sábado, 20 de dezembro de 2014

À Sombra do Açoita-Cavalo

Primeiro, um rápido esclarecimento: Açoita-cavalo é o nome de uma arvore nativa da América do Sul, que, aparentemente, inspirou o nome de um lugarejo -  que o autor menciona como o 4º distrito de Pelotas, mas eu não consegui confirmar. Então, não, nada de sadismos com animais nesse livro.

Na realidade, este é um livro de memórias, ou antes pequenos contos de memória, da época da infância e adolescência no tal distrito do Açoita-Cavalo do autor, em sua maioria. Alguns dos contos são de memórias mais recentes mas em torno de acontecimentos com outras pessoas do Açoita-Cavalo, e ainda há alguns contos que foram repassados ao autor por terceiros.

De fato, o livro não é mais do que um conjunto de contos bastante tópicos daqueles que se contam entre amigos, num churrasco, com um rápido desenvolvimento explicando o lugar/situação/pessoas envolvidas e terminado em algum tipo de chiste jocoso ou anedota no final - incluindo a famosa anedota do "o médico mandou eu cortar a janta e comer a véia". Uma fórmula muito apreciada em rodas de amigos e que provavelmente vêm funcionando há muitos anos em encontros sociais.

Mas infelizmente, essa fórmula não funciona tão bem quando nos é narrada em livro, quer me parecer. Não que o autor não seja eficiente, muito antes pelo contrário, a sua concisão e a escolha certeira de tempo e expressões é notável. No entanto, para qualquer um que não conhece o autor, falta uma parte muito importante desse tipo de narrativa, que é, justamente, o narrador. É impossível se envolver no conto quando tu não conhece o autor nem faz idéia de como ele narraria, quais os trejeitos. Não há um fator essencial desse tipo de narrativa que é a emoção.

Ainda assim, o livro é bem escrito, e alguns contos me arrancaram risadas. Mas a maioria, infelizmente, não e causou reação alguma. Acredito que seria bastante interessante sentar com o senhor Pierobon e escuta-lo contar essas memórias pessoalmente, tomando um chimarrão ou um café e pitando um cachimbo. Mas de forma escrita, por mais que eu adore literatura e goste muito de "causos" e das histórias locais, essa fórmula simplesmente não funciona pra mim. Uma pena.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Diálogo II

Bem, é fim-de-ano, uma época que, não sei bem porque, eu leio muito pouco. Na verdade, nessa época eu leio tanto quanto no resto do ano, mas não romances. Estou lendo alguns livros de mitologia, religião, história e cultura - não só pra reforçar meus conhecimentos na área, mas porque ando procurando idéias pra escrever algumas coisas também. 

Assim, muito provavelmente, o ritmo de publicações de resenhas deve diminuir bastante nos próximos dois meses - um fenômeno que, alias, já vem ocorrendo pelo último mês. 

Então, pra não ficar só em poemas e pensamentos pessoais obscuros (adeus, inferno astral, finalmente!), achei que seria interessante ter uma postagem que dialogasse com essa gente que lê o Café com Letra mas raramente se apresenta nos comentários - sim, eu sei que vocês estão aí!

Vou, portanto, propor um pequeno diálogo entre mim e vocês, sejam lá quem vocês forem (prevejo muitos comentários anônimos...). Coisa simples. Gostaria de saber o que cada pessoa está lendo nesse momento, ou o último livro que leu. Vale qualquer coisa, até livro de receita de apresentadora de TV. E também não precisa fazer uma resenha completa, se não quiser - apesar de algumas informações a mais serem sempre legais. Um simples "Estou lendo o livro ___________ e [estou/não estou] gostando." já me satisfaz. 

Então, o que vocês andam lendo? 

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Aniversários

Ah, os aniversário! Tanta felicidade! Bolos, docinhos, refrigerantes e chapéus cônicos coloridos! Ah, e balões! Não podemos esquecer os balões!

Eu realmente detesto aniversários.

