Dando sequencia à Trilogia Sprawl, terminei ontem de ler Count Zero - Mona Lisa Overdrive, aqui vou eu!
O segundo livro da trilogia, sequencia direta de Neuromancer, Count Zero tem uma narrativa bastante diferente de seu predecessor - e certamente bem menos impacto, mas obviamente poucas coisas podem ter tanto impacto quanto um livro que dá início a um novo gênero literário. Enquanto Neuromancer seguia as desventuras de Case, um ex-cowboy de console em suas desventuras no universo da Sprawl, Count Zero tem uma dinâmica consideravelmente diferente, com três protagonistas completamente diferentes entre si, com objetivos e percursos diversos e que, aparentemente, não têm nada em comum - e cujo envolvimento, é claro, vai se tornando aparente ao longo do livro.
Eu, particularmente, não costumo gostar de ler livros assim. Gente demais, muitos personagens secundários pra tu manter a atenção e mudanças de pontos-de-vista que precisam de readaptação constante à leitura. MAS! Mas, mas, mas, Gibson sendo o grande escritor que é, consegue fazer essa mecânica funcionar lindamente, mantendo a leitura deslizando suave e fluida o tempo todo. Os personagens secundários não são tão numerosos quanto se poderia esperar, e como no caso de Neuromancer, extremamente bem construídos.
Gibson também se mantém explorando o cenário aqui como no livro anterior, mostrando novas facetas do seu pequeno mundo, enquanto envolve o personagem em uma daquelas clássicas histórias cyberpunks onde há traições e falsas alianças em cada esquina, numa trama cheia de anjos, espíritos e corporações manipuladora.
"Opa, como assim, anjos e espíritos numa 'clássica história cyberpunk'?" Ora, amiguinhos, eu não vou entregar essa cabeça numa bandeja dourada! Leia o livro e vai perceber que faz total sentido!
Em tempo: O livro, é claro, é cheio de referências e expressões, a maioria explicadas no glossário que figura no final da obra. Uma delas, no entanto, me deixou confuso logo de cara, e acho útil para futuros leitores da obra - que por ventura tenham a mesma quantidade de cultura inútil quanto eu... - falar no assunto. Eu conhecia por hotdogger um cara que faz algo espetacular quando alguma coisa simples e eficiente seria suficiente. Um exibicionista. Mas no universo da Sprawl, hotdogger é simplesmente um aspirante a cowboy de console. Nem mais, nem menos. Apesar de eu achar que isso fica bem óbvio no decorrer do livro, pra quem nunca tinha ouvido a expressão, achei que cabia aqui a explicação - facilita bastante as coisas!
Agora, se tu não sabe o que cowboy de console significa, nem devia estar lendo essa resenha! Vá ler Neuromancer logo, seu wilson!
quarta-feira, 8 de julho de 2015
domingo, 21 de junho de 2015
Neuromancer
“O céu sobre o porto tinha a cor de uma televisão sintonizada num canal fora do ar”
Com essa frase, começa um dos livros mais fantásticos que eu já li. Neuromancer, além de ser uma história absolutamente perfeita de ficção científica, também é considerada a primeira obra que daria início ao movimento cyberpunk.
Nenhum elogio à Neuromancer é demais. Com personagens bem construídos, uma trama absolutamente atraente e cenários finamente bem desenvolvido, ela é uma versão futurista do Senhor dos Anéis - um livro capaz de levar o leitor à uma terra distante, em uma busca fantástica.
Precisei de quatro tentativas pra conseguir ler a obra de Gibson - nas primeiras três, com livros emprestados, acabei não tendo tempo de ler a obra antes de devolver. Alias, foi Neuromancer que me fez desenvolver a lógica de não ler livros emprestados, justamente por isso. Com exceção de alguns amigos muito próximos - notoriamente minha mãe, minha avó, e minha noiva - eu raramente pego livros emprestados pra ler; prefiro comprar e desfrutar da leitura no ritmo que me aprouver. Alias, deixem-me colocar aqui uma pequena nota de agradecimento: ganhei minha cópia do Neuromancer - num box com a Trilogia de Sprawl, alias! Cont Zero já está sendo deglutido! - como o melhor presente de dias dos namorados que consigo lembrar!
Diferente do que costumo fazer, apenas falando da obra, escolhi alguns excertos do livro pra dar um gostinho da história. Afinal, em se tratando de Neuromancer, não tem muito o que se possa dizer. O ideal é ler, mesmo!
Uma nota final antes de passar aos trechos do livro: A tradução feita pela Aleph ficou primorosa! Eles escolheram muito bem que termos traduzir e que termos não traduzir do original, e mantiveram até mesmo algumas frases inteiras em inglês ("-The love os Jah, mom.") que dão um sabor todo especial na leitura! É a primeira vez que li uma tradução realmente digna de nota! Trabalho perfeito!
Enfim! Vamos, então, à alguns trechos da obra:
*** TRECHOS DO LIVRO À SEGUIR! ***
Com essa frase, começa um dos livros mais fantásticos que eu já li. Neuromancer, além de ser uma história absolutamente perfeita de ficção científica, também é considerada a primeira obra que daria início ao movimento cyberpunk.
Nenhum elogio à Neuromancer é demais. Com personagens bem construídos, uma trama absolutamente atraente e cenários finamente bem desenvolvido, ela é uma versão futurista do Senhor dos Anéis - um livro capaz de levar o leitor à uma terra distante, em uma busca fantástica.
Precisei de quatro tentativas pra conseguir ler a obra de Gibson - nas primeiras três, com livros emprestados, acabei não tendo tempo de ler a obra antes de devolver. Alias, foi Neuromancer que me fez desenvolver a lógica de não ler livros emprestados, justamente por isso. Com exceção de alguns amigos muito próximos - notoriamente minha mãe, minha avó, e minha noiva - eu raramente pego livros emprestados pra ler; prefiro comprar e desfrutar da leitura no ritmo que me aprouver. Alias, deixem-me colocar aqui uma pequena nota de agradecimento: ganhei minha cópia do Neuromancer - num box com a Trilogia de Sprawl, alias! Cont Zero já está sendo deglutido! - como o melhor presente de dias dos namorados que consigo lembrar!
Diferente do que costumo fazer, apenas falando da obra, escolhi alguns excertos do livro pra dar um gostinho da história. Afinal, em se tratando de Neuromancer, não tem muito o que se possa dizer. O ideal é ler, mesmo!
Uma nota final antes de passar aos trechos do livro: A tradução feita pela Aleph ficou primorosa! Eles escolheram muito bem que termos traduzir e que termos não traduzir do original, e mantiveram até mesmo algumas frases inteiras em inglês ("-The love os Jah, mom.") que dão um sabor todo especial na leitura! É a primeira vez que li uma tradução realmente digna de nota! Trabalho perfeito!
Enfim! Vamos, então, à alguns trechos da obra:
*** TRECHOS DO LIVRO À SEGUIR! ***
"Ele havia cometido o erro clássico, aquele que jurou jamais cometer. Roubou de seus empregadores. Guardou uma coisa para si e tentou repassá-la por um receptor em Amsterdã. Até hoje ele não sabia ao certo como havia sido descoberto, não que isso importasse agora. Na época, achou que fosse morrer, mas eles apenas sorriram. Claro que estava tudo bem, disseram a ele, estava tudo bem ele ficar com a grana. Ele ia precisar. Porque – ainda sorrindo – iam se certificar de que o cowboy nunca mais trabalhasse.
Danificaram seu sistema nervoso com uma microtoxina russa dos tempos de guerra.
Amarrado a uma cama de um hotel em Memphis seu talento queimando mícron a mícron, alucinou por trinta horas.
Para Case, que vivia até então na exultação sem corpo do ciberespaço, foi a Queda. Nos bares que frequentara no seu tempo de cowboy fodão, a postura da elite envolvia um certo desprezo suave pela carne. O corpo era carne. Case caiu na prisão da própria carne."
"Ele fechou os olhos.
Encontrou a face em relevo do botão de Power.
E, na escuridão iluminada de sangue atrás de seus olhos, fosfenos prateados queimando na borda do espaço, imagens hipnagógicas se alternando rapidamente como filmes compilados a partir de frames aleatórios. Símbolos, figuras, rostos, uma mandala fragmentada de informação visual."
"Zion havia sido fundada por cinco operários que se recusaram a voltar, que deram suas costas ao poço gravitacional e começaram a construir. Sofreram perda de cálcio e encolhimento cardíaco antes que a gravidade rotacional fosse instalada no toroide central da colônia. Visto da bolha do táxi, o casco improvisado de Zion lembrou Case do patchwork de barracos de Istambul, as placas irregulares e descoloridas rabiscadas a laser com símbolos rastafári e as iniciais dos soldadores."
