Há muito tempo eu queria ler essa série. É uma daquelas coisas sobre as quais todos os jogadores de RPG ouve e fica curioso pra conhecer - mais ou menos como Não Faça Acordos com o Dragão, exceto que Dragonlance é bem mais antigo e bem mais conhecido entre RPGistas.
Dragonlance começou como um projeto para um cenário de AD&D em que os dragões seriam mais relevantes do que os cenários já clássicos na época (como Forgotten Realms, Mystara e Greyhawk) que tinham dragões, mas como meros monstros coadjuvantes - na verdade, muitas campanhas de D&D nunca figurariam um dragão, já que eles são criaturas muito poderosas e a maioria dos grupos não atinge o nível necessário pra enfrentar um deles. Assim, Dragonlance foi desenvolvido com a proposta de criar um cenário onde dragões fossem um dos componentes que fizessem parte das engrenagens que fazem o cenário funcionar. E nisso, o livro é extremamente bem sucedido!
De fato, o livro é bem sucedido em tudo. Tem uma trama atraente, personagens interessantes, um cenário rico e é muito bem escrito. Na verdade, eu preciso admitir que o livro é muito melhor do que eu esperava. Sempre achei que grande parte da fama dos livros entre os RPGistas se desse pelo fato de serem livros que falam de um cenário de RPG, e me surpreendeu positivamente perceber que não, o livro é bom como literatura, como história, não apenas como "um livro sobre D&D".
Alias, falando sobre esse ser "um livro sobre D&D", conta a lenda que esses livros foram baseados em uma campanha que teria sido posteriormente novelizada. Nunca imaginei que algo assim pudesse funcionar até ler esse primeiro livro. Mas funciona! E é divertidíssimo ver situações de jogo dentro da história - decisões ruins, falhas críticas, sucessos decisivos, magias... Todos esses pequenos detalhes são perceptíveis para um jogador de RPG durante a leitura, e achei fantástico como Weiss e Hickman conseguiram traduzir isso de forma tão perfeita no livro.
Pra mim, a melhor parte do livro é o Raistlin. Além de ser o meu personagem favorito - torçam os narizes, mas ele é ótimo dentro do seu anti-heroísmo - o fato dele posar de grande mago fodão enquanto toca Luz, Detectar Magia e Mãos Flamejantes (e uma Teia, olha só!) entre outras magias de nível baixo é fantástico. Weiss e Hickman fazem ele parecer poderoso e medonho mesmo sendo só um mago de nível baixo, com Constituição negativa e praticamente nenhuma capacidade combativa. Não sei se o personagem foi construído dessa forma pelos autores ou se o jogador que interpretava ele era muito bom!
Leitura fortemente recomendada!
quarta-feira, 28 de dezembro de 2016
segunda-feira, 26 de dezembro de 2016
All Consuming Fire
Sherlock Holmes encontra Dr. Who e ambos enfrentam Azathot. Sim, é uma salada de frutas entre histórias de detetive, horror e ficção científica - tudo dentro do clima de "humor" meio nonsense de Dr. Who.
É meio difícil pensar em algum nerd que não vá gostar desse audio book. Além de ser muito mais curto do que audio books tradicionais (tem cerca de uma hora e meia de duração, com algumas curiosidades no final do arquivo), o que certamente facilita bastante pra quem não consegue ficar focado em audios de 25 horas ou mais (dependendo do livro) a história mistura três franquias ridiculamente famosas - só abarcaria mais nerds se tivesse o Kirk ou o Vader na história... E nem seria tão ridiculamente absurdo assim, pensando bem!
A história é simples e direta, como um episódio de série, sem grandes subtramas, e vai tão direto ao ponto quanto possível, sem enrolações.
Eu gosto muito de Sherlock Holmes e sou um apreciador dos Mythos de Lovecraft também, e achei ambos muito bem representados na história. Não gosto de Dr. Who, mas acredito que, principalmente porque é uma história dele, afinal de contas, os fãs da série devem gostar da história tanto ou mais do que eu.
uma pequena nota: achei o som menos do que ideal. As músicas são altas demais, e algumas partes das falas ficam confusas por conta da quantidade de efeitos sonoros. Não é realmente um grande problema, mas eu precisei ajustar o volume algumas vezes pra achar o ponto ideal pra ouvir sem ser incomodado.
Enfim! Escutem e divirtam-se!
É meio difícil pensar em algum nerd que não vá gostar desse audio book. Além de ser muito mais curto do que audio books tradicionais (tem cerca de uma hora e meia de duração, com algumas curiosidades no final do arquivo), o que certamente facilita bastante pra quem não consegue ficar focado em audios de 25 horas ou mais (dependendo do livro) a história mistura três franquias ridiculamente famosas - só abarcaria mais nerds se tivesse o Kirk ou o Vader na história... E nem seria tão ridiculamente absurdo assim, pensando bem!
A história é simples e direta, como um episódio de série, sem grandes subtramas, e vai tão direto ao ponto quanto possível, sem enrolações.
Eu gosto muito de Sherlock Holmes e sou um apreciador dos Mythos de Lovecraft também, e achei ambos muito bem representados na história. Não gosto de Dr. Who, mas acredito que, principalmente porque é uma história dele, afinal de contas, os fãs da série devem gostar da história tanto ou mais do que eu.
uma pequena nota: achei o som menos do que ideal. As músicas são altas demais, e algumas partes das falas ficam confusas por conta da quantidade de efeitos sonoros. Não é realmente um grande problema, mas eu precisei ajustar o volume algumas vezes pra achar o ponto ideal pra ouvir sem ser incomodado.
Enfim! Escutem e divirtam-se!
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sexta-feira, 23 de dezembro de 2016
The Amber Spyglass
Concluindo a trilogia de livros His Dark Material, de Phillip Pullman, The Amber Spyglass segue o clima do livro anterior, The Subtle Knife, deixando ainda mais para trás a narrativa do primeiro livro. Novamente, aqui, Pullman foca nas questões de dimensões paralelas e se concentra em explicar o funcionamento da "poeira", além de explorar mais a fundo os anjos e a Autoridade.
Como bônus, nesse terceiro audio book temos o próprio autor lendo algumas passagens, especificamente as introduções do livro, que são excertos de textos de outros autores. Bastante interessante.
Antes de falar do livro em si, preciso fazer uma pequena observação: dois capítulos desse livro estavam nos arquivos de audio do livro anterior, The Subtle Knife, o que certamente confundiu bastante a coisa toda. Acho, inclusive, que os dois capítulos "dobrados" ficaram no lugar dos capítulos originais do livro, porque em nenhum momento eu encontrei uma explicação de como Mary Mallone acabou atravessando a barreira das dimensões - ela cita isso nesse terceiro livro, mas nunca explica. E pelo que percebi da narrativa de Pullman, ele não costuma deixar nada fora do lugar. Então a resenha daquele livro pode ter sido prejudicada por conta disso - mas duvido que mudasse muito minha opinião sobre o livro como um todo.
De fato, assim como não gostei do segundo livro, muito distante da narrativa do primeiro, também não gostei desse terceiro livro, por motivos diferentes. Já esperava que a narrativa se focasse mais na "poeira" e nas dimensões paralelas, como no livro anterior, mas uma série de coisinhas nesse livro me desagradaram.
E sim, vou falar sobre isso, então, aviso: Revelações sobre a trama adiante.
*** REVELAÇÕES SOBRE A TRAMA ADIANTE ***
Três coisas especificamente me incomodaram no livro. A primeira, menos importante, foi a adição de um Demônio para Will. Não entendi nem como nem porque ele passou a ter um Demônio "desperto", e achei ainda mais tolo isso acontecer tão no final da estória. Me pareceu tão... Inútil. Pareceu que Pullman quis criar um vínculo maior entre Will e Layra através de uma natureza mais semelhante, só pra que a separação forçada dos dois fosse ainda mais traumática.