Possivelmente tem à ver com o fato de que meu inferno astral - aqueles 30 à 40 dias em que o ponteiro do ascendente da revolução solar está transitando pela casa doze da roda zodiacal. A casa doze é a casa de Peixes, indicadora de karma, sofrimento, doenças, fatalidades e todas essas coisas tão legais - é sempre extremamente pronunciado. Um mês antes do meu aniversário, o meu mundo basicamente rui completamente, e precisa ser reconstruído aos poucos, dos escombros, pelo resto do ano seguinte - ate ruir novamente durante o meu próximo inferno astral.

É sempre assim. Todos os anos.

Claro, essa coisa toda de astrologia é uma grande bobagem. Minha mãe - que é uma metamorfose ambulante de esoterismos aleatórios, constantemente em mutação - foi quem me tornou cônscio desse fenômeno anual tão destrutivo. Claro que eu nunca dei bola. Sempre achei bobagem.

Mas todos os anos, um ou dois dias antes do meu aniversário, eu sento pra descansar a cabeça depois do meu pequeno mundinho ruir, e pensar "que merda está acontecendo na minha vida, porra?" e aí me dou conta que eu estava passando pelo maldito inferno astral.

É sempre assim. Todos os anos.

O problema é que meu inferno astral não termina no dia do meu aniversário. ele geralmente demora ainda uns dias pra ir embora de fato. são dias sempre bem tensos, em que fico esperando aquele golpe de misericórdia nas minhas fundações. Um fim de namoro inesperado. Uma demissão. Um amigo morto.

Raramente não acontece nada realmente ruim nos dias após meu aniversário. Mas mesmo quando não acontece, eu me desgasto esperando pelo pior. É sempre uma tensão sem tamanho. Aquela espera pelo inevitável.

É sempre assim. Todos os anos.

Então, enquanto as pessoas comemoram seu avanço de idade, seus novos ciclos, mais um ano de sobrevivência e de sabedoria em suas vidas, eu estou na expectativa de alguma coisa muito ruim, que pode acontecer à qualquer momento.

então levantem suas taças e regozijem-se em suas comemorações, enquanto eu fico no meu pequeno mundinho de aflição, esperando o próximo movimento que a vida - aquela meretriz! - vai fazer pra me tirar o equilíbrio.

E que passe logo a próxima semana, pra eu começar a reconstruir tudo outra vez.

Um brinde.


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Encontre Sua Própria Verdade

Esse é o último volume da Trilogia Segredos do Poder, que se passa no universo do RPG Shadowrun. Fiz um pequeno apanhado do cenário na resenha do primeiro volume, caso alguém não conheça.

Esse livro conclui as aventuras de Samuel Werner, enquanto ele procura sua própria verdade, como o título indica. Temos o retorno de alguns personagens que apareceram no primeiro e no segundo volume, e um bom punhado de mortes, como nos volumes anteriores. Não vou falar mais do que isso, porque qualquer coisa que seja dita aqui vai acabar sendo um possível spoiler com relação aos livros anteriores. Ao invés de me ater à trama, prefiro fazer uma apanhado geral da minha impressão final sobre a trilogia.

Primeiro, a construção do protagonistas - e de alguns dos personagens secundários - é excelente. Sam tem dúvidas o tempo todo, não tem certeza se suas decisão são as melhores à serem tomadas, erra bastante e vai se contruindo ao longo da jornada. Ao final desse último volume, ele já é um sujeito familiar pro leitor, alguém com quem realmente se importar. Só isso já é um mérito que muitos personagens não conseguem.

Além disso, há uma impressão de aleatoriedade nos acontecimentos ao longo da trilogia que me agrada muito. além das tramas e sub-tramas, das maquinações de vários personagens ao mesmo tempo, Charrette consegue incluir um elemento de falibilidade que é muito agradável no livro. Os planos de Werner - e de seus oponentes e aliados - nem sempre funcionam tão magistralmente quanto o esperado, e nenhuma vitória é absoluta. Os eventos vão acontecendo muitas vezes sem o controle dos personagens, e os planos traçados muitas vezes tem que ser modificados na última hora. Há um sentimento geral de improvisação muito grande ao longo dos livros - o que é bem de acordo com o que se espera em uma campanha de RPG, e portanto muito bem-vindo em um livro que se passa em um cenário destes.