"- Neuromancer — disse o rapaz; os seus olhos cinzentos e rasgados eram fendas abertas no sol nascente. — A vereda para a terra dos mortos [...] Neuro, de nervos, os caminhos de prata. Romancer, romancista. Necromante. Eu invoco os mortos. "
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Willian Gibson
terça-feira, 16 de junho de 2015
Maré Alta Estelar
Esse pequeno livro em dois volumes - ainda estou tentando entender porque um livro de 400 páginas em formato de bolso foi dividido em 2 volumes - sem tradução brasileira me deu um cansaço considerável antes de eu conseguir finalmente terminar de ler. Na verdade, como eu já havia comentado, ele me deu um cansaço tão grande já nas primeiras páginas que eu tive que deixar a leitura de lado por algum tempo antes de enfrentar a pequena tarefa de ler o rapazote.
"Mas Domênico, um livrinho de 400 páginas, ainda por cima dividido em dois volumes! Porque essa enorme dificuldade em ler?" pergunta alguém. Bom, o caso é que, além do livro ter um glossário noinício do primeiro volume explicando algumas das idéias, raças e nomenclaturas específicas do cenário (algumas das quais são bastante confundíveis, como "fen" e "fem", o primeiro termo sendo um vernáculo para neogolfinho, uma raça do cenário, e o segundo significando mulher humana, o que, no começo do livro, pelo menos, me causou muitos problemas pra entender se uma determinada fem era uma humana ou uma "golfinha", por exemplo), ainda por cima o livro. como eu disse, não tem uma tradução brasileira, sendo uma tradução para português de Portugal. Claro, a leitura de português de Portugal não causa muitos problemas, geralmente, mas num livro em que além de se adaptar ao cenário o leitor precisa se adaptar à linguagem as coisas complicam! Eu ainda não sei o que significa chamar alguém de "cria de um choco com tinta", por exemplo, e muitas vezes precisei ler algumas frases mais de uma vez pra entender o sentido exato de uma determinada frase ou palavra, e fiquei com algumas dúvidas dentro e fora do livro, como Krat:
"Bibliotecário! - chamou. - Não compreendo algumas das palavras do ser humano. Descobre o que aquela expressão <<Nyaahh nyaahh>> quer dizer na sua animalesca língua de arrivistas!"
(mas creio que nesse caso a culpa não é inteiramente dos portugueses)
Enfim!
Depois desse imenso prólogo pra explicar algumas coisas que me levaram a demorar mais de um mês pra ler meras 400 paginazinhas, vamos ao livro em si!
Maré alta Estelar se passa no universo Uplift, criado por David Brin no primeiro dos seis livros dessa coleção, Sundive - um livro, alias, sem tradução pra português; descobri também que a maioria dos leitores da série Uplift consideram o livro dispensável, já que ele se passa uma centena de anos antes dos outros cinco volumes e não tem nenhum ligação direta com os outros cinco, que, por sua vez, formam uma pequena saga cujas tramas estão bastante emaranhadas uns nos outros.
Nesse pequeno universo, os Humanos entraram em contato com as outras raças galácticas que formam um grupo coeso apesar de internamente conflituoso, unidos pelo conhecimento contido na Biblioteca Galáctica, um instrumento ancestral criado pelas primeiras raças de Patrocinadores e que contém todo o conhecimento acumulado por todas as raças tanto Patrocinadoras quanto Clientes conhecidas.
Os Humanos, nesse cenário,s são vistos como bárbaros por serem seu próprios Patrocinadores, ou terem Patrocinadores desconhecidos - não se sabe exatamente a verdade - o que significa que eles não foram evoluídos de seres pré-sencientes para uma raça completamente consciente por nenhuma outra raça, mas sim por meio de evolução natural, aparentemente. Todas as outras raças galácticas possuem Patrocinadores (que são as raças responsáveis por trazer uma espécie do estágio de imaturidade até o estado de auto-consciência completa a partir de desenvolvimento genético), embora algumas das mais antigas tenham Patrocinadores já extintos. Os Humanos, por sua vez, possuem duas raças clientes (que são aquelas raças que devem sua inteligência à melhoramentos genéticos desenvolvidos pela sua raça Patrocinadora), os Fen, ou Neogolfinhos e os Neochimpanzés. Os primeiros são excelentes pilotos espaciais, devido ao seu instinto natural de manobrar em três dimensões (já que, afinal, eles basicamente fazem isso quando estão nadando) apesar de estarem em um estado bastante inicial de sua evolução genéticamente melhorada, enquanto os chimpz são extremamente competentes naquela área que escolhem se desenvolver, mas são carentes de criatividade e em geral obsessivos com as funções que desempenham.
Dentro desse cenário, a nossa história começa com a Streaker - que deve seu nome a um tipo específico de windsurf, pelo que eu consegui entender, apesar do termo hoje em dia ter uma conotação completamente diferente, o que me fez rir sozinho muitas vezes durante a leitura... - a primeira nave espacial comandada por um neogolfinho, com uma tripulação quase totalmente composta por fen, exceto por sete humanos e um neochimpanzé, que cai em um planeta desabitado enquanto é perseguida por outras raças galácticas depois de ter, acidentalmente, encontrado uma imenso grupo de naves ancestrais, supostamente pertencentes aos Progenitores - a primeira raça de Patrocinadores. O livro acompanha as aventuras da tripulação da Streaker durante seu cerco enquanto tentam consertar a nave avariada e sobreviver em um mundo hostil.
A estrutura narrativa do livro é rotativa, alternando entre os pontos de vistas de um determinado narrador a cada capítulo - o mesmo recurso utilizado por Martin em seus famosos livros da Guerra dos tronos. Brin, no entanto, não desenvolve capítulos muito longos - alguns deles tem menos de uma pagina ou até mesmo umas poucas frases em alguns casos - o que mantém o leitor sempre à espera do desfecho de um acontecimento no fim de cada capítulo, o que cria um ritmo de leitura - idealmente - bastante acelerado, já que o leitor quer saber o que vai acontecer em seguida no final de praticamente todos os capítulos!
Brin também criou um tipo específico de linguagem para os neogolfinhos, o Trinário, que usa um padrão semelhante ao Haiku japonês, com a justaposição de duas idéias em sentenças de três frases compostas por 5, 7 e 5 sílabas, respectivamente (infelizmente parte dessa estrutura se perde na tradução, obviamente, já que o número de sílabas é impossível de se manter o mesmo) com um resultado extremamente interessante.
Como é possível notar por essa rezenha, o cenário de Uplift é bastante complexo, e é preciso algum tempo pra entender o funcionamento das coisas. Mas depois de se passar pelos primeiros capítulos, a leitura se torna extremamente prazerosa e a trama instigante - não é a toa que ele levou os prêmios Locus, Nebula e Hugo de 83, quando foi lançado.
Maré Alta Estelar não tem tradução brasileira, mas praqueles interessados em uma leitura interessante, num cenário extremamente criativo e sem problemas com ler "lusitano", é certamente uma leitura fortemente recomendada!
Em tempo: Durante minha pesquisa com relação ao livro, descobri que existe uma adaptação do cenário pra GURPS! Fiquei extremamente curioso pra ler essa adaptação. Se alguém aí tiver esse livro, eu agradeceria um empréstimo - já que deve ser bastante difícil de achar o volume pra comprar hoje em dia.
"Mas Domênico, um livrinho de 400 páginas, ainda por cima dividido em dois volumes! Porque essa enorme dificuldade em ler?" pergunta alguém. Bom, o caso é que, além do livro ter um glossário noinício do primeiro volume explicando algumas das idéias, raças e nomenclaturas específicas do cenário (algumas das quais são bastante confundíveis, como "fen" e "fem", o primeiro termo sendo um vernáculo para neogolfinho, uma raça do cenário, e o segundo significando mulher humana, o que, no começo do livro, pelo menos, me causou muitos problemas pra entender se uma determinada fem era uma humana ou uma "golfinha", por exemplo), ainda por cima o livro. como eu disse, não tem uma tradução brasileira, sendo uma tradução para português de Portugal. Claro, a leitura de português de Portugal não causa muitos problemas, geralmente, mas num livro em que além de se adaptar ao cenário o leitor precisa se adaptar à linguagem as coisas complicam! Eu ainda não sei o que significa chamar alguém de "cria de um choco com tinta", por exemplo, e muitas vezes precisei ler algumas frases mais de uma vez pra entender o sentido exato de uma determinada frase ou palavra, e fiquei com algumas dúvidas dentro e fora do livro, como Krat:
"Bibliotecário! - chamou. - Não compreendo algumas das palavras do ser humano. Descobre o que aquela expressão <<Nyaahh nyaahh>> quer dizer na sua animalesca língua de arrivistas!"