O segundo problema pra mim é a série de personagens que simplesmente não têm razão de existir. O tal padre assassino (Luiz, acho), que a gente acompanha durante todo o livro, simplesmente morre sem fazer nenhuma diferença pra história - nenhuma diferença MESMO! Mary Mallone, apesar de criar a Luneta do título, também não faz nada pela história, além de ocupar espaço - mesmo porque a luneta não tem nenhum impacto na trama, de qualquer modo. Os Mulefas são totalmente desnecessários na história, e só estão lá pra explicar de onde vieram e como são diferentes das outras formas de vida, mais nada. Me parece que a existência desse eixo inteiro da tramas só serve pra ocupar espaço no livro, sem nenhum motivo.
A terceira coisa que me incomodou - e isso, sim, me incomodou bastante! - é a Autoridade. Um anjo (que foi um humano seis mil anos atrás), colocado no lugar de Deus pra governar a existência, com milênios de existência, capaz de ler sentimentos humanos, brilhar como uma lâmpada fosforescente e liderar hordas de Anjos, além de ter um castelo voador. E daí ele é seduzido por uma mortal e, como se isso não fosse idiota o suficiente, derrotado no braço por dois humanos sem nenhum tipo de treinamento marcial - dois cientistas! Serio? Sou a criatura mais poderosa do universo, mas como posso ser derrotado por qualquer um, vou deixar meu castelo e ir, sozinho, matar esse sujeito porque essa humana gostosa (e sabidamente mal-caráter) vai me ajudar. Uhum. Certamente Metatron não foi colocado no cargo de administrador por conta da sua inteligência, nem sua capacidade de liderança ou seu bom senso. Alias, como ele não apresenta nenhuma qualidade, fica difícil levar a sério que ele era o sujeito malvado no fim da história. Bem difícil... Ele é impulsivo, belicoso, arrogante, lascivo, emotivo... Como um sujeito com seis mil anos de idade, com todos esses defeitos, consegue não só permanecer vivo mas comandar todo o exército mais poderoso da criação é um mistério que desafia qualquer explicação que eu tenha sido capaz de extrapolar!
*** FIM DAS REVELAÇÕES SOBRE A TRAMA ***
Esperava bem mais dessa trilogia, principalmente porque o primeiro livro é muito bom. Uma pena.
Minha sugestão é ler o primeiro livro e esquecer que tem mais dois volumes na série. Seriamente.
Como bônus, nesse terceiro audio book temos o próprio autor lendo algumas passagens, especificamente as introduções do livro, que são excertos de textos de outros autores. Bastante interessante.
Antes de falar do livro em si, preciso fazer uma pequena observação: dois capítulos desse livro estavam nos arquivos de audio do livro anterior, The Subtle Knife, o que certamente confundiu bastante a coisa toda. Acho, inclusive, que os dois capítulos "dobrados" ficaram no lugar dos capítulos originais do livro, porque em nenhum momento eu encontrei uma explicação de como Mary Mallone acabou atravessando a barreira das dimensões - ela cita isso nesse terceiro livro, mas nunca explica. E pelo que percebi da narrativa de Pullman, ele não costuma deixar nada fora do lugar. Então a resenha daquele livro pode ter sido prejudicada por conta disso - mas duvido que mudasse muito minha opinião sobre o livro como um todo.
De fato, assim como não gostei do segundo livro, muito distante da narrativa do primeiro, também não gostei desse terceiro livro, por motivos diferentes. Já esperava que a narrativa se focasse mais na "poeira" e nas dimensões paralelas, como no livro anterior, mas uma série de coisinhas nesse livro me desagradaram.
E sim, vou falar sobre isso, então, aviso: Revelações sobre a trama adiante.
*** REVELAÇÕES SOBRE A TRAMA ADIANTE ***
Três coisas especificamente me incomodaram no livro. A primeira, menos importante, foi a adição de um Demônio para Will. Não entendi nem como nem porque ele passou a ter um Demônio "desperto", e achei ainda mais tolo isso acontecer tão no final da estória. Me pareceu tão... Inútil. Pareceu que Pullman quis criar um vínculo maior entre Will e Layra através de uma natureza mais semelhante, só pra que a separação forçada dos dois fosse ainda mais traumática.
O segundo problema pra mim é a série de personagens que simplesmente não têm razão de existir. O tal padre assassino (Luiz, acho), que a gente acompanha durante todo o livro, simplesmente morre sem fazer nenhuma diferença pra história - nenhuma diferença MESMO! Mary Mallone, apesar de criar a Luneta do título, também não faz nada pela história, além de ocupar espaço - mesmo porque a luneta não tem nenhum impacto na trama, de qualquer modo. Os Mulefas são totalmente desnecessários na história, e só estão lá pra explicar de onde vieram e como são diferentes das outras formas de vida, mais nada. Me parece que a existência desse eixo inteiro da tramas só serve pra ocupar espaço no livro, sem nenhum motivo.
A terceira coisa que me incomodou - e isso, sim, me incomodou bastante! - é a Autoridade. Um anjo (que foi um humano seis mil anos atrás), colocado no lugar de Deus pra governar a existência, com milênios de existência, capaz de ler sentimentos humanos, brilhar como uma lâmpada fosforescente e liderar hordas de Anjos, além de ter um castelo voador. E daí ele é seduzido por uma mortal e, como se isso não fosse idiota o suficiente, derrotado no braço por dois humanos sem nenhum tipo de treinamento marcial - dois cientistas! Serio? Sou a criatura mais poderosa do universo, mas como posso ser derrotado por qualquer um, vou deixar meu castelo e ir, sozinho, matar esse sujeito porque essa humana gostosa (e sabidamente mal-caráter) vai me ajudar. Uhum. Certamente Metatron não foi colocado no cargo de administrador por conta da sua inteligência, nem sua capacidade de liderança ou seu bom senso. Alias, como ele não apresenta nenhuma qualidade, fica difícil levar a sério que ele era o sujeito malvado no fim da história. Bem difícil... Ele é impulsivo, belicoso, arrogante, lascivo, emotivo... Como um sujeito com seis mil anos de idade, com todos esses defeitos, consegue não só permanecer vivo mas comandar todo o exército mais poderoso da criação é um mistério que desafia qualquer explicação que eu tenha sido capaz de extrapolar!
*** FIM DAS REVELAÇÕES SOBRE A TRAMA ***
Esperava bem mais dessa trilogia, principalmente porque o primeiro livro é muito bom. Uma pena.
Minha sugestão é ler o primeiro livro e esquecer que tem mais dois volumes na série. Seriamente.
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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
O Espadachim de Carvão
Um amigo meu mencionou esse livro um par de vezes - uma quando ainda estava lendo, e outra quando terminou de ler. Não foram exatamente menções entusiasmadas, mas sim algo como "uma curiosidade".
Eu, pessoalmente, nunca tinha ouvido falar no autor, e admito que fiquei surpreso ao final da leitura quando fiz uma procura pelo sujeito e descobri que ele tinha uma boa quantidade de coisas publicadas. Considerando que eu não tinha ouvido falar do trabalho dele em lugar algum - e tirando esse livro como base - só posso concluir que o fato dele trabalhar pra gente de calibre é o que permite que ele publique tanta coisa. Benefícios da fama/Quem Indique, aparentemente.
Não que o livro em si seja de todo ruim. Ele tem uma história geral quase boa, mas infelizmente há uma série de furos de roteiros difíceis de não perceber, além de vários problemas de estilo.