Além disso, as coisas não saem como esperado quase nunca, e é meio impossível antever os acontecimentos vindouros. As vezes o próximo movimento, mesmo quando anunciado, não acontece como se espera. É sempre uma surpresa para o leitor saber como as coisas vão se desenrolar.

Temos alguns clichês, é claro. O guerreiro calado e mortal, a sedutora inconstante, o herói indeciso, o vilão prepotente. Mas eles não são tratados levianamente. Eles funcionam com perfeição. Cada um deles e tão bem utilizado que em nenhum momento seus papéis parecem forçados.

Há alguns problemas é claro. que acredito sejam muito causados pela tradução. Um "ele" aqui e ali onde deveria ser "ela", por exemplo. Ou onde fica dúbio se é um ou outro personagem da cena falando. Coisinhas menores, que não chegam à atrapalhar a leitura, nem o entendimento da história.

No final, Segredos do Poder foi uma grata surpresa! Agora vou ler o módulo básico do Shadowrun, e encontrar alguns amigos pra tentar encontrar minha própria verdade nas sombras.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Musicas que me fazem chorar 2

Eu sou um sujeito emotivo. Sempre fui. A maioria das pessoas que me conhece ha algum tempo já me viu chorando pelo menos uma vez. A maioria dessas pessoas deve rir lembrando disso, porque devia ser alguma coisa idiota. Uma música ruim, um filme bobo, uma lembrança besta. É um problema. eu não choro por pensar nos milhares de mortos no afeganistão, nem pela fome na africa. Isso me emociona, mas não me faz chorar. Eu choro por bobagens.

Acho que, como acontece com todo mundo, eu choro com coisas bobas que têm um "gatilho" emocional. Aquela música que tem uma letra tocante e profunda, mas que na verdade te faz chorar porque tu lembra que alguém te dedicou ela. Mas já falei bastante sobre o assunto, e não quero ficar me repetindo.

Aquelas músicas, é claro, estão todas "valendo" ainda. Uma delas mudou bastante de significado ao longo desses três anos, de fato, mas continua tendo o mesmo resultado. No entanto, algumas músicas se juntaram àquela lista:

White Wine in the Sun, do Tim Minchin, me pegou de surpresa. Me mandaram esse vídeo dizendo que "eu ia gostar". Comecei ouvindo e me divertindo bastante. O início da música realmente parece comigo:

And yes, I have all of the usual objections
To consumerism, the commercialisation of an ancient religion
To the westernisation of a dead Palestinian
Press-ganged into selling Playstations and beer

And yes I have all of the usual objections
To the mis-education of children who, in tax-exempt institutions,
Are taught to externalise blame
And to feel ashamed and to judge things as plain right and wrong

Mas à medida que a música prossegue, e fala sobre família, sobre comemorar... eu admito que fui lembrando das minhas relações com comemorações e família, e que, realmente, não me dou bem com uma coisa ou com outra. Eu parei de ir à comemorações por me achar muito "deslocado" dentro da minha família, com poucas exceções. Passei anos sem comemorar aniversários. E não, não comemoro festas religiosas cristãs. Esse isolamento familiar sempre me causou uma certa tristeza, e ela fica potencializada quando eu escuto essa música.
Tim Minchin é um comediante, pelo que eu entendi, que compõe letras engraçadas para seus shows. Não tenho certeza. Não fui atrás de outras músicas do cara. White Wine in the Sun foi mais que suficiente...

O próximo item da lista é complicado. They Rode On. Esse eu tava ouvindo bem tranquilo quando, de repente, comecei a prestar atenção na letra. Voltei pro início, e o troço caiu na minha mente como uma bomba de hidrogênio. Fiquei completamente vazio por um tempo. "eu sou velho, meu velho, tão velho quanto o mundo". Será que eu tenho coragem pra cavalgar, mesmo sabendo o destino? Ou sem saber onde se vai? Quanto de ilusão eu preciso, e quanto desprendimento eu posso, realmente ter? 
Sim, essa é uma dessas discussões internas de cunho filosófico pessoal que não possui muito nexo e cujas perguntas não têm resposta alguma. O tipo de coisa que me faz chorar. 