(mas creio que nesse caso a culpa não é inteiramente dos portugueses)
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| Símbolo da Biblioteca Galáctica |
Enfim!
Depois desse imenso prólogo pra explicar algumas coisas que me levaram a demorar mais de um mês pra ler meras 400 paginazinhas, vamos ao livro em si!
Maré alta Estelar se passa no universo Uplift, criado por David Brin no primeiro dos seis livros dessa coleção, Sundive - um livro, alias, sem tradução pra português; descobri também que a maioria dos leitores da série Uplift consideram o livro dispensável, já que ele se passa uma centena de anos antes dos outros cinco volumes e não tem nenhum ligação direta com os outros cinco, que, por sua vez, formam uma pequena saga cujas tramas estão bastante emaranhadas uns nos outros.
Nesse pequeno universo, os Humanos entraram em contato com as outras raças galácticas que formam um grupo coeso apesar de internamente conflituoso, unidos pelo conhecimento contido na Biblioteca Galáctica, um instrumento ancestral criado pelas primeiras raças de Patrocinadores e que contém todo o conhecimento acumulado por todas as raças tanto Patrocinadoras quanto Clientes conhecidas.
Os Humanos, nesse cenário,s são vistos como bárbaros por serem seu próprios Patrocinadores, ou terem Patrocinadores desconhecidos - não se sabe exatamente a verdade - o que significa que eles não foram evoluídos de seres pré-sencientes para uma raça completamente consciente por nenhuma outra raça, mas sim por meio de evolução natural, aparentemente. Todas as outras raças galácticas possuem Patrocinadores (que são as raças responsáveis por trazer uma espécie do estágio de imaturidade até o estado de auto-consciência completa a partir de desenvolvimento genético), embora algumas das mais antigas tenham Patrocinadores já extintos. Os Humanos, por sua vez, possuem duas raças clientes (que são aquelas raças que devem sua inteligência à melhoramentos genéticos desenvolvidos pela sua raça Patrocinadora), os Fen, ou Neogolfinhos e os Neochimpanzés. Os primeiros são excelentes pilotos espaciais, devido ao seu instinto natural de manobrar em três dimensões (já que, afinal, eles basicamente fazem isso quando estão nadando) apesar de estarem em um estado bastante inicial de sua evolução genéticamente melhorada, enquanto os chimpz são extremamente competentes naquela área que escolhem se desenvolver, mas são carentes de criatividade e em geral obsessivos com as funções que desempenham.
Dentro desse cenário, a nossa história começa com a Streaker - que deve seu nome a um tipo específico de windsurf, pelo que eu consegui entender, apesar do termo hoje em dia ter uma conotação completamente diferente, o que me fez rir sozinho muitas vezes durante a leitura... - a primeira nave espacial comandada por um neogolfinho, com uma tripulação quase totalmente composta por fen, exceto por sete humanos e um neochimpanzé, que cai em um planeta desabitado enquanto é perseguida por outras raças galácticas depois de ter, acidentalmente, encontrado uma imenso grupo de naves ancestrais, supostamente pertencentes aos Progenitores - a primeira raça de Patrocinadores. O livro acompanha as aventuras da tripulação da Streaker durante seu cerco enquanto tentam consertar a nave avariada e sobreviver em um mundo hostil.
A estrutura narrativa do livro é rotativa, alternando entre os pontos de vistas de um determinado narrador a cada capítulo - o mesmo recurso utilizado por Martin em seus famosos livros da Guerra dos tronos. Brin, no entanto, não desenvolve capítulos muito longos - alguns deles tem menos de uma pagina ou até mesmo umas poucas frases em alguns casos - o que mantém o leitor sempre à espera do desfecho de um acontecimento no fim de cada capítulo, o que cria um ritmo de leitura - idealmente - bastante acelerado, já que o leitor quer saber o que vai acontecer em seguida no final de praticamente todos os capítulos!
Brin também criou um tipo específico de linguagem para os neogolfinhos, o Trinário, que usa um padrão semelhante ao Haiku japonês, com a justaposição de duas idéias em sentenças de três frases compostas por 5, 7 e 5 sílabas, respectivamente (infelizmente parte dessa estrutura se perde na tradução, obviamente, já que o número de sílabas é impossível de se manter o mesmo) com um resultado extremamente interessante.
Como é possível notar por essa rezenha, o cenário de Uplift é bastante complexo, e é preciso algum tempo pra entender o funcionamento das coisas. Mas depois de se passar pelos primeiros capítulos, a leitura se torna extremamente prazerosa e a trama instigante - não é a toa que ele levou os prêmios Locus, Nebula e Hugo de 83, quando foi lançado.
Maré Alta Estelar não tem tradução brasileira, mas praqueles interessados em uma leitura interessante, num cenário extremamente criativo e sem problemas com ler "lusitano", é certamente uma leitura fortemente recomendada!
Em tempo: Durante minha pesquisa com relação ao livro, descobri que existe uma adaptação do cenário pra GURPS! Fiquei extremamente curioso pra ler essa adaptação. Se alguém aí tiver esse livro, eu agradeceria um empréstimo - já que deve ser bastante difícil de achar o volume pra comprar hoje em dia.
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quarta-feira, 27 de maio de 2015
Problemas de Linguagem
Sim, o blog tem andado quieto ultimamente. Abril não teve nenhuma postagem, e maio vem sendo um mês magro - com apenas um livro "terminado" e comentado.
Ficição científica é uma das minhas literaturas favoritas, e eu já lí uma boa quantidade de livros de RPG, HQs e mesmo literatura em inglês pra saber que a língua definitivamente não seria uma barreira.
Achei, por bem, escrever alguma coisa a respeito. Digamos que isso é mais um desabafo do que um tipo de justificativa, mais pra mim do que pra qualquer outro, como eu me prometi que esse blog sempre seria. De fato, considerando que não há um novo comentário por aqui fazem cinco meses, acho que isso não está muito longe da verdade.
Abril foi um mês complicado, e maio seguiu basicamente a mesma trilha. Muito trabalho, alguns problemas, algumas novas descobertas e muita pesquisa. Claro, isso nunca me manteve longe da literatura, e, na verdade, esse não é o caso agora. O que aconteceu foi, como o título sugere, que eu acabei tendo uma série de problemas com linguagens.
Bom, do começo.
Depois de ler Xógum durante praticamente todo o mês de Março, eu estava procurando por alguma literatura mais leve. Xógum é uma monstruosidade de mais de mil páginas, denso, politicamente complexo e culturalmente absorvente, cheio de referências e pesquisas laterais que surgiam durante a leitura. Quando terminei de ler os dois volumes, tudo o que eu queria era algo que fosse literariamente de fácil digestão. Assim, fu em busca de livros de contos. E aí começou minha pequena - e extremamente frustrante - epopéia literária de abril.
No começo do dito mês, tinha me caído em mãos um livro de contos do senhor Edgar Alan Poe. Depois de terminado Xógum, imaginei que seria uma boa idéia tentar um clássico que eu havia pouco experimentado. Até então, só tinha lido um livro de contos dele, em italiano, uns bons 15 anos atrás, pelo menos. Lembrava vagamente que havia gostado, e alguns contos tinham nomes que realmente chamaram minha atenção por já ter visto referência à eles em outras fontes - principalmente RPGs, devo admitir. Resolvi ler.
E se eu queria um pouco de quietude cerebral, fiz a pior escolha possível.
O tradutor tratou de deixar os contos com a linguagem da época em que o livro foi escrito - em meados do século XIV. Depois de ler os tr~es primeiros contos, com um dicionário acompanhando o livreo na miunha cabeceira, eu simplesmente não consegui ir adiante. A forma de narrativa, o ritmo, os termos empregados.... tudo era extremamente cansativo. Acabei deixando o livro pra mais tarde. precisava de algo mais simples. Então me decidi por Sleeping Planet, um livro de bolso de ficção científica que estava na minha pilha de leitura faziam alguns anos.
Ficição científica é uma das minhas literaturas favoritas, e eu já lí uma boa quantidade de livros de RPG, HQs e mesmo literatura em inglês pra saber que a língua definitivamente não seria uma barreira.