Aviso: Vou fazer algumas revelações sobre a trama nos próximos dois parágrafos (mais um desabafo do que qualquer outra coisa, na verdade), antes de ir adiante com a análise do livro. Como sempre, há um grande aviso sobre o início e o fim do trecho onde há revelações sobre a trama, então, se não tiver lido e não quiser receber alguma informação relevante sobre o livro, desça até o fim das revelações da trama e continue a leitura.
*** REVELAÇÕES SOBRE A TRAMA! ***
Se as espadas eram capazes de encontrar umas as outras através de um brilho fraco, como caralhos o sujeito, depois de ter ficado com elas por 7 anos, nunca, nunca notou isso? Sério, tu precisa ser completamente incapaz de ver pra não perceber luminescência vindo do cabo da tua espada quando está solitário, no porão de um navio pobremente iluminado - durante uma viagem de duas semanas! Alias, no primeiro combate do livro, ele enfrenta um grupo de assassinos e o combate termina em campo aberto, à noite, sem iluminação, e uma das espadas fica presa no corpo de um dos assassinos e ele precisa tirar, apoiando o pé no corpo e puxando a lâmina. No escuro. Sem tochas. Focado na espada. E ele não percebeu que ela brilhava. Tá bem.
Isso sem contar que o pai dele, nos sete anos em que ele teve as espadas, não mencionou em nenhum momento que elas eram relíquias... Alias, falando em pai dele, preciso dizer que considerando que eles são divindades capazes de prender outras divindades em prisões de cristal, criar vida, controlar o ambiente ao redor, viverem por milhares de anos, serem capazes de respirar sob a água, sem contar terem 10 metros de altura (sem contar todos os poderes que eles provavelmente tem e não foram mencionados) fica difícil engolir que ele foi morto por um grupo de assassinos bárbaros que foram logo em seguida derrotados por um sujeito com duas espadas - em 3 segundos.
** FIM DAS REVELAÇÕES SOBRE A TRAMA! ***
Além dos problemas envolvendo a trama em si, a narrativa tem uma série de problemas próprios. O escritor começa com descrições extremamente pedantes sem nenhum objetivo exceto de "parecer poético" - e que, obviamente, só servem pro leitor revirar os olhos.
"A pouca luminosidade que penetrava no depósito graças às brechas e falhas na madeira das paredes, porta e janela, perfurando as trevas como lanças pálidas querendo feri-lo."
"a lâmina de osso despertou com um silvo ao deslizar no forro da bainha, implorando que sua superfície perfeitamente branca logo fosse maculada."
Desnecessariamente rebuscado. Claro, isso dura umas 10 páginas. Depois o autor esquece completamente que estava fazendo essas descrições pedantes (e obviamente impossíveis de manter ao longo de um livro inteiro) e começa a escrever de maneira "normal". Elas servem só pra incomodar o leitor de arrancada. Péssima idéia.
Outro problema sério de estilo é o fato do autor trocar o tipo de fonte, espaçamento, usar caixa alta e abusar de múltiplos pontos no final de sentenças - vários "!!" e uma infinidade de "?!". Ninguém falou pra ele que ele estava escrevendo um livro, não digitando na internet... A escrita tem características tão esquizofrênicas que se torna incomoda de ler - pra alguém que gosta de ler livros, ao menos.
Finalmente, o livro tem algumas idéias que são interessantes, mas mal executadas. O autor não usa metros, ao invés disso usa passos pra medir distâncias e cascos pra medir comprimentos - o problema é que um casco tem uma medida de um palmo mais ou menos, seja lá quanto um palmo tenha - o meu tem 25 centímetros, então eu passei a usar essa medida. Daí quer toda vez que o autor te dá uma medida, tu precisa converter isso baseado no teu tamanho de palmos. Bem chato durante a leitura e acaba com a imersão. Bom trabalho criando uma identidade pro cenário, péssimo trabalho ao apresentá-la ao leitor.
Alias, o cenário é o ponto alto do livro. Tem uma mitologia toda própria, uma série de características tradicionais interessantes - por exemplo: Armas são feitas de Ambärr (material extraído dos ossos do animal de mesmo nome), ou de madeira. Não há menções À armas de metal. Conceito interessantíssimo. Além disso, há uma infinidade de raçass no cenário, apesar de, pra mim, os nomes longos terem sido um problema pra memorizar o que era o que, considerando que elas eram bem diferentes entre si.
Infelizmente, os pontos positivos nem de longe conseguem suplantar os negativos. O livro é, sem muitos rodeios, ruim. Trama interessante mas muito mal conduzida, personagens sem carisma, cenário mal explorado e escrita irregular. Não pretendo voltar a ler Affonso Solano, e não recomendo.
Eu, pessoalmente, nunca tinha ouvido falar no autor, e admito que fiquei surpreso ao final da leitura quando fiz uma procura pelo sujeito e descobri que ele tinha uma boa quantidade de coisas publicadas. Considerando que eu não tinha ouvido falar do trabalho dele em lugar algum - e tirando esse livro como base - só posso concluir que o fato dele trabalhar pra gente de calibre é o que permite que ele publique tanta coisa. Benefícios da fama/Quem Indique, aparentemente.
Não que o livro em si seja de todo ruim. Ele tem uma história geral quase boa, mas infelizmente há uma série de furos de roteiros difíceis de não perceber, além de vários problemas de estilo.
Aviso: Vou fazer algumas revelações sobre a trama nos próximos dois parágrafos (mais um desabafo do que qualquer outra coisa, na verdade), antes de ir adiante com a análise do livro. Como sempre, há um grande aviso sobre o início e o fim do trecho onde há revelações sobre a trama, então, se não tiver lido e não quiser receber alguma informação relevante sobre o livro, desça até o fim das revelações da trama e continue a leitura.
*** REVELAÇÕES SOBRE A TRAMA! ***
Se as espadas eram capazes de encontrar umas as outras através de um brilho fraco, como caralhos o sujeito, depois de ter ficado com elas por 7 anos, nunca, nunca notou isso? Sério, tu precisa ser completamente incapaz de ver pra não perceber luminescência vindo do cabo da tua espada quando está solitário, no porão de um navio pobremente iluminado - durante uma viagem de duas semanas! Alias, no primeiro combate do livro, ele enfrenta um grupo de assassinos e o combate termina em campo aberto, à noite, sem iluminação, e uma das espadas fica presa no corpo de um dos assassinos e ele precisa tirar, apoiando o pé no corpo e puxando a lâmina. No escuro. Sem tochas. Focado na espada. E ele não percebeu que ela brilhava. Tá bem.
Isso sem contar que o pai dele, nos sete anos em que ele teve as espadas, não mencionou em nenhum momento que elas eram relíquias... Alias, falando em pai dele, preciso dizer que considerando que eles são divindades capazes de prender outras divindades em prisões de cristal, criar vida, controlar o ambiente ao redor, viverem por milhares de anos, serem capazes de respirar sob a água, sem contar terem 10 metros de altura (sem contar todos os poderes que eles provavelmente tem e não foram mencionados) fica difícil engolir que ele foi morto por um grupo de assassinos bárbaros que foram logo em seguida derrotados por um sujeito com duas espadas - em 3 segundos.
** FIM DAS REVELAÇÕES SOBRE A TRAMA! ***
Além dos problemas envolvendo a trama em si, a narrativa tem uma série de problemas próprios. O escritor começa com descrições extremamente pedantes sem nenhum objetivo exceto de "parecer poético" - e que, obviamente, só servem pro leitor revirar os olhos.
"A pouca luminosidade que penetrava no depósito graças às brechas e falhas na madeira das paredes, porta e janela, perfurando as trevas como lanças pálidas querendo feri-lo."
"a lâmina de osso despertou com um silvo ao deslizar no forro da bainha, implorando que sua superfície perfeitamente branca logo fosse maculada."