Músicas que fazem a gente refletir são um problema sério. Hora do Mergulho, dos Engenheiros do Hawaii sempre me fazia entrar em um estado de profunda tristeza. Demorei muito pra "superar" isso. Hora do Mergulho ainda fala comigo, mas hoje em dia é um diálogo saudável. Coisa semelhante aconteceu com algumas músicas do Legião Urbana. Quando eu era adolescente - isso foi há tanto tempo que o Renato Russo ainda nem sabia que tinha AIDS... - muitas daquelas músicas calavam fundo em mim. Como, alias, tenho certeza que também tocavam  maioria das pessoas da minha geração. Mas eu cresci, e aquelas músicas são parte de um passado que não se encaixa mais. Eu ainda escuto Legião, mas hoje em dia é só pelas lembranças que aquelas músicas trazem. 

A única exceção é Metal Contra as Nuvens. Não sei qual a história por trás da música, mas que ela faz muito sentido como uma versão romanceada do Drácula, isso faz. Tem muitos símbolos e lógicas funcionais dentro dessa idéia, incluindo não só a letra mas as trocas de ritmo dentro da música. Praqueles que não tem "aversão" à Legião, vale a pena dar uma conferida, nem que seja pra me chamar de retardado - qualquer discussão, mesmo que sobre uma música do Legião Urbana, me interessa! Esse vídeo já tem a letra embutida, pra facilitar a vida. 


E, já que vou adicionar uma música da Legião Urbana, o que já manda pro espaço a coesão dessa postagem, vou aproveitar e adicionar a supracitada Hora do Mergulho, dos Engenheiros do Hawaii. Se vou acabar com a coesão, pelo menos vou incluir umas músicas legais também. 

E pra terminar mais ou menos com algum sentido, uma música que, as vezes, me faz chorar. Fico imaginando o Bono escutando essa versão e chorando, não porque eu imagino que o cara seja um egocêntrico que idolatra as coisas que ele mesmo escreve - o que, alias, seria plenamente justificado, mas não vem ao caso - mas porque na voz do Johny Cash, One fica muito, muito melhor do que no original. 

Impressionante como não só a voz do J. Cash se encaixa melhor nessa letra, como a letra faz muito sentido considerando a história dele com drogas na década de 60, principalmente, que o levaram ao divórcio e à uma tentativa de suicídio.

Bom, uma boa viagem musico-sentimental pra todos. Espero que não tenham todos um ataque de choro assistindo essa seleção, mas um pouco de reflexão e umas lágrimas, eu gostaria que essa postagem causasse. 

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Esqueletos, Fantasmas e Caixões

Quantos caixões uma pessoa pode puxar vida afora? E quando esses caixões e que passam a puxar a pessoa em questão, e não o contrário?

Semre ouvi expressões como 'esqueletos no armário" e "fantasmas do passado" com um misto de curiosidade e cinismo. Claro, eu tenho minha cota dos dois tipos de mortos-vivos pra me assombrar, mas nunca considerei eles realmente um fardo. Eles estão lá, sempre espreitando nas frestas escuras, geralmente esperando serem esquecidos pra reaparecer, não posso negar. Algumas pessoas tem mais ou menos medo de se encontrar com seus esqueletos e fantasmas andando pela sala de estar. Outras têm assombrações tão perigosas que poderiam morrer do coração se forem forçadas à encarar de frente seus mortos-vivos.

Eu, pessoalmente, fiz as pazes com a maioria dos meus mortos-vivos. As vezes, alguém abre algum dos meus armários, e um dos meus esqueletos sai pulando com uma roupa de palhaço ou fazendo um truque de mágica cafona pelo salão. Eu aprendi a conviver com isso de forma saudável, e geralmente consigo até encontrar alguma graça naqueles números velhos que eles sempre apresentam quando a tal porta é aberta. Já dos meus fantasmas, admito que tenho um pouco mais de medo. Eles são bem mais sérios e sizudos. E apesar da maioria deles ficar tão escondida no sótão que a maioria das pessoas jamais vai conseguir encontra-los, as vezes, quando a casa está completamente vazia, um deles desce arrastando correntes pela casa. É um pouco assustador, preciso dizer.