Ledo engano.
O autor usa uma quantidade imensa de jargões da década de 60 - quando o livro foi escrito - que obviamente não fazem parte do meu vocabulário normal, além de usar uma narrativa focada em diversos personagens isolados uns dos outros, mudando o foco pra um ou outro personagem sem uma lógica aparente e sem nenhum tipo de aviso. Cada parágrafo pode estar falando de um personagem completamente diferente a qualquer momento, e não é totalmente óbvio - ao menos pra mim - quando essas mudanças ocorria, o que me fez precisar reler várias passagens mais de uma vez. O exercício acabou sendo mais difícil do que eu imaginava, e o livro engrossou minha recentemente inaugurada pilha de "livros meio lidos".
Enquanto estava me batendo contra a leitura de Sleeping Planet, minha mãe me devolveu alguns livros que eu havia emprestado pra ela algum tempo atrás. entre alguns Bradburys, Andersons e Asimovs estava um livro em dois volumes chamado Maré alta estelar, que eu comprara por conta da capa - com golfinhos em armaduras reluzentes e humanos em roupas de mergulho futurísticas. Bem, um livro em bom português, ainda dentro de ficção científica, pequeno e escrito na década de 80 parecia a solução para os meus problemas! Dei início à leitura.
E então percebi que ele era um livro traduzido para o português, sim, mas português de Portugal. Joguei ele em cima da pilha de livros meio lidos depois de alguns dias lutando pra conseguir passar das primeiras páginas.
Então, repentinamente, me deparei com o livro destinado a tragédia intitulado Antalogia de Ficção Científica - sua triste história está contada na postagem diretamente anterior à esta.
Apesar de ser uma tradução do meio da década de 70 de contos majoritariamente da década anterior, esse livro era definitivamente mais simples de ler do que qualquer uma das alternativas anteriores.
Recobrado das experiências de "quase-leituras", agora estou nadando arduamente contra a complexa leitura de Maré Alta Estelar - que, apesar da língua lusitana, parece um bom livro no fim das contas. Mas a leitura tem sido bastante cansativa e eu tenho conseguido avançar apenas umas poucas braçadas a cada dia, antes de ficar muito cansado da interpretação que o livro exige - sem contar as frequentes consultas ao dicionário que ele exige. Ele certamente vai ser o próximo livro a figurar aqui no blog - provavelmente dividido em duas resenhas, já que o livro é dividido em dois volumes.
Depois, provavelmente os contos de Alan Poe e a aventura futurística de Sleeping Planet devem ser os próximos. Provavelmente.
"Mas, hey, Domênico, e essa imagem ilustrativa da postagem, que parece uma página inacabada de HQ?" pode perguntar-se alguém. Bem, no meio de uma série imensa de ilustrações pra uma revista digital da Coisinha Verde e de outras para um livro de culinária (não perguntem) que me deram cãibras nos dedos, eu resolvi voltar à um antigo roteiro de uma HQ só pra relaxar um pouco.
(pois é, eu relaxo do trabalho como desenhista... Desenhando)
Depois de desenhar essa primeira página e metade da segunda, eu desisti de voltar ao projeto. Tenho algumas outras HQs que ainda quero desenhar, e essa em particualr ia servir mais como uma espécie de treinamento pro trabalho de verdade. Só que, apesar de curta, me dei conta (depois que reli o roteiro todo) que era uma merda de história. Sim, com direito à um palavrão depreciativo. Então, desisti dela. Mas como eu não tinha nenhuma outra imagem pra ilustrar essa postagem - e como o resultado dessa página não está de todo ruim - achei que eu merecia um pouco de exposição, já que, afinal de contas, sou o dono desse maldito blog.
Enfim, acho que é isso.
Apesar de acreditar que esse foi o texto mais chato e sem propósito que já escrevi desde a virada do milênio, fica um abraço praqueles que chegaram até esse ponto da leitura! ^_^
Recobrado das experiências de "quase-leituras", agora estou nadando arduamente contra a complexa leitura de Maré Alta Estelar - que, apesar da língua lusitana, parece um bom livro no fim das contas. Mas a leitura tem sido bastante cansativa e eu tenho conseguido avançar apenas umas poucas braçadas a cada dia, antes de ficar muito cansado da interpretação que o livro exige - sem contar as frequentes consultas ao dicionário que ele exige. Ele certamente vai ser o próximo livro a figurar aqui no blog - provavelmente dividido em duas resenhas, já que o livro é dividido em dois volumes.
Depois, provavelmente os contos de Alan Poe e a aventura futurística de Sleeping Planet devem ser os próximos. Provavelmente.
"Mas, hey, Domênico, e essa imagem ilustrativa da postagem, que parece uma página inacabada de HQ?" pode perguntar-se alguém. Bem, no meio de uma série imensa de ilustrações pra uma revista digital da Coisinha Verde e de outras para um livro de culinária (não perguntem) que me deram cãibras nos dedos, eu resolvi voltar à um antigo roteiro de uma HQ só pra relaxar um pouco.
(pois é, eu relaxo do trabalho como desenhista... Desenhando)
Depois de desenhar essa primeira página e metade da segunda, eu desisti de voltar ao projeto. Tenho algumas outras HQs que ainda quero desenhar, e essa em particualr ia servir mais como uma espécie de treinamento pro trabalho de verdade. Só que, apesar de curta, me dei conta (depois que reli o roteiro todo) que era uma merda de história. Sim, com direito à um palavrão depreciativo. Então, desisti dela. Mas como eu não tinha nenhuma outra imagem pra ilustrar essa postagem - e como o resultado dessa página não está de todo ruim - achei que eu merecia um pouco de exposição, já que, afinal de contas, sou o dono desse maldito blog.
Enfim, acho que é isso.
Apesar de acreditar que esse foi o texto mais chato e sem propósito que já escrevi desde a virada do milênio, fica um abraço praqueles que chegaram até esse ponto da leitura! ^_^
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domingo, 10 de maio de 2015
Antologia de Ficção Científica
Abril foi um mês literalmente complexo, literalmente. Vou falar sobre o assunto em uma futura postagem. Por hora, vou fazer o que é costume por aqui: Resenhar o último livro que li - nesse caso, uma antologia de contos de ficção científica da década de 60/70.
Achei esse livro perdido por aqui, sem capa, enquanto mudava minha "biblioteca" de lugar. Não sei de onde saiu, mas estava precisando de alguma coisa simples pro meu apetite literário, e uma coletânea de contos de FC sempre é uma boa pedida.
Sem autores particularmente reconhecidos, incluindo um brasileiro - cujo nome me foge - este volume fadado à tragédia me trouxe algumas horas de leitura tranquila e divertida. Sem histórias particularmente geniais, essa antologia foi muito boa de ler justamente porque suas histórias, pouco pretensiosas (em sua maioria, exceto pelo supracitado autor brasileiro de nome perdido) me deram justamente aquil o que eu procurava: histórias simples e diretas. Algumas delas, apesar de esdrúxulas - como a patente de uma máquina de fazer ovos - se desenvolveram de forma inesperadamente interessante, enquanto outras - como a história da equipe de construção de linhas de energia confrontada pelos últimos "motoqueiros" da terra - partem de princípios mais originais. A maioria, no entanto, era bem lugar-comum para leitores de ficção científica - como o futuro das instituições presidiárias, métodos de ensino distópicos, extinção de raças graças à exploração de recursos naturais e dogmas culturais extremos que se mantém sendo levado à cabo apesar de ilógicos e daninhos. Mas estamos falando de uma antologia de ficção de obras de 1963 à 1973, o que significa que, para a época, alguns desses assuntos não tinham sido experimentados à exaustão ainda.
O supracitado conto do autor brasileiro cujo nome se perdeu, no entanto, é medonho. Além de usar um tipo de linguagem bizarra, com várias passagens em espaços brancos, para demonstrar a incapacidade do leitor em entender o que o personagem pestá falando - e sim, é uma história contada por um personagem, supostamente um gênio, sobre sua genialidade - o texto é recheado de passagens em caixa alta, descoladas do texto, sem nenhuma conexão aparente com a história em sí. De fato, são passagens de cunho apocalíptico, enquanto o tal cientista fala de suas descobertas no campo da beleza, seja lá o que significa isso. Recheado de pseudo-intelectualismo e palavras difíceis sem significado - supostamente para demonstrar a superioridade intelectual do cientista - o conto termina sem nenhum mérito, exceto o de entrar na minha lista de piores coisas que já li na vida - e eu já lí alguns panfletos de igreja particularmente horrorosos...