Desnecessariamente rebuscado. Claro, isso dura umas 10 páginas. Depois o autor esquece completamente que estava fazendo essas descrições pedantes (e obviamente impossíveis de manter ao longo de um livro inteiro) e começa a escrever de maneira "normal". Elas servem só pra incomodar o leitor de arrancada. Péssima idéia.
Outro problema sério de estilo é o fato do autor trocar o tipo de fonte, espaçamento, usar caixa alta e abusar de múltiplos pontos no final de sentenças - vários "!!" e uma infinidade de "?!". Ninguém falou pra ele que ele estava escrevendo um livro, não digitando na internet... A escrita tem características tão esquizofrênicas que se torna incomoda de ler - pra alguém que gosta de ler livros, ao menos.
Finalmente, o livro tem algumas idéias que são interessantes, mas mal executadas. O autor não usa metros, ao invés disso usa passos pra medir distâncias e cascos pra medir comprimentos - o problema é que um casco tem uma medida de um palmo mais ou menos, seja lá quanto um palmo tenha - o meu tem 25 centímetros, então eu passei a usar essa medida. Daí quer toda vez que o autor te dá uma medida, tu precisa converter isso baseado no teu tamanho de palmos. Bem chato durante a leitura e acaba com a imersão. Bom trabalho criando uma identidade pro cenário, péssimo trabalho ao apresentá-la ao leitor.
Alias, o cenário é o ponto alto do livro. Tem uma mitologia toda própria, uma série de características tradicionais interessantes - por exemplo: Armas são feitas de Ambärr (material extraído dos ossos do animal de mesmo nome), ou de madeira. Não há menções À armas de metal. Conceito interessantíssimo. Além disso, há uma infinidade de raçass no cenário, apesar de, pra mim, os nomes longos terem sido um problema pra memorizar o que era o que, considerando que elas eram bem diferentes entre si.
Infelizmente, os pontos positivos nem de longe conseguem suplantar os negativos. O livro é, sem muitos rodeios, ruim. Trama interessante mas muito mal conduzida, personagens sem carisma, cenário mal explorado e escrita irregular. Não pretendo voltar a ler Affonso Solano, e não recomendo.
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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
His Dark Materials - The Subtle Knife
Ok. Tenho bastante coisa pra falar sobre o segundo livro da série His Dark Materials do Philip Pullman, então sem enrolações, vamos direto ao assunto.
E já aviso que, apesar de serem mantidas dentro do estritamente necessário, vão haver revelações sobre a trama nessa resenha.
Primeiro, esse livro é completamente diferente do primeiro. Não tem o elemento steampunk do primeiro, ao invés disso focando em viagens entre dimensões paralelas, principalmente uma versão da terra dos anos 80 e uma cidade italiana cheia de fantasmas. Ou seja, se o clima steampunk foi um dos atrativos do primeiro livro, esteja avisado pra uma coisa completamente diferente aqui.
Além disso, o clima é completamente diferente. O ritmo é mais lento, a história é muito mais focada na protagonista (e no novo protagonista) e os personagens secundários praticamente desaparecem. Sim, eles estão lá, mas não são mais um universo vivo ao redor dos personagens, criando tramas e impulsionando a história. Além disso eles cumprem seus papéis de forma estoica e depois desaparecem completamente da história. Fim de papo, nada de gastar linhas com personagens não essenciais.
Além disso tudo, Pullman joga uma série enorme de novos elementos na história (novas raças, novas realidades inteiras, novas visões sobre os elementos já vistos no primeiro livro...) e não explica absolutamente nada. Nada, mesmo! Quer saber alguma coisa a mais sobre Dust? Bom, não tem nada nesse livro. Eles revolvem sobre o assunto sem adicionar nada de novo. Quer saber onde foi parar Lorde Asriel? Ou qual o plano dele? Ou o plano de Miss Coulter? Nenhuma resposta aqui. Esse livro só adiciona mais perguntas, complica os elementos já existente, adiciona bizarrices novas e não avança a trama nem uma linha.
E eu não gostei do ritmo do livro. De uma história clássica de fantasia, com um ritmo de balada heróica, o livro se torna basicamente a relação entre duas crianças sem nenhum tipo de curiosidade até a metade - sério, eu queria muito pegar os protagonistas pelos ombros e balançar eles pra ver se saia uma criança de verdade ali de dentro! Eles são basicamente adultos pequenos, exceto quando a trama exige que eles hajam como crianças. Duvido que o Pullman tenha tido filhos - e se teve, tenho pena das pobres crianças...
A segunda metade do livro fica mais parecida com o primeiro, com elementos mais familiares à história, alguns personagens resgatados do primeiro livro e uma tentativa muito sem vontade de fazer a história voltar a andar - ainda que aos tropeções. Mas depois do desgaste da primeira metade do livro, eu admito que ia ser necessário um esforço muito grande do autor pra me fazer entrar no ritmo outra vez - e isso simplesmente não acontece.
Conclusão: o livro é chato, os protagonistas são inverossímeis, a trama é praticamente auto-contida. Quero ler o terceiro livro e descobrir se Pullman dá algumas respostas ou se ele vai simplesmente ficar empurrando a história com a barriga, como fez nesse livro. De fato, acredito que, se algumas respostas forem dadas no terceiro livro, esse livro do meio pode se tornar completamente desnecessário.
Possivelmente um dos piores livros que eu já li - e olha que eu leio um bocado de livros ruins de propósito...
E já aviso que, apesar de serem mantidas dentro do estritamente necessário, vão haver revelações sobre a trama nessa resenha.
Primeiro, esse livro é completamente diferente do primeiro. Não tem o elemento steampunk do primeiro, ao invés disso focando em viagens entre dimensões paralelas, principalmente uma versão da terra dos anos 80 e uma cidade italiana cheia de fantasmas. Ou seja, se o clima steampunk foi um dos atrativos do primeiro livro, esteja avisado pra uma coisa completamente diferente aqui.
Além disso, o clima é completamente diferente. O ritmo é mais lento, a história é muito mais focada na protagonista (e no novo protagonista) e os personagens secundários praticamente desaparecem. Sim, eles estão lá, mas não são mais um universo vivo ao redor dos personagens, criando tramas e impulsionando a história. Além disso eles cumprem seus papéis de forma estoica e depois desaparecem completamente da história. Fim de papo, nada de gastar linhas com personagens não essenciais.
Além disso tudo, Pullman joga uma série enorme de novos elementos na história (novas raças, novas realidades inteiras, novas visões sobre os elementos já vistos no primeiro livro...) e não explica absolutamente nada. Nada, mesmo! Quer saber alguma coisa a mais sobre Dust? Bom, não tem nada nesse livro. Eles revolvem sobre o assunto sem adicionar nada de novo. Quer saber onde foi parar Lorde Asriel? Ou qual o plano dele? Ou o plano de Miss Coulter? Nenhuma resposta aqui. Esse livro só adiciona mais perguntas, complica os elementos já existente, adiciona bizarrices novas e não avança a trama nem uma linha.
E eu não gostei do ritmo do livro. De uma história clássica de fantasia, com um ritmo de balada heróica, o livro se torna basicamente a relação entre duas crianças sem nenhum tipo de curiosidade até a metade - sério, eu queria muito pegar os protagonistas pelos ombros e balançar eles pra ver se saia uma criança de verdade ali de dentro! Eles são basicamente adultos pequenos, exceto quando a trama exige que eles hajam como crianças. Duvido que o Pullman tenha tido filhos - e se teve, tenho pena das pobres crianças...
A segunda metade do livro fica mais parecida com o primeiro, com elementos mais familiares à história, alguns personagens resgatados do primeiro livro e uma tentativa muito sem vontade de fazer a história voltar a andar - ainda que aos tropeções. Mas depois do desgaste da primeira metade do livro, eu admito que ia ser necessário um esforço muito grande do autor pra me fazer entrar no ritmo outra vez - e isso simplesmente não acontece.