Mas os meus piores mortos não andam por aí. eles estão bem mortos. Infelizmente, cada um deles está preso dentro de um sólido caixão de carvalho, amarrado á um cinto resistente e desconfortável que eu uso desde que me conheço por gente. Cada escolha ruim, cada decisão inadequada, cada palavra mal dita engrossa meu pequeno exército de caixões. E ao longo dos anos eu reuni caixões suficientes para  inveja à maioria dos cemitérios do novo mundo.

O problema desses mortos e que eles estão amarrados à mim. eles não ficam esperando pra me dar um susto ou fazer um truque bobo. Eles não assustam ninguém, na verdade. Mas eu ainda preciso carregar cada um deles. E cada nova decisão que enfrento pelo caminho é uma chance de aumentar o peso morto que eu carrego. Receio, inclusive, que cheguei em um ponto em que não sou mais capaz de arrastar meus caixões. Eles é que me carregam. E, claro, considerando o peso que representam, só há uma direção pra onde podem me puxar. E pra baixo é uma direção que se pode seguir sem parar, quando a força que puxa é infinita.

Em tempos recentes, eu tomei uma série considerável de decisões no mínimo questionáveis. Na verdade, não tenho feito muito mais nesses últimos meses do que acumular mais e mais caixões á minha carga. E tenho enfrentado algumas decisões importantes nesses dias que correm. E o peso morto tem feito um estrago terrível. Tenho tido tanto medo de tomar qualquer decisão, que até mesmo a dúvida entre seguir andando ou sentar em um dos tampos de carvalho e descansar um pouco é simplesmente impossível de tomar. É uma espécie bizarra de paradoxo de Schrödinger, já que não tomar uma decisão e uma decisão por sí só.

E sim, eu poderia, perfeitamente, pedir ajuda para algum passante para carregar parte do meu peso. Mas isso geralmente significa enfrentar alguns esqueletos e fantasmas do tal passante, e ajuda-lo a carregar seus próprios caixões também. E tenho escolhido pessoas que, me parece, estão com cargas demasiadas também. Ou isso ou o peso que venho carregando simplesmente não permite mais que eu avalie de modo satisfatório o peso morto das outras pessoas.

E, diferente dos mortos-vivos pessoais, nada adianta fazer as pazes com estes. afinal, eu vou seguir carregando cada um deles, não importa o quanto eu - ou o cadáver no caixão - estejamos conformados com isso. E de nada adianta pintá-los com cores engraçadas ou vestílos de palhaço também. Isso não alivia o peso de forma alguma.

Uma decisão tomada, afinal, não pode ser desfeita, tendo sido levada à cabo. Ela pode até ser alterada antes de chegar a tornar-se um novo caixão. Mas uma vez que tenha sido realizada, na prática, não há caminho de volta.

Graças à essa analogia, a cena de Monty Phyton e o Cálice sagrado que ilustra essa postagem nunca teve a menor graça pra mim. Ela sempre parece só mais uma decisão ruim.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Escolha seus Inimigos com Cuidado


Esse é o segundo volume da trilogia Segredos do Poder, que se passa no cenário de Shadowrun, um velho conhecido dos RPGistas experientes. Já falei um pouco sobre o cenário quando escrevi sobre o primeiro livro da trilogia, então fique à vontade pra ir lá entender um pouco do mundo de 2050, caso ainda não conheça.

Nesse segundo volume, Samuel Werner, agora trabalhando oficialmente nas sombras sob o codnome Móbile (ou Twist, no original), continua procurando por sua irmã desaparecida, Janice, enquanto precisa desvendar os mistérios do xamanismo com o qual ele se descobriu ligado. Apesar do cenário das mega-corporações ainda estar lá, a maioria da trama de segundo livro gira ao redor das facetas místicas do universo de Shadowrun.