"Mas Domênico, porque tu não está citando o nome das obras nem dos autores? Não dá pra ir ali pegar o livro ao invés de ficar dizendo que não lembra ou que esqueceu os nomes dos contos e autores? E porque tu disse que esse livro estava fadado à tragédia lá no começo da postagem?" Bem, ávidos leitores, o fato é que o livro não existe mais.
Hoje, logo depois de eu ter terminado minha leitura da antologia, esqueci a porta da casa aberta depois de levar roupas pra lavar, logo cedo. O que aconteceu então é que minha cadela - na verdade, ela é da minha mãe, mas eu tenho tomado conta dela pelos últimos anos, infelizmente - infiltrou-se na casa, comeu a comida dos gatos, derrubou minha caixa de ferramentas de cima da mesa - o que causou um óbvio caos de plástico e metal por toda a minha sala - e terminou seu ato de terrorismo destruindo dois livros, um dos quais era justamente a antologia - o o outro era um livro que eu estava lendo e que, bem, não vou poder terminar...
Alias, tenho uma cadela pra doação. Sei que essa não é a melhor propaganda do mundo pra se fazer de um anial do qual a gente espera que alguém se interesse em levar embora, mas ela tem qualidades. Como o fato de ser castrada - o que implica que ela não vai mais espalhar seus genes por aí, graças à Cérbero!
Alias, acabei de notar que não conheço nenhuma divindade associada aos cães... Se alguém conhecer alguma, fico agradecido.
Do livro, só sobrou inteira a página que ilustra essa postagem. O resto eram peças rasgadas de papel ou uma massaroca de celulose e baba canina. Nojento.
Achei esse livro perdido por aqui, sem capa, enquanto mudava minha "biblioteca" de lugar. Não sei de onde saiu, mas estava precisando de alguma coisa simples pro meu apetite literário, e uma coletânea de contos de FC sempre é uma boa pedida.
Sem autores particularmente reconhecidos, incluindo um brasileiro - cujo nome me foge - este volume fadado à tragédia me trouxe algumas horas de leitura tranquila e divertida. Sem histórias particularmente geniais, essa antologia foi muito boa de ler justamente porque suas histórias, pouco pretensiosas (em sua maioria, exceto pelo supracitado autor brasileiro de nome perdido) me deram justamente aquil o que eu procurava: histórias simples e diretas. Algumas delas, apesar de esdrúxulas - como a patente de uma máquina de fazer ovos - se desenvolveram de forma inesperadamente interessante, enquanto outras - como a história da equipe de construção de linhas de energia confrontada pelos últimos "motoqueiros" da terra - partem de princípios mais originais. A maioria, no entanto, era bem lugar-comum para leitores de ficção científica - como o futuro das instituições presidiárias, métodos de ensino distópicos, extinção de raças graças à exploração de recursos naturais e dogmas culturais extremos que se mantém sendo levado à cabo apesar de ilógicos e daninhos. Mas estamos falando de uma antologia de ficção de obras de 1963 à 1973, o que significa que, para a época, alguns desses assuntos não tinham sido experimentados à exaustão ainda.
O supracitado conto do autor brasileiro cujo nome se perdeu, no entanto, é medonho. Além de usar um tipo de linguagem bizarra, com várias passagens em espaços brancos, para demonstrar a incapacidade do leitor em entender o que o personagem pestá falando - e sim, é uma história contada por um personagem, supostamente um gênio, sobre sua genialidade - o texto é recheado de passagens em caixa alta, descoladas do texto, sem nenhuma conexão aparente com a história em sí. De fato, são passagens de cunho apocalíptico, enquanto o tal cientista fala de suas descobertas no campo da beleza, seja lá o que significa isso. Recheado de pseudo-intelectualismo e palavras difíceis sem significado - supostamente para demonstrar a superioridade intelectual do cientista - o conto termina sem nenhum mérito, exceto o de entrar na minha lista de piores coisas que já li na vida - e eu já lí alguns panfletos de igreja particularmente horrorosos...
"Mas Domênico, porque tu não está citando o nome das obras nem dos autores? Não dá pra ir ali pegar o livro ao invés de ficar dizendo que não lembra ou que esqueceu os nomes dos contos e autores? E porque tu disse que esse livro estava fadado à tragédia lá no começo da postagem?" Bem, ávidos leitores, o fato é que o livro não existe mais.
Hoje, logo depois de eu ter terminado minha leitura da antologia, esqueci a porta da casa aberta depois de levar roupas pra lavar, logo cedo. O que aconteceu então é que minha cadela - na verdade, ela é da minha mãe, mas eu tenho tomado conta dela pelos últimos anos, infelizmente - infiltrou-se na casa, comeu a comida dos gatos, derrubou minha caixa de ferramentas de cima da mesa - o que causou um óbvio caos de plástico e metal por toda a minha sala - e terminou seu ato de terrorismo destruindo dois livros, um dos quais era justamente a antologia - o o outro era um livro que eu estava lendo e que, bem, não vou poder terminar...
Alias, tenho uma cadela pra doação. Sei que essa não é a melhor propaganda do mundo pra se fazer de um anial do qual a gente espera que alguém se interesse em levar embora, mas ela tem qualidades. Como o fato de ser castrada - o que implica que ela não vai mais espalhar seus genes por aí, graças à Cérbero!
Alias, acabei de notar que não conheço nenhuma divindade associada aos cães... Se alguém conhecer alguma, fico agradecido.
Do livro, só sobrou inteira a página que ilustra essa postagem. O resto eram peças rasgadas de papel ou uma massaroca de celulose e baba canina. Nojento.
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quarta-feira, 18 de março de 2015
Xógum - Tomo 2
Como eu disse na primeira "resenha" do livro, decidi falar do livro em duas partes distintas, uma especificamente sobre o autor e a construção da obra, e agora sobre a história do livro em si.
Então, vamos à história!
Xógum começa com o piloto britânico John Blackthorne (que foi baseado no navegador Willian Adams, o primeiro inglês a chegar ao Japão e também o primeiro ocidental a tornar-se samurai) aportando com seus poucos marinheiros a bordo do Erasmus, um navio Holandês, na baia de Izu. Imediatamente, Blackthorne e seus companheirs são aprisionados como piratas, acusados pelos padres jesuítas que comandam o comércio exterior do Japão (de fato, os jesuítas portugueses estiveram presentes no Japão desde 1542, e eles estavam em guerra com os britânicos).
Blackthorne é humilhado, e alguns de seus homens são mortos - de maneiras atrozes, alias - até que ele finalmente é apresentado ao Daimio Toranaga, que comanda a regiao onde seu navio aportou.
O livro discorre os acontecimentos do próximo ano, aproxiadamente, enquanto Blackthorne se vê envolvido com os acontecimentos políticos que que culminarão na batalha pela susseção do trono japonês.
Apesar do livro ter sido lanaçado em 1975, e ser considerado uma verdadeira enciclopédia para a cultura japonesa, infelizmente acredito que poucas pessoas tenham tido a oportunidade de ler a obra nos últimos anos - eu mesmo só descobri que esse livro existia no final do ano passado! - e não pretendo fazer revelações sobre a trama - todos os acontecimentos que citei acima não cobrem o primeiro quarto do primeiro tomo da obra - sem avisar aqueles que ainda não leram o livro mas pretendem faze-lo. assim, a seguir, haverá alguns parágrafos com revelações sobre a trama, principalmente fazendo algumas comparações sobre a vida de de Adams e Blackthorne e algumas reflexões sobre o shogunato, a política e a cultura do Japão Para aqueles que não quiserem ter revelações sobre a trama, e portanto não pretendem ler os próximos parágrafos, uma última nota: O livro é excelente, muitíssimo bem escrito e extremamente inteligente! É um livro que, creio, é capaz de agradar não apenas aqueles que têm algum apreço pela cultura japonesa mas também todos aqueles que gostam de um bom livro, com uma boa trama. Leitura fortemente recomendada!
Em tempo: No final da postagem tem alguns bônus - como um livro falando sobre o romance em comparação com a história "real" e links para os vídeos da minissérie no youtube.