Conclusão: o livro é chato, os protagonistas são inverossímeis, a trama é praticamente auto-contida. Quero ler o terceiro livro e descobrir se Pullman dá algumas respostas ou se ele vai simplesmente ficar empurrando a história com a barriga, como fez nesse livro. De fato, acredito que, se algumas respostas forem dadas no terceiro livro, esse livro do meio pode se tornar completamente desnecessário.
Possivelmente um dos piores livros que eu já li - e olha que eu leio um bocado de livros ruins de propósito...
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
O Amor e o Machado
Eu sempre acreditei no amor, mas também que o amor não acreditava em mim. Não que eu seja um cético - veja bem, eu acreditava no amor! - mas sempre houve em mim um certo cinismo, uma pontada de descrença quando ouvia as pessoas falarem sobre o amor. Elas falavam nele de uma forma tão idílica, fervorosa, quase como um dos mistérios da fé. Era sempre cantado em versos quase poéticos. "o amor é imortal, eterno" ou "o amor é cego, puro e besta". E eu não conseguia acreditar que qualquer coisa que beire o sagrado e inspire poesia possa ter qualquer interesse em mim.
Assim, segui minha vida, acreditando que o amor existia, de alguma forma completamente inescrutável, provavelmente muito diferente das descrições dele que eu já ouvira, mas que, de toda forma, fosse como fosse, ele não tinha o menor interesse em mim - ou, mais precisamente, ele não acreditava em mim da mesma forma que eu não acreditava nele.
Até que um dia, enquanto cortava lenha, por mera distração acertei o amor com uma machadada. Uma machadada bem dada, diga-se de passagem. Daquelas que pegam em cheio e não deixam dúvidas sobre os resultados. E eu soube, ali, que era o fim. Acreditando ou não nele - ou ele em mim - eu havia matado o amor.
Me ajoelhei ao seu lado e vi o amor dar seu último suspiro, num gorgolejo de sangue, fitar meus olhos por um instante em uma incredulidade assustada, como quem pensa "como tu pode ter feito algo tão estúpido como me matar com uma machadada descuidada?" e então ficar ali, inerte, numa poça de sangue.
Por um momento fiquei ali, pensando se devia ligar pra polícia. Pros bombeiros. Pra algum amigo ou ex-namorada. Contar pra alguém o que eu fiz. Enquanto o amor jazia ali no chão, eu me sentia um assassino.
Mas então, refleti com meus botões: Se ele nunca tinha dado as caras por aqui, ninguém nunca tinha me visto em companhia do amor, se eu nem acreditava nele - e todos sabiam que não acreditava sequer que ele acreditava em mim! - por que eu avisaria alguém que ele morreu?
Assim, peguei meu machado e golpeei o amor até ele ficar em pedaços bem pequenos. Abri um buraco fundo, ao lado daquele onde tinha enterrado meu primeiro gato, que morrera anos antes (de causas naturais, até onde eu sei; certamente não por causa de uma machadada), e fui jogando ali os pedaços do amor. Sentia uma pontada de tristeza por ter matado o amor, admito, mas o sentimento se foi quando terminei de tapar o buraco.
Depois disso, achei que era o fim. Que não haveria mais amor no mundo, pelo menos pra mim. Afinal, mesmo sabendo, agora, que o amor definitivamente existia, eu também sabia que tinha matado ele.
Então, uma noite, por baixo do som do fogo, numa noite particularmente gelada de inverno, ouvi um barulho lá fora. Peguei meu machado e fui verificar. Vasculhei o pátio com aquele sentimento estranho de quem já teve que lidar com ladrões, que sabe que pode se ver frente à frente com uma encrenca mas que tem tudo sob controle e sabe o que está fazendo. Mas, pra minha surpresa, lá estava o amor. Usando um casaco pesado, uma manta colorida e brincado com uma das minhas gatas!
Enquanto eu olhava, incrédulo, o amor sorriu e correu pros meus braços, e me deu um aperto forte, pra garantir que havia voltado. E eu soube, então, que o amor era mesmo imortal, como haviam me dito!
E então me desvencilhei do abraço, dei um passo pra trás, olhei bem no fundo dos olhos do amor, e, por puro despeito, dei outra machadada nele. E picotei seu corpo, e enterrei os pedaços no mesmo lugar de antes.
Mas além de imortal, o maldito amor também é incansável. Não importa quantas vezes eu tenha dado machadadas nele - e foram várias, até hoje - ele sempre volta.
O estranho é que, apesar de eu sempre reconhecer o amor, toda vez que ele aparece outra vez, ele sempre é diferente. Toda vez. As vezes é risonho, as vezes sério, moreno, castanho, tem olhos azuis, verdes ou negros. E toda vez que eu dou uma machadada nele, eu sei que ele nunca mais será daquele jeito quando voltar. E apesar de isso me dar sempre aquela pontada de tristeza quando estou jogando seus pedaços naquele buraco ao lado de onde enterrei meu primeiro gato, também me traz uma sensação de expectativa, de não saber se ele vai mesmo voltar da próxima vez, e se voltar, qual a cara que vai ter.
E sim, eu sei, hoje, que ele sempre vai voltar.
E essa é minha relação com o amor: Ele com sua insistência imortal, eu com meu machado ímpio.
Assim, segui minha vida, acreditando que o amor existia, de alguma forma completamente inescrutável, provavelmente muito diferente das descrições dele que eu já ouvira, mas que, de toda forma, fosse como fosse, ele não tinha o menor interesse em mim - ou, mais precisamente, ele não acreditava em mim da mesma forma que eu não acreditava nele.
Até que um dia, enquanto cortava lenha, por mera distração acertei o amor com uma machadada. Uma machadada bem dada, diga-se de passagem. Daquelas que pegam em cheio e não deixam dúvidas sobre os resultados. E eu soube, ali, que era o fim. Acreditando ou não nele - ou ele em mim - eu havia matado o amor.
Me ajoelhei ao seu lado e vi o amor dar seu último suspiro, num gorgolejo de sangue, fitar meus olhos por um instante em uma incredulidade assustada, como quem pensa "como tu pode ter feito algo tão estúpido como me matar com uma machadada descuidada?" e então ficar ali, inerte, numa poça de sangue.
Por um momento fiquei ali, pensando se devia ligar pra polícia. Pros bombeiros. Pra algum amigo ou ex-namorada. Contar pra alguém o que eu fiz. Enquanto o amor jazia ali no chão, eu me sentia um assassino.
Mas então, refleti com meus botões: Se ele nunca tinha dado as caras por aqui, ninguém nunca tinha me visto em companhia do amor, se eu nem acreditava nele - e todos sabiam que não acreditava sequer que ele acreditava em mim! - por que eu avisaria alguém que ele morreu?
Assim, peguei meu machado e golpeei o amor até ele ficar em pedaços bem pequenos. Abri um buraco fundo, ao lado daquele onde tinha enterrado meu primeiro gato, que morrera anos antes (de causas naturais, até onde eu sei; certamente não por causa de uma machadada), e fui jogando ali os pedaços do amor. Sentia uma pontada de tristeza por ter matado o amor, admito, mas o sentimento se foi quando terminei de tapar o buraco.
Depois disso, achei que era o fim. Que não haveria mais amor no mundo, pelo menos pra mim. Afinal, mesmo sabendo, agora, que o amor definitivamente existia, eu também sabia que tinha matado ele.
Então, uma noite, por baixo do som do fogo, numa noite particularmente gelada de inverno, ouvi um barulho lá fora. Peguei meu machado e fui verificar. Vasculhei o pátio com aquele sentimento estranho de quem já teve que lidar com ladrões, que sabe que pode se ver frente à frente com uma encrenca mas que tem tudo sob controle e sabe o que está fazendo. Mas, pra minha surpresa, lá estava o amor. Usando um casaco pesado, uma manta colorida e brincado com uma das minhas gatas!