Durante o primeiro livro, Janice é separada de Sam pela Renraku, uma das maiores corporações do mundo, sob a tutela da qual ambos vivem desde a morte dos pais - Samuel como um empregado e Janice como uma dependente. quando ela passa pelo processo de Transmutação, a Renraku acaba enviando-a para a Ilha de Yomi, uma espécie de ilha laboratório/prisão onde são mantidos quase todos os metahumanos japoneses. Esse evento é o gatilho original para que Sam acabe caindo em direção das Sombras no primeiro livro, e continua sendo um dos seus maiores motivadores.

Durante sua busca, no entanto, Móbile se vê envolvido com as tramas do Círculo Escondido, um grupo de Druidas que pretende realizar um poderoso ritual para "purificar a terra". No meio do caminho, Sam precisa lidar com seus poderes xamânticos e com a sua complicada relação com o Cão, seu totem de poder.

A narrativa do livro é bastante similar com a do primeiro, e alguns dos personagens além de Sam também aparecem aqui, enquanto outros são apenas mencionados ou nem isso. Em termos de descrição de cenários, Escolha Seus Inimigos com Cuidado é ainda mais pobre do que Não Faça Acordos com o Dragão, e é bem fácil esquecer que o livros se passa em um ambiente cyberpunk.

Esse segundo volume da Trilogia Segredos do Poder é bem mais fraca do que a primeira, mas serve bem para dar uma boa idéia sobre como funciona a magia do cenário. É um livro muito mais interessante para fãs de Shadowrun do que para um leitor padrão de literatura cyberpunk - principalmente considerando que a maioria da história lida com magia e não com tecnologia.

Ainda assim, é uma continuação decente para o primeiro livro, e certamente é eficiente em manter o interesse do leitor sobre como a história de Sam em sua busca por sua irmã - e em seu auto-conhecimento - vai terminar.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Turma da Mônica Laços



 Quando a turma da Mônica fez 50 anos, foram feitas uma série de edições especiais comemorativas. Algumas que me interessavam foram anunciadas - como a do Astronauta, do Piteco e do Papa-Capim. Acabei nunca me dando ao trabalho de procurar nenhuma delas. Turma da Mônica, afinal, não faz parte da minha infância. Eu lia Disney quando pequeno, e achava o quadrinho do pessoal que morava na rua do Limoeiro bem sem graça. Desenhos muito simplistas, roteiros curtos e bobos. As histórias da Disney eram mais complexas e pareciam bem trabalhadas. E até onde eu consigo lembrar, foram as primeiras coisas que eu li em inglês - a minha mãe fazia curso de inglês, e revistas da Disney na sua língua de origem eram relativamente fáceis de conseguir.

Também nunca me deparei com nenhuma edição especial da Turma da Mônica em bancas ou em livrarias, então minha curiosidade sobre essas edições de 50 anos nunca foi muito atiçada. Acabei esquecendo o fato delas existirem, pra ser sincero.

Só lembrei quando cheguei na casa de um amigo e ele me emprestou essa edição, escrita e desenhada pelos irmãos Lu e Vitor Cafaggi. Apesar de ele ter me dito pra levar um lenço, não achei tão emocionante assim. Provavelmente porque não tenho ligação sentimental com a criação do Maurício.

A edição em si é fantástica. Com um roteiro e um desenho primorosos, muito bem cuidados, trazem as características marcantes dos personagens com uma visão renovada, extremamente cuidadosa. É um trabalho perfeito.

O roteiro tem um ponto de partida simples, e um desenvolvimento direto e sem rodeios, mostrando a força da amizade da turma ao longo de todo o percurso da história. É de uma ingenuidade tão pura e simples que é impossível não adorar. A maioria das situações parecem bem próximas daquilo que se esperaria de uma historinha normal da turma, bem amarradas em um roteiro conciso, que tem como tema principal a amizade, que permeia toda a história. É fascinante.