*****ATENÇÃO! REVELAÇÕES SOBRE A TRAMA ADIANTE! *****
É claro que, assim como Willian Adams, Blackthorne torna-se samurai eventualmente, e uma peça importante no jogo pelo poder que se desvela no decorrer da trama. Apesar de Adams ter se tornado Samurai apenas depois de 1604, após construir pelo menos dois navios para o então shogum Tokugawa Ieyasu - que serviu de base para o daimio Toranaga - Blackthorne recebe o título antes de estar no japão por meio ano, e sequer conseguir falar japonês corretamente. De fato, Blackthorne recebe até mesmo o título de Hatamoto (assim como aconteceu com Adams depois dele se tornar intérprete pessoal de Tokugawa). Admito que, apesar de toda a construção do livro obviamente levar à esse acontecimento, e para manter a coesão dos acontecimentos que culminariam na batalha de Sekigahara de modo que Blackthorne já fosse samurai - o que permitiu a ele uma maior inclusão nas questões culturais do japão, que seriam impossíveis se ele fosse meramente um forasteiro sem títulos - os acontecimentos a esse respeito me pareceram muito rápidos.
Fora isso, admito que outra coisa que me incomodou um pouc foi a morte de Mariko. É claro, ela foi um "sacrifício necessário" para a trama, e eu não teria problema algum se não fosse um detalhe: Ninjas! Eu estava realmente feliz porque nenhuma vez eles haviam sido mencionados até então, feliz e contente com a trama política e sobre os contos de samurais que permeavam o livro, e então aparece um bando de nijas e a coisa toda vira um pandemônio! Claro, os capítulos em que a batalha entre samurais e ninjas se desenrola são eletrizantes, e é uma parte bastante emocionante do livro, mas... ninjas, cara! Sei lá, não gosto de ninjas. Pode ser uma parte minha que tem um certo preconceito com a mistificação deles, ou porque não parecia caber uma gangue ninja na trama, mas realmente me desagradou um pouco ver ninjas dinamitando tudo - literalmente.
E, é claro, eu esperava um emocionante duelo de samurais envolvendo o Blackthorne, coisa que também não aconteceu. Paciência. Não teria feito muito sentido, de qualquer forma. Assim como os ninjas não fizeram!
Como uma nota de história, há um falha considerável no livro, com relação a história do japão, no que diz respeito ao hábito de Toranaga gostar de interpretar no teatro kabuki. O problema aqui é que o Kabuki teve início em 1603, e antes do meio do século 17, ele só era interpretado por mulheres e depois por jovens rapazes, o que tornaria impossível que Toranaga fosse um interprete de um estilo de teatro que sequer existia antes dos acontecimentos do livro!
Além disso, antes da década de 1630, meninos não podiam se prostituir, o que também cria um pequeno problema cronológico, já que Kiku, a mais formosa cortesã de Izu oferece um "rapaz" para Blackthorne - que fica chocado, afinal ele era um bom protestante.
Ainda falanado de hábitos sexuais, foi, de fato durante o shogunato de Ieyasu que surgiram os primeiros bairros de prostituição. Clavell coloca um interessante diálogo entre Toranaga e Gyoko onde o daimio recebe a interessante idéia de um bairro exclusivo para as cortesãs - assim como a idéia de criar uma classe especial de gueixas, que ao invés de oferecerem favores sexuais seriam treinadas em outras artes para agradar seus clientes.
Éu também andei lendo alguns artigos sobre o livro, e descobri que o uso de japonês no livro é bastante errado, e por vezes cria situações contraditórias ou simplesmente impossíveis de entender. Apesar de ter passado três anos como prisioneiro no Japão, não é de se esperar que Clavell tenha se tornado fluente na língua do país, é claro, e a maioria dos usos corretos de japonês no livro é considerado por especialistas como "japonês de sala de aula".
Finalmente, uma coisa sobre a qual eu já tinha pesquisadodiz respeito ao grogue que os marujos do Erasmus adoram beber. O problema é que esse termo não existia antes de mil setessentos e poucos. Antes disso, os marujos recebiam, na verdade, rum como parte de seus víveres para as viages. Grogue - uma mistura de rum, cerveja fraca ou água e suco de limão ou lima - foi desenvolvido para combater o escorbuto e para prevenir os marujos de ficarem completamente bêbados. Há uma certa dúvida sobre a data exata de sua criação, mas não foi antes do meio do século XVIII.
Mas, é importante observar que Xógum não foi criado para ser uma aula de japonês para iniciantes, nem mesmo um livro de história sobre o japão, mas sim uma versão romantizada de fatos históricos, e Clavell teve a polidez de inclusive mudar os nomes de todos os personagens. Além disso, apesar de muita pesquisa, estamos falando do Japão de 1600, e Clavell não era um historiador e não tinha todo o conhecimento disponível hoje para realizar suas pesquisas. Considerando isso tudo, Xógum é um excelente romance,historicamente acurado na sua quase totalidade, com alguns anacronismos aqui e ali que, de forma alguma atrapalham a leitura - principalmente daqueles que não entendem nada da língua japonesa e cujo conhecimento em detalhes ridiculamente específicos não é extremamente acurado.
Em tempo: A maioria desses "problemas" eu descobri só depois de terminar o livro e ficar extremamente interessado em algumas de suas passagens.
***** FIM DAS REVELAÇÕES SOBRE A TRAMA ******
Como notas de rodapé, deixo aqui um excelente livro intitulado Learning from Shǀgun - Japanese History and Western Fantasy, um excelente livro falando da história não só do Japão mas também da Inlgaterra, as disparidades entre história e o romance de clavell e um monte de outras coisas muito interessantes sobre o livro. Vale muito a pena ler!
Finalmente, se alguém estiver interessado em assistir a versão pra TV da minissérie baseada no livro, produzida em 1980 e dirigida pelo próprio Clavell, estrelando Richard Chamberlain e Toshiro Mifune, ela está disponível no youtube. Apesar de ter achado versões completas da série, elas são de péssima qualidade ou têm legendas em francês ou alguma outra língua estranah. Mas tem uma ótima versão - sem legendas, então é bom pra aprender tanto japonês quanto inglês! - em quatro partes, como ela foi originalmente produzida pra passar na TV.
E pra finalizar, apesar de eu já ter dito isso lá em cima,, reitero: leitura fortemente recomendada!
Então, vamos à história!
Xógum começa com o piloto britânico John Blackthorne (que foi baseado no navegador Willian Adams, o primeiro inglês a chegar ao Japão e também o primeiro ocidental a tornar-se samurai) aportando com seus poucos marinheiros a bordo do Erasmus, um navio Holandês, na baia de Izu. Imediatamente, Blackthorne e seus companheirs são aprisionados como piratas, acusados pelos padres jesuítas que comandam o comércio exterior do Japão (de fato, os jesuítas portugueses estiveram presentes no Japão desde 1542, e eles estavam em guerra com os britânicos).
Blackthorne é humilhado, e alguns de seus homens são mortos - de maneiras atrozes, alias - até que ele finalmente é apresentado ao Daimio Toranaga, que comanda a regiao onde seu navio aportou.
O livro discorre os acontecimentos do próximo ano, aproxiadamente, enquanto Blackthorne se vê envolvido com os acontecimentos políticos que que culminarão na batalha pela susseção do trono japonês.
Apesar do livro ter sido lanaçado em 1975, e ser considerado uma verdadeira enciclopédia para a cultura japonesa, infelizmente acredito que poucas pessoas tenham tido a oportunidade de ler a obra nos últimos anos - eu mesmo só descobri que esse livro existia no final do ano passado! - e não pretendo fazer revelações sobre a trama - todos os acontecimentos que citei acima não cobrem o primeiro quarto do primeiro tomo da obra - sem avisar aqueles que ainda não leram o livro mas pretendem faze-lo. assim, a seguir, haverá alguns parágrafos com revelações sobre a trama, principalmente fazendo algumas comparações sobre a vida de de Adams e Blackthorne e algumas reflexões sobre o shogunato, a política e a cultura do Japão Para aqueles que não quiserem ter revelações sobre a trama, e portanto não pretendem ler os próximos parágrafos, uma última nota: O livro é excelente, muitíssimo bem escrito e extremamente inteligente! É um livro que, creio, é capaz de agradar não apenas aqueles que têm algum apreço pela cultura japonesa mas também todos aqueles que gostam de um bom livro, com uma boa trama. Leitura fortemente recomendada!
Em tempo: No final da postagem tem alguns bônus - como um livro falando sobre o romance em comparação com a história "real" e links para os vídeos da minissérie no youtube.