Enquanto eu olhava, incrédulo, o amor sorriu e correu pros meus braços, e me deu um aperto forte, pra garantir que havia voltado. E eu soube, então, que o amor era mesmo imortal, como haviam me dito!
E então me desvencilhei do abraço, dei um passo pra trás, olhei bem no fundo dos olhos do amor, e, por puro despeito, dei outra machadada nele. E picotei seu corpo, e enterrei os pedaços no mesmo lugar de antes.
Mas além de imortal, o maldito amor também é incansável. Não importa quantas vezes eu tenha dado machadadas nele - e foram várias, até hoje - ele sempre volta.
O estranho é que, apesar de eu sempre reconhecer o amor, toda vez que ele aparece outra vez, ele sempre é diferente. Toda vez. As vezes é risonho, as vezes sério, moreno, castanho, tem olhos azuis, verdes ou negros. E toda vez que eu dou uma machadada nele, eu sei que ele nunca mais será daquele jeito quando voltar. E apesar de isso me dar sempre aquela pontada de tristeza quando estou jogando seus pedaços naquele buraco ao lado de onde enterrei meu primeiro gato, também me traz uma sensação de expectativa, de não saber se ele vai mesmo voltar da próxima vez, e se voltar, qual a cara que vai ter.
E sim, eu sei, hoje, que ele sempre vai voltar.
E essa é minha relação com o amor: Ele com sua insistência imortal, eu com meu machado ímpio.
sexta-feira, 18 de novembro de 2016
His Dark Materials - The Golden Compass
His Dark Materials. Essa série, que já teve até uma adaptação pro cinema, nunca me chamou atenção. Provavelmente porque eu só descobri ela depois do filme que adaptou o primeiro livro - e que, na verdade, não me impressionou muito.
Mas, como o filme tem elementos interessantes - e todos sabemos que livros quase sempre são melhores do que suas adaptações pra cinema - resolvi escutar.
E, obviamente, tive uma grata surpresa!
Eu lembrava vagamente do filme, e em várias passagens do livro, consegui fazer conexões com imagens que tinha na memória, o que foi interessante. Não lembro muito do filme, mas aparentemente ele segue, ao menos em linhas gerais, a história do filme. Apesar de eu não lembrar exatamente dos conflitos entre a protagonista e o tio dela, e de lembrar da "vilã" de uma forma mais caricata.
Obviamente, no entanto, o livro tem muito mais sutilezas e sub-tramas interessantes, e também uma série de conflitos que eu definitivamente não lembro de ter visto no filme. O autor toca em questões de política, sexualidade, maturidade e principalmente fundamentalismo religiosos que, certamente, não estão presentes no filme. De fat, há uma enormidade de informação pra absorver no livro, e tenho certeza que a maioria dos temas vistos aqui serão aprofundados nos próximos dois livros - e pelos quais estou ansioso!
Uma das características que eu gostei é que o livro se passa em uma "versão alternativa" do nosso mundo, durante a era vitoriana. Há várias referências à locais reais (como Londres) , religião e costumes (a passagem da bíblia sobre o pecado original que aparece no livro é simplesmente preciosa), que de forma alguma ficam deslocados em relação aos elementos de fantasia adicionados por Pullman. De fato, o livro é tão bem construído que parece que aquela é a realidade verdadeira e nós vivemos em uma realidade paralela meio remendado!
Além disso, ele audio teve uma característica bastante distinta de todos os outros que escutei até agora: Ao invés de apenas um narrador, cada um dos personagens é interpretado por um ator diferente! A primeira vez que a voz do narrador é substituída por uma garotinha - que interpreta a protagonista - eu pensei "Nossa, esse cara é MUITO BOM! Levei alguns segunds pra me dar conta que não, não era o narrador fazendo vozinha de criança... E admito que foi bastante interessante escutar várias vozes diferentes ao longo do livro. Gosto de um único narrador, mas foi uma surpresa bastante interessante!
Uma rápida questão com relação ao nome do livro: No original, o livro se chama Northern Lights, mas quando foi levado pros Estados Unidos, foi renomeado The Golden Compass. Eu gosto do título original, mas considerando que cos outros dois livros fazem referências à itens, admito que preferi a versão americana. Não faz muita diferença, mas enfim!
Leitura fortemente recomendada! É um livro divertidíssimo, com uma trama concisa e uma série de elementos bastante interessantes e bem amarrados!
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domingo, 13 de novembro de 2016
The Redemption of Althalus
Esse audio book me causa um certo conflito de opiniões. Ele conta a história de Althalus, um ladrão, trapaceiro, gatuno, enrolador e ocasionalmente assassino (quando a situação exige) abençoado com a maior sorte do mundo, o que lhe garante a fama de ser um dos maiores ladrões que já existiu. Essa fama fez com que ele fosse contratado para roubar um artefato misteriosos de uma casa igualmente misteriosa, à beira do fim do mundo. Essa é a premissa básica do livro, magistralmente construída ao longo de seus primeiros capítulos.
Por um lado, achei absolutamente fascinante como os Eddings conseguiram me fazer simpatizar tanto com um criminosos contumaz como Althalos. Não costumo gostar de personagens ardilosos, particularmente os criminosos. Mas Althalos é tão bem construído que ao final do primeiro capítulo, mesmo sabendo que as coisas não podiam ser assim tão simples, eu já estava torcendo por ele.
Além de um protagonista que tem tudo pra ser extremamente interessante, a história conta com um gato falante e uma casa única, com vários conceitos bastante interessantes - se não originais - em um romance de fantasia que definitivamente fazem o leitor querer ir adiante na leitura.
O narrador do livro Hayard Morse é excelente. Apesar de suas vozes femininas não serem particularmente brilhantes, ele adiciona não só diferenças de tonalidades aos personagens que está narrando mas também adiciona sotaques e, pelo que pude perceber, nunca se perde com relação à "quem-fala-de-que-jeito". Espero ouvir mais audios dele (ele narrou alguns livros do Bernard Corwell, então acho que devo encontrar com ele mais vezes por aí).
Infelizmente, no entanto, o livro tem alguns problemas.
primeiro, o número de localidades e principalmente coadjuvantes (eu consigo lembrar de umas 20 personagens relevantes pra trama assim, num piscar de olhos) fazem com que seja extremamente difícil conseguir manter todas as informações bem organizadas. Isso é particularmente verdade com relação à audio books. Se estivesse lendo um livro, provavelmente teria começado a anotar nomes de localidades e personagens assim que o quinto ou sexto nome de cada fosse mencionado. Mas como geralmente escuto enquanto estou praticando alguma outra atividade (como ir de um lugar ao outro, desenhar ou cortar grama) isso é impraticável. Assim, além de ter me atrapalhado com o nome de vários personagens coadjuvantes (que, pra piorar, as vezes têm mais de um nome!) ainda por cima é muito difícil se apegar a qualquer um deles, já que eles não tem desenvolvimento suficiente ao longo do livro pra serem mais do que um simples conceito ("Ok, esse aí é o clérigo", "Ah, essa é a bruxa", "Hum esse é o chefe do clã que gosta de cerveja - ou é o que gosta mais de dinheiro...?").
Finalmente, como o próprio título do livro diz, essa história é sobre a redenção de Althalos. Assim, depois de construir o personagem e fazer o leitor simpatizar com ele, o resto do livro trata de descontruir o personagem! Muitas vezes, alias, de formas paradoxais e sem muito sentido. Cheguei ao final do livro com a impressão de que ele não tinha se redimido, mas sim colocado seus servições à disposição de uma causa, e só.
