo de True Detective (que tem alguns leves elementos Chutulhianos nele) sobre programação humana (que é basicamente a lógica por trás da imagem da Bárbie e do He-Man) e como nossa consciência na verdade é um erro de evolução. 

(a conversa é essa, até mais ou menos 3:30)

Entramos em uma conversa sobre como essa lógica é covarde porque, basicamente, joga a culpa pelos erros humanos em uma mutação genética mal-fadada e permite que o sujeito simplesmente foda, coma e defeque sem precisar ponderar sobre a própria existência ou nas consequências dos seus atos, no fim do dia. 

Mas há um ponto de validade nessa filosofia: Nossa capacidade de ponderar e refletir vale muito pouco com relação ao dano que nós causamos ao planeta - e à nós mesmos - devido à nossa capacidade "superior" de raciocínio. 

Claro, isso é um enorme erro humano. Em nosso imenso egocentrismo e mania de nos colocarmos como uma parte absolutamente vital do planeta, nós realmente achamos que estamos causando algum impacto real sobre a Terra - o que é, no máximo, uma ficção megalomaníaca. De fato, o homem existe como civilização por um período de tempo ridículamente pequeno. Quando nos formos - e eu não duvido que nós vamos, de uma forma ou outra - a Terra vai lembrar de nós como uma infecção lamentável que durou uns dois ou três dias. 

Oh, sim, nós causamos impacto no ecossistema. O homem realmente extinguiu direta ou indiretamente várias espécies de animais ou plantas. Mudamos a paisagem do planeta. Somos maus em nosso egoísmo. Sem nós, o planeta seria muito melhor, e as coisas mais estáveis, e o ecossistema muito mais feliz, certo?

Errado. 

Essa é outra grande bobagem desenvolvida pelo nosso senso exagerado de auto-importância. Os dinossauros são a prova viva (ou nem mais tão viva assim, enfim) de que nós definitivamente fazemos muito menos estrago do que algumas catástrofes naturais. O meteoro (ou seja lá qual fenômeno) que extinguiu osa dinossauros, as eras do gelo (foram 5 nosa últimos 2 milhões de anos), erupções vulcânicas mostruosas... todos esses efeitos causaram a extinção de várias espécies e mudanças brutais na superfície do planeta. E adivinha? Humanos não tiveram nada a ver com isso!

Em um exemplo em menor escala, mais fácil de compreender, temos as mudanças dos rios causadas pela reitegração de lobos no parque de Yellowstone:

(sim, a tradução apresentada na legenda é bem ruim)

Nós damos muita importância para nossa própria existência e aos impactos dela no planeta. Falamos, agora, muito sobre o aquecimento global e como isso vai ser ruim. Vai ser ruim pra nós! Os humanos vão passar trabalho - e as espécies que têm o azar de serem nossas contemporâneas - mas isso não significa que vamos acabar com o bendito planeta! Raios, se jogarmos bombas nucleares em todos os países do mundo, extinguirmos toda a vida na superfície da Terra, provavelmente teremos formas de vida diferente aparecendo por aí em alguns anos depois! Isso sem contar que as criaturas de profundidade abissal provavelmente nem vão tomar consciência do que está acontecendo aqui em cima... 

Humanos não são o mal da Terra. Nós não somos uma coisa terrível que causa mudanças irreversivelmente tenebrosas ao planeta. Nós somos parte integral do sistema ecológico do planeta, e vamos viver e morrer e deixar de existir (ou sei lá, migrar pra outros planetas) e a Terra vai seguir existindo, bela e faceira, por muito tempo depois. 

"Cara, todo esse papo pseudo-filosófico tem uma finalidade, ou é só uma reflexão babaca?" alguém pode estar pensando. 

Na verdade, é só uma reflexão babaca, mesmo. Mas ela pode ter uma finalidade útil: Não pense em como tudo está errado e sofra profundamente com isso. Foda-se. Viva uma vida feliz e deixe a humanidade matar à sí própria. Nós não temos importância em escala planetária sequer como espécie, quanto mais como indivíduos! Viva e deixe viver. Aproveite a vida, e pare de pensar nas coisas erradas que os outros fazem. Seja legal com seus conhecidos, dê um exemplo pelo qual tu possa ser lembrado no futuro, e não fique pensando na pequenesa da própria existência diante do resto da humanidade, do planeta, do universo. Esses pensamentos existenciais não têm resposta e não levam a lugar algum - exceto, as vezes, a salas acolchoadas em instituições públicas ou à bancos duros de edifícios religiosos. 

Viva e deixe viver. 

O tempo cuida de todo o resto.