*****ATENÇÃO! REVELAÇÕES SOBRE A TRAMA ADIANTE! *****
É claro que, assim como Willian Adams, Blackthorne torna-se samurai eventualmente, e uma peça importante no jogo pelo poder que se desvela no decorrer da trama. Apesar de Adams ter se tornado Samurai apenas depois de 1604, após construir pelo menos dois navios para o então shogum Tokugawa Ieyasu - que serviu de base para o daimio Toranaga - Blackthorne recebe o título antes de estar no japão por meio ano, e sequer conseguir falar japonês corretamente. De fato, Blackthorne recebe até mesmo o título de Hatamoto (assim como aconteceu com Adams depois dele se tornar intérprete pessoal de Tokugawa). Admito que, apesar de toda a construção do livro obviamente levar à esse acontecimento, e para manter a coesão dos acontecimentos que culminariam na batalha de Sekigahara de modo que Blackthorne já fosse samurai - o que permitiu a ele uma maior inclusão nas questões culturais do japão, que seriam impossíveis se ele fosse meramente um forasteiro sem títulos - os acontecimentos a esse respeito me pareceram muito rápidos.
Fora isso, admito que outra coisa que me incomodou um pouc foi a morte de Mariko. É claro, ela foi um "sacrifício necessário" para a trama, e eu não teria problema algum se não fosse um detalhe: Ninjas! Eu estava realmente feliz porque nenhuma vez eles haviam sido mencionados até então, feliz e contente com a trama política e sobre os contos de samurais que permeavam o livro, e então aparece um bando de nijas e a coisa toda vira um pandemônio! Claro, os capítulos em que a batalha entre samurais e ninjas se desenrola são eletrizantes, e é uma parte bastante emocionante do livro, mas... ninjas, cara! Sei lá, não gosto de ninjas. Pode ser uma parte minha que tem um certo preconceito com a mistificação deles, ou porque não parecia caber uma gangue ninja na trama, mas realmente me desagradou um pouco ver ninjas dinamitando tudo - literalmente.
E, é claro, eu esperava um emocionante duelo de samurais envolvendo o Blackthorne, coisa que também não aconteceu. Paciência. Não teria feito muito sentido, de qualquer forma. Assim como os ninjas não fizeram!
Como uma nota de história, há um falha considerável no livro, com relação a história do japão, no que diz respeito ao hábito de Toranaga gostar de interpretar no teatro kabuki. O problema aqui é que o Kabuki teve início em 1603, e antes do meio do século 17, ele só era interpretado por mulheres e depois por jovens rapazes, o que tornaria impossível que Toranaga fosse um interprete de um estilo de teatro que sequer existia antes dos acontecimentos do livro!
Além disso, antes da década de 1630, meninos não podiam se prostituir, o que também cria um pequeno problema cronológico, já que Kiku, a mais formosa cortesã de Izu oferece um "rapaz" para Blackthorne - que fica chocado, afinal ele era um bom protestante.
Ainda falanado de hábitos sexuais, foi, de fato durante o shogunato de Ieyasu que surgiram os primeiros bairros de prostituição. Clavell coloca um interessante diálogo entre Toranaga e Gyoko onde o daimio recebe a interessante idéia de um bairro exclusivo para as cortesãs - assim como a idéia de criar uma classe especial de gueixas, que ao invés de oferecerem favores sexuais seriam treinadas em outras artes para agradar seus clientes.
Éu também andei lendo alguns artigos sobre o livro, e descobri que o uso de japonês no livro é bastante errado, e por vezes cria situações contraditórias ou simplesmente impossíveis de entender. Apesar de ter passado três anos como prisioneiro no Japão, não é de se esperar que Clavell tenha se tornado fluente na língua do país, é claro, e a maioria dos usos corretos de japonês no livro é considerado por especialistas como "japonês de sala de aula".
Finalmente, uma coisa sobre a qual eu já tinha pesquisadodiz respeito ao grogue que os marujos do Erasmus adoram beber. O problema é que esse termo não existia antes de mil setessentos e poucos. Antes disso, os marujos recebiam, na verdade, rum como parte de seus víveres para as viages. Grogue - uma mistura de rum, cerveja fraca ou água e suco de limão ou lima - foi desenvolvido para combater o escorbuto e para prevenir os marujos de ficarem completamente bêbados. Há uma certa dúvida sobre a data exata de sua criação, mas não foi antes do meio do século XVIII.
Mas, é importante observar que Xógum não foi criado para ser uma aula de japonês para iniciantes, nem mesmo um livro de história sobre o japão, mas sim uma versão romantizada de fatos históricos, e Clavell teve a polidez de inclusive mudar os nomes de todos os personagens. Além disso, apesar de muita pesquisa, estamos falando do Japão de 1600, e Clavell não era um historiador e não tinha todo o conhecimento disponível hoje para realizar suas pesquisas. Considerando isso tudo, Xógum é um excelente romance,historicamente acurado na sua quase totalidade, com alguns anacronismos aqui e ali que, de forma alguma atrapalham a leitura - principalmente daqueles que não entendem nada da língua japonesa e cujo conhecimento em detalhes ridiculamente específicos não é extremamente acurado.
Em tempo: A maioria desses "problemas" eu descobri só depois de terminar o livro e ficar extremamente interessado em algumas de suas passagens.
***** FIM DAS REVELAÇÕES SOBRE A TRAMA ******
Como notas de rodapé, deixo aqui um excelente livro intitulado Learning from Shǀgun - Japanese History and Western Fantasy, um excelente livro falando da história não só do Japão mas também da Inlgaterra, as disparidades entre história e o romance de clavell e um monte de outras coisas muito interessantes sobre o livro. Vale muito a pena ler!
E pra finalizar, apesar de eu já ter dito isso lá em cima,, reitero: leitura fortemente recomendada!
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segunda-feira, 9 de março de 2015
Xógum - Tomo 1
Depois de ler Ninja, que me agradou bastante, fui atrás de outros livros que falassem de cultura japonesa. Numa conversa sobre o assunto com o Oscar, lá da Montecristo, ele me indicou esse livrão em dois tomos enormes, de 700 páginas cada um, que é considerado uma das melhores obras em termos de retrato do Japão feudal e seus costumes.
Comprei os livros e comecei a ler o tomo um. No meio da leitura, muito divertida, alias, resolvi fazer algumas pesquisas sobre a obra e o autor. E descobri muitas coisas interessantes!
Assim, apesar dos dois livros formarem uma única história fechada - não dá pra ler um sem ler o outro - decidi fazer duas resenhas sobre a obra: essa primeira trata principalmente do autor e da 'história por trás da história' do livro, e a próxima vai falar sobre a história em si.
Primeiro, vamos conhecer o autor, porque vale bastante a pena. O senhor Clavell, antes de começar a escrever livros (e filmes), foi soldado da Royal Australian Navy. Em 1940, com 19 anos, ele foi mandado para lutar na Malásia Britânica, onde foi ferido por uma rajada de metralhadora e acabou sendo capturado pelos japoneses e enviado para a prisão de shangi, em singapura, onde ficou preso por três anos - esse evento, alias, rendeu um livro chamado King Rat. Ele acabou sendo resgatado por outro prisioneiro de guerra (que ele usou como modelo para seu personagem "King", em King Rat) e voltou a ativa no exército, como capitão. Um acidente de motocicleta em 1946 acabou com a carreira dele no exército, e o fez engressar na Universidade de Birminghan, onde encontrou uma atriz que mais tarde se tornaria sua mulher, e começou a escrever.
Bom, em 1953, ele e a esposa emigraram pros Estados Unidos, depois de Clavell já ter escrito alguns livros (dos livros dele, eu só tinha ouvido falar do Tai-Pan, mas ele escreveu mais uns 10 livros, incluindo uma versão d'A Arte da guerra do Sun-Tzu), ele começou a escrever filmes. Além de Ao Mestre com Carinho, uma adaptação do livro semi-autobiográfico de E. R. Braithwaite e outros 13 outros filmes e mini-séries (incluindo adaptações muito bem-sucedidas de seus próprios livros) ele também escreveu o roteiro d'A Mosca!
Pois é, o cara era bom em escrever boas histórias!
No caso de Xógun, em particular, Clavell criou um romance baseado em um evento real, a Batalha de Sekigahara, que deu início ao shogunato Tokugawa, que durou 265 anos e foi conhecido como Era Edo, tendo terminado em 1868 com a famosa Restauração Meiji (Samurai X, alguém?). Apesar da romantização e dos nomes terem sidos todos alterados, a maioria dos eventos refletem acontecimentos reais que antecederam a Batalha de Sekigahara, incluindo a presença de John Blacktorn, que é baseado no navegador inglês Willian Adams, o primeiro Inglês à chegar ao Japão e o primeiro ocidental a se tornar Samurai.