É um livro longo (foram 27 horas de audio) e cheio de informações, com uma trama interessante, mas com sub-tramas demais e principalmente um excesso de personagens e informações. Eu diria que é um bom livro, mas definitivamente indicaria para ser lido ao invés de escutado - e de preferência com um mapa do cenário e um bloco de anotações para os nomes dos personagens à mão!
Por um lado, achei absolutamente fascinante como os Eddings conseguiram me fazer simpatizar tanto com um criminosos contumaz como Althalos. Não costumo gostar de personagens ardilosos, particularmente os criminosos. Mas Althalos é tão bem construído que ao final do primeiro capítulo, mesmo sabendo que as coisas não podiam ser assim tão simples, eu já estava torcendo por ele.
Além de um protagonista que tem tudo pra ser extremamente interessante, a história conta com um gato falante e uma casa única, com vários conceitos bastante interessantes - se não originais - em um romance de fantasia que definitivamente fazem o leitor querer ir adiante na leitura.
O narrador do livro Hayard Morse é excelente. Apesar de suas vozes femininas não serem particularmente brilhantes, ele adiciona não só diferenças de tonalidades aos personagens que está narrando mas também adiciona sotaques e, pelo que pude perceber, nunca se perde com relação à "quem-fala-de-que-jeito". Espero ouvir mais audios dele (ele narrou alguns livros do Bernard Corwell, então acho que devo encontrar com ele mais vezes por aí).
Infelizmente, no entanto, o livro tem alguns problemas.
primeiro, o número de localidades e principalmente coadjuvantes (eu consigo lembrar de umas 20 personagens relevantes pra trama assim, num piscar de olhos) fazem com que seja extremamente difícil conseguir manter todas as informações bem organizadas. Isso é particularmente verdade com relação à audio books. Se estivesse lendo um livro, provavelmente teria começado a anotar nomes de localidades e personagens assim que o quinto ou sexto nome de cada fosse mencionado. Mas como geralmente escuto enquanto estou praticando alguma outra atividade (como ir de um lugar ao outro, desenhar ou cortar grama) isso é impraticável. Assim, além de ter me atrapalhado com o nome de vários personagens coadjuvantes (que, pra piorar, as vezes têm mais de um nome!) ainda por cima é muito difícil se apegar a qualquer um deles, já que eles não tem desenvolvimento suficiente ao longo do livro pra serem mais do que um simples conceito ("Ok, esse aí é o clérigo", "Ah, essa é a bruxa", "Hum esse é o chefe do clã que gosta de cerveja - ou é o que gosta mais de dinheiro...?").
Finalmente, como o próprio título do livro diz, essa história é sobre a redenção de Althalos. Assim, depois de construir o personagem e fazer o leitor simpatizar com ele, o resto do livro trata de descontruir o personagem! Muitas vezes, alias, de formas paradoxais e sem muito sentido. Cheguei ao final do livro com a impressão de que ele não tinha se redimido, mas sim colocado seus servições à disposição de uma causa, e só.
É um livro longo (foram 27 horas de audio) e cheio de informações, com uma trama interessante, mas com sub-tramas demais e principalmente um excesso de personagens e informações. Eu diria que é um bom livro, mas definitivamente indicaria para ser lido ao invés de escutado - e de preferência com um mapa do cenário e um bloco de anotações para os nomes dos personagens à mão!
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sábado, 29 de outubro de 2016
The High Druid of Shannara
A trilogia de livros The High Druid of Shannara dá continuidade à série anterior, Voyage of Sherle Shannara, e se passa cerca de 30 anos depois dos eventos descritos na trilogia anterior - o que, admito, foi uma surpresa, já que, até então, cada série de livros de Terry Broks tinham pelo menos uns 300 anos de distância umas das outras, com os personagens da história anterior quase sempre tendo se tornado apenas lendas e histórias - exceto, claro, algum druida que fazia a ligação entre uma série e outra. Nesse caso, no entanto, Brooks trouxe de volta praticamente todos os personagens da trilogia anterior, a maioria deles com papeis importante, apesar de seus papéis secundários na narrativa, adicionando alguns novos personagens como protagonistas.
Admito que fui pego desprevenido por essa mudança de lógica - e, de fato, fiquei até um pouco preocupado, considerando que não tinha me apegado muito aos personagens do livro anterior. No entanto Brooks faz um bom trabalho em retomar a trama anterior e adicionar novos elementos nessa trilogia.
O único ponto negativo que consigo apontar com relação à trama é o fato de algumas partes do cenário terem evoluído muito mais rapidamente e surpreendentemente do que seria esperado. Notavelmente, a Ordem dos Druidas, que tanto Alanon quanto Walker tinham lutado longamente para reerguer, praticamente sem sucesso ao longo de 600 anos, e que na trilogia anterior tinha sido praticamente desmembrada, foi instituída e tornou-se um poder a ser considerado nas Quatro Terras em apenas 30 anos. Admito que essa parte ficou um pouco entalada na minha garganta ao longo de toda a leitura.
No entanto, os pontos positivos dessa trilogia são vários. Os novos protagonistas são extremamente interessantes, a trama é consistente e muitos elementos dos livros anteriores foram revisitados com bastante sucesso - eu me peguei mais de uma vez falando em voz alta coisas como "Nossa, por essa eu não esperava!" A Elcrist e o Exílio (que haviam sido parte central de algumas tramas, mas tinham sido bem pouco explicados ou explorados), Jaaka Russ (que tinha sido mencionado lá em Wishsong of Shannara), Trolls como "raça coadjuvante" no lugar dos Elfos, como Brooks quase sempre fez, o uso de Airships, exploração de magia druídica... A única coisa que essa trilogia não teve, pela primeira vez desde Espada de Shannara, foi a presença de um Leah ao lado do Omsford protagonista (o que foi uma pena, porque um personagem portando a Espada de Leah nessa história teria sido algo bastante divertido de ver!).
De fato, essa foi, depois da trilogia original, a minha história favorita da série de Shannara. Não teria sido nem metade do divertimento se eu não tivesse lido todos os livros anteriores, provavelmente, mas como eu já tinha todo o embasamento do cenário ao meu lado (e bem fresco na memória, o que provavelmente também ajudou) essa foi uma trilogia extremamente divertida de ouvir!
Alias, fiquei particularmente satisfeito com isso porque esse foi o meu último aodio book do cenário. Não tive oportunidade de comprar as duas trilogias mais recentes (e nem tenho certeza se a última já existe em audio) e tenho uma enorme "biblioteca" de livros em audio que quero ouvir, fora do cenário de Shannara.
Assim, essa foi minha última resenha sobre um livro de Shannara provavelmente por um loooongo tempo... Mas espero um dia voltar à ela e ler pelo menos as duas trilogias mais recentes (que acontecem, cronologicamente, depois de The High Druid of Shannara, o que significa que vou poder manter minha estratégia de ler o cenário em ordem cronológica de eventos).
Recomendo fortemente a leitura - ou a escuta - de todos os livros de Shannara a partir de First King of Shannara (os livros anteriores, como eu já disse, adicionam pouco ao cenário e não são particularmente divertidos de ler/escutar)! Alias, adoraria que alguém aí se aventurasse na leitura pra eu poder trocar uma idéia sobre o cenário!
E falando em cenário, fiquei surpreso em descobrir que ninguém usou esse cenário pra produzir livros de RPG! Pô, tão perdendo uma baita oportunidade! Quem sabe um dia eu não me arrisco em fazer uma pequena adaptação caseira?
Bom, adeus Shannara, que venham novas sagas!
Admito que fui pego desprevenido por essa mudança de lógica - e, de fato, fiquei até um pouco preocupado, considerando que não tinha me apegado muito aos personagens do livro anterior. No entanto Brooks faz um bom trabalho em retomar a trama anterior e adicionar novos elementos nessa trilogia.