Há, no entanto, algumas passagens estranhas. Fiquei sem entender o que o mendigo gordo que fala de druidismo e coisas bizarras faz na edição, e não entendi se aquilo era uma homenagem ou se era um tipo de crítica, e acabei frustrado pelo fato de não haverem novas aparições do personagem nem maiores explicações sobre o as coisas que ele diz, que acabam não fazendo sentido algum no fim das contas.
No geral, é uma ótima história, dessas que a gente lê pra maravilhar os olhos e aquecer o coração. Vale a leitura, sem medo. Mesmo para aqueles que não são fãs da Turma e preferiam os animais falantes da Disney.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A Idéia

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas da laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica…

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No molambo da língua paralítica.

Augusto dos Anjos

domingo, 28 de setembro de 2014

Não Faça Acordos com o Dragão


Para aqueles que não conhecem, Shadowrun é um cenário de RPG cyberpunk, passado em uma década de 2050 em que a magia despertou de forma abrupta há cerca de 40 anos, trazendo de volta os feitços e criaturas das lendas, como orcs, trolls, elfos - e dragões - para se juntarem de forma mais ou menos harmoniosa à alta tecnologia do meio do século 21.

Dentro desse cenário, que combina elementos de tecnologia futurista - como membros biônicos, armamentos inteligentes e implantes neurais - e fantasia medieval contemporânea - incluindo magos, raças tolkenianas e criaturas fantásticas - estão os shadowrunners, aventureiros que lutam pela sobrevivência na selva urbana controlada pelas grandes corporações que estendem seus tentáculos em todas as direções. Uma combinação original de elementos que torna o cenário único e extremamente excitante.

Dentro desse singular cenário, seguimos Samuel Werner, um empregado modelo de uma das grandes corporações, em sua queda vertiginosa e sem retorno em direção às sombras.

A narrativa é rápida e vigorosa e mantém um ritmo muito bom, e os personagens são todos carismáticos em algum sentido, e com psicológicos bem construídos e trejeitos marcantes. É fácil gostar ou odiar cada um deles.

O ritmo da narrativa deixa, no entanto, pouco espaços para descrições, tanto em termos de cenário quanto dos personagens. apesar do paradigma sócio-econômico ser bem explorado, a maioria das descrições de locações é bastante vaga, fazendo com que o cenário acabe se desenvolvendo em uma espécie de versão de baixa produção de um filme de ficção da década de 80. O que não deixa de ser atraente, na verdade, mas acredito que essa percepção deva mudar de leitor para leitor, de acordo com sua bagagem cultural e conhecimento específico sobre o cenário - o que pode ser bom mas também pode ser bem ruim.

Esse problema também existe no caso dos personagens. A minha imagem de muitos deles foi abruptamente modificada quando o autor adicionou algum detalhes considerável - como cor de cabelo (A Sally é loura, não índia!), dentes irregulares, cicatrizes - depois de eu já ter formado uma imagem sólida baseado no que tinha sido entregue até então. Alguns personagens (como o Fantasma que Anda por Dentro) simplesmente se tornou amórfico na minha imaginação, de tantas modificações que o autor foi apresentando pra ele ao longo da narrativa.

[edit] Grey Otter, que pelo nome eu imaginava uma espécie de Danny Trejo cyberpunk, na verdade é uma mulher esguia com aparência jovem, como eu descobri no começo do terceiro livro. Pelo menos ela tem feições indigenas... [edit]

O livro tem defeitos e qualidades, e as últimas superam bastante as primeiras, mas definitivamente não é um livro perfeito. É realmente bom, com reviravoltas interessantes e situações bem construídas, sem furos de roteiro e bastante sólido na sua proposta. E apesar de ser o volume 1 de uma trilogia, o final é suficientemente bom pra ser um desfecho satisfatório, apesar de algumas pontas soltas.

Em suma, é um bom livro, tanto pra quem gosta de ficção quanto pros que gostam de fantasia, e certamente pra qualquer RPGista, independente do gosto, já que parece uma enorme campanha solo, com todos os elementos pertinentes  - PdMs marcantes, inimigos ardilosos, monstros perigosos e planos mirabolantes.

Leitura fortemente recomendada!