O único ponto negativo que consigo apontar com relação à trama é o fato de algumas partes do cenário terem evoluído muito mais rapidamente e surpreendentemente do que seria esperado. Notavelmente, a Ordem dos Druidas, que tanto Alanon quanto Walker tinham lutado longamente para reerguer, praticamente sem sucesso ao longo de 600 anos, e que na trilogia anterior tinha sido praticamente desmembrada, foi instituída e tornou-se um poder a ser considerado nas Quatro Terras em apenas 30 anos. Admito que essa parte ficou um pouco entalada na minha garganta ao longo de toda a leitura.
No entanto, os pontos positivos dessa trilogia são vários. Os novos protagonistas são extremamente interessantes, a trama é consistente e muitos elementos dos livros anteriores foram revisitados com bastante sucesso - eu me peguei mais de uma vez falando em voz alta coisas como "Nossa, por essa eu não esperava!" A Elcrist e o Exílio (que haviam sido parte central de algumas tramas, mas tinham sido bem pouco explicados ou explorados), Jaaka Russ (que tinha sido mencionado lá em Wishsong of Shannara), Trolls como "raça coadjuvante" no lugar dos Elfos, como Brooks quase sempre fez, o uso de Airships, exploração de magia druídica... A única coisa que essa trilogia não teve, pela primeira vez desde Espada de Shannara, foi a presença de um Leah ao lado do Omsford protagonista (o que foi uma pena, porque um personagem portando a Espada de Leah nessa história teria sido algo bastante divertido de ver!).
De fato, essa foi, depois da trilogia original, a minha história favorita da série de Shannara. Não teria sido nem metade do divertimento se eu não tivesse lido todos os livros anteriores, provavelmente, mas como eu já tinha todo o embasamento do cenário ao meu lado (e bem fresco na memória, o que provavelmente também ajudou) essa foi uma trilogia extremamente divertida de ouvir!
Alias, fiquei particularmente satisfeito com isso porque esse foi o meu último aodio book do cenário. Não tive oportunidade de comprar as duas trilogias mais recentes (e nem tenho certeza se a última já existe em audio) e tenho uma enorme "biblioteca" de livros em audio que quero ouvir, fora do cenário de Shannara.
Assim, essa foi minha última resenha sobre um livro de Shannara provavelmente por um loooongo tempo... Mas espero um dia voltar à ela e ler pelo menos as duas trilogias mais recentes (que acontecem, cronologicamente, depois de The High Druid of Shannara, o que significa que vou poder manter minha estratégia de ler o cenário em ordem cronológica de eventos).
Recomendo fortemente a leitura - ou a escuta - de todos os livros de Shannara a partir de First King of Shannara (os livros anteriores, como eu já disse, adicionam pouco ao cenário e não são particularmente divertidos de ler/escutar)! Alias, adoraria que alguém aí se aventurasse na leitura pra eu poder trocar uma idéia sobre o cenário!
E falando em cenário, fiquei surpreso em descobrir que ninguém usou esse cenário pra produzir livros de RPG! Pô, tão perdendo uma baita oportunidade! Quem sabe um dia eu não me arrisco em fazer uma pequena adaptação caseira?
Bom, adeus Shannara, que venham novas sagas!
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quinta-feira, 13 de outubro de 2016
O Nome do Vento
Tenho ouvido falar nesse livro há anos, recomendado por vários amigos. Admito que, no entanto, nunca me interessei em ler, particularmente depois de descobrir que se tratava do primeiro livro de uma trilogia cujo último livro ainda não tinha sido publicado - já é suficiente ter que esperar pelos livros das Crônicas Saxônicas. Agrava o caso o fato do primeiro livro ser de 2009 e o segundo ser de 2011. Dois anos entre os primeiros dois volumes, e agora um intervalo de cinco anos e nada do terceiro. Sabe-se lá quanto tempo vai levar ainda pra que a história seja concluída.
Mas, então, consegui o livro emprestado à alguns dias, e apesar da resistência, resolvi ler. Afinal, o máximo que poderia acontecer - além do livro ser muito ruim, claro - seria ter uma história sem fim. Poderia ser pior, considerando o número de livros que tem finais tenebrosos.
Enfim! Estou divagando!
Vamos ao livro!
Vou tentar manter essa resenha o mais livre de revelações sobre a trama quanto possível - a própria capa do livro já dá uma quantidade enorme de informação, na verdade, e eu vou me ater aos aspectos mais óbvios sobre o livro e à minha experiência de leitura. Vou deixar pra falar da trama em si quando fizer a resenha do Temor do Sábio, o segundo volume.
A história gira em torno de Kvothe, o tal Matador de Reis sobre o qual a trilogia de livros gira em torno, que, aposentado e vivendo como um simples estalajadeiro em uma pequena cidade meio isolada, é procurado por um cronista que quer escrever sua história. Apesar de inicialmente relutante, Kvothe acaba concordando, mas exige que a história seja contada em três dias - dai o subtítulo Primeiro Dia já que esse primeiro volume trás as narrativas da primeira noite de narrações do protagonista. Nele, Kvothe narra sua infância e adolescência, das suas primeiras memórias até seus quinze anos.
Não vou entrar no conteúdo dessa narrativa, exceto pra dizer que, além de muitas habilidades extremamente diversas em campos de atuação bastante variados, explicadas de forma concisa pelas experiências singulares da infância de Kvothe, a coisa toda gira em torno da busca dele por conhecimento sobre uma entidade ancestral - aparentemente maligna, mas eu admito que não estou completamente convencido disso ainda - e seu contato com o aprendizado de magia, além de uma paixão pela música.
O ponto alto do livro, alias, são as narrativas de Kvothe tocando seu alaúde. São realmente bastante inspiradas, e fazem o leitor prender o fôlego durante as passagens em que Rothfuss decide explicar como o protagonista está se sentindo enquanto toca.
Infelizmente, pra mim, o livro tem alguns problemas. A trama é mais centrada no dia-a-dia de Kvothe e suas relações com outros personagens, deixando em segundo plano as questões sobre magia e história do cenário, que, pra mim, são muito mais atraentes. Sim, ele constrói um personagem extremamente complexo e cria um vínculo entre ele e o leitor, mas esse mesmo personagem vive em um mundo meio vazio, sem horizonte, e possui um conhecimento amplo sobre ciências que são mantidas em segredo do leitor, que, portanto, não entende como e porque Kvothe pode fazer o que ele pode fazer - mesmo que isso seja tratado com naturalidade pelos personagens ao redor do protagonista.
Além dessa falta de interação com o mundo, o segundo grande problema do livro é o fato da narrativa não ter um climax. Há alguma ação no livro, mas não há um ponto alto. A história simplesmente vai indo, sem grandes acontecimentos, e o que é pior, os acontecimentos interessantes são tratados como coisas cotidianas, sem grande impacto no cenário ou no próprio personagem, o que é extremamente enervante.
Em resumo: Rothfuss cria um cenário interessante, mas deixa o leitor muito afastado dele, se concentrado em um personagem que, embora seja bastante carismático, é cercado por segredos e, na maioria do tempo, "não pode contar" coisas interessantes. Ou seja: o leitor é mantido no escuro durante toda a leitura, sobre praticamente todos os assuntos. Tenho certeza que pra alguns esse não é um problema, mas pra mim foi extremamente frustrante. Vou pro segundo livro esperando que Rothfuss explique uma série de coisas sobre Siglistica, Simpátia, Nomeação, demônios, fadas, propriedades do ferro e um sem número de outras coisinhas, mas sem grandes esperanças de que ele o faça. O autor parece um ótimo instigador mas aparentemente não é muito bom explicador, infelizmente.
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