A pesquisa de Clavell foi tão precisa e minuciosa, que, auxiliada por sua experiência em Singapura tornaram Xógum uma espécie de enciclopédia para os costumes japoneses, na época em que foi escrito. Como estamos lidando com um protagonista ocidental que não fala lhufas de japonês e nunca tinha pisado na Terra do Sol Nascente, tudo tem que ser minuciosamente explicado para ele (e, por consequencia, ao leitor) sem requerer "forçações de barra" pra tudo ser tão explicadinho. E o livro é realmente uma aula: ensina os costumes do Japão, formas de tratamento, política, estruturas sociais pública e privada e até práticas sexuais. Além disso, Clavell cria uma trama extremamente intrincada (me tomou três semanas ler esse primeiro livro, por conta das idas e vondas que precisei dar pra entender o que estava sendo explicado, principalmente porque tem um monte de nomes japoneses pra decorar no meio do caminho (de cabeça eu consigo lembrar de uma dúzia sem fazer esforço, agora que já li todo o primeiro tomo). Dá até pra aprender umas palavrinhas em japonês no meio do caminho - o que me fez querer voltar a aprender Japonês, alias.
Enfim, acho que essa é, por cima, a história por trás da hist´ria. Na próxima resenha (daqui há umas duas ou três semanas...) vou falar da trama do livro em si. Mas mesmo só tendo lido o primeiro tomo, posso garantir que o livro é muito bom e extremamente divertido de ler!
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
A Terra Tem Espaço
Esse é mais um pequeno livro de contos de Asimov, que como sempre, explica um pouco do porque do bom doutor ser um dos grandes mestres da ficção científica.
O livro tem 15 contos, que falam dos mais diversos assuntos. Passado Morto, o primeiro conto, é uma clássica história de viagem no tempo que lida com questões políticas e sociais de maneira absolutamente brilhante - e não, não é tedioso como geralmente acontece com histórias que lidam com esses assuntos (afinal, tem viagem no tempo envolvida!).
A Cela de Bronze é um interessante conto que figura um demônio e um aspirante à cria do inferno às voltas com uma prisão de quatro dimensões. Simples e eficiente.
Sonhar pe um Assunto Particular, que fecha o livro, é uma história sobre sonhos e visões empresariais muito bem delineado. Um conto que explica muito bem porque ainda existem escritores, desenhistas, artistas e sonhadores no mundo - e porque eles sempre existirão.
Mas, definitivamente, a minha história favorita do livro é O Bardo Imortal, que nas entrelinhas fala, basicamente, que o que nos sabemos sobre a história da arte em todas as suas formas não passa de mera especulação pretensiosa. Me lembrou muito um texto que li no facebook sobre arte que era mais ou menos assim: "daí o professor ensina que o artista usou azul ali porque ele queria passar o sentimento de tristeza e solidão. E se fossem quatro horas da manhã, o vermelho tivesse acabado e o cara simplesmente quisesse terminar logo o quadro?"
Em tempo: Há muitas citações sobre o Multivac nesse livro - o multivac é o "computador definitivo" que aparece em muitas outras histórias do bom doutor, incluindo A Última Pergunta. Sugiro dar uma olhada nessa história antes de cair em A Terra tem Espaço, além de lembrar que a maioria dessas histórias foram escritas na década de 50, o que significa que computadores impessoais, gigantescos e funcionando a cartão eram, realmente, o mais provável futuro da computação.
E, é claro, não posso deixar de dizer que o livro é todo muito bom, apesar de eu ter falado só de quatro contos aqui. Vale cada linha. Leitura fortemente recomendada!
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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
Fernão Capelo Gaivota
Já escrevi algumas resenhas de livros de Richard Bach aqui no Café com Letra, e um de seus livros inclusive figura na minha lista de livros que eu mais recomendo a leitura, pra todo mundo.
Fernão Capelo Gaivota é, possivelmente, um dos livros mais famosos de Bach. Foi escrito na década de 70, e é bom manter isso em mente durante a leitura. Porque? Bom, vamos por partes.
Primeiro, essa é a história de uma gaivota, como provavelmente fica evidente no título - eu, particularmente, não tinha certeza. Uma gaivota estranha, que gosta de voar, mais do que de comer, e que na verdade é extremamente fissurada na 'arte de voar mais e melhor'. Na verdade, resumidamente, é a história sobre obsessão.
Mas também é uma história - provavelmente a primeira de muitas histórias de Bach sobre o assunto - sobre um messias. Fernão acaba se tornando uma espécie de 'avatar das gaivotas voadoras' u algo assim. Ele encontra outros desajustados como ele, ensina-os a fazer as bizarrices que ele mesmo faz e assim ajuda a espalhar a idéia de que gaivotas deveriam se preocupar mais com voar e menos com comer. Eu já mencionei que é uma história sobre obsessão?
Fernão é tão bom em praticar sua obsessiva busca pela perfeição do vôo que, eventualmente acaba sendo contactada por gaivotas celestiais, que o levam para o plano das gaivotas voadoras, ou algo assim. Lá ele encontra outras gaivotas que se dedicaram ao vôo mais do que a comida e que, assim como Fernão morreram de ianiç... Erm... Ascenderam à um plano superior, melhor dizendo, onde trocam experiências de vôo e passam o dia todo praticando. Como eu disse antes, obsessão.
Eventualmente Fernão é enviado de volta à terra das gaivotas mais realistas, digo, menos iluminadas sobre as verdadeiras razões da vida, com a missão de procurar aquelas que como ele e seus amigos possuem uma obsessão em comum na arte do vôo. É, obsessão é a palavra chave aqui também.
Sim, é um livro sobre procurar a perfeição, sobre amar o próximo e não deixar ninguém pra trás. De um ponto de vista. Eu particularmente li uma história sobre uma gaivota obsessiva que quer fazer as outras perceberem como ele está certo e não é um completo desajustado - afinal, existe um plano superior com gaivotas celestiais que existem somente pra praticar o vôo, então como ele poderia estar errado?
Mas, como eu disse lá no começo, esse livro é do começo da década de 70. Época do paz e amor, em que as pessoas tinham muitas dúvidas e poucas certezas, e messias eram interessantes. Hoje, porém, e um livro prosaico que fala sobre - adivinhem? - uma gaivota e sua obsessão por voar.
Certamente meu livro preterido de Bach até o momento. Na verdade, foi o primeiro livro dele que eu tenho que admitir que não gostei. Na minha humilde opinião, é um livro de auto-ajuda antes da auto-ajuda ter ganhado uma sessão só pra sí nas livrarias, nada mais, nada menos.
Fernão Capelo Gaivota é, possivelmente, um dos livros mais famosos de Bach. Foi escrito na década de 70, e é bom manter isso em mente durante a leitura. Porque? Bom, vamos por partes.
Primeiro, essa é a história de uma gaivota, como provavelmente fica evidente no título - eu, particularmente, não tinha certeza. Uma gaivota estranha, que gosta de voar, mais do que de comer, e que na verdade é extremamente fissurada na 'arte de voar mais e melhor'. Na verdade, resumidamente, é a história sobre obsessão.
Mas também é uma história - provavelmente a primeira de muitas histórias de Bach sobre o assunto - sobre um messias. Fernão acaba se tornando uma espécie de 'avatar das gaivotas voadoras' u algo assim. Ele encontra outros desajustados como ele, ensina-os a fazer as bizarrices que ele mesmo faz e assim ajuda a espalhar a idéia de que gaivotas deveriam se preocupar mais com voar e menos com comer. Eu já mencionei que é uma história sobre obsessão?
Fernão é tão bom em praticar sua obsessiva busca pela perfeição do vôo que, eventualmente acaba sendo contactada por gaivotas celestiais, que o levam para o plano das gaivotas voadoras, ou algo assim. Lá ele encontra outras gaivotas que se dedicaram ao vôo mais do que a comida e que, assim como Fernão morreram de ianiç... Erm... Ascenderam à um plano superior, melhor dizendo, onde trocam experiências de vôo e passam o dia todo praticando. Como eu disse antes, obsessão.
Eventualmente Fernão é enviado de volta à terra das gaivotas mais realistas, digo, menos iluminadas sobre as verdadeiras razões da vida, com a missão de procurar aquelas que como ele e seus amigos possuem uma obsessão em comum na arte do vôo. É, obsessão é a palavra chave aqui também.
Sim, é um livro sobre procurar a perfeição, sobre amar o próximo e não deixar ninguém pra trás. De um ponto de vista. Eu particularmente li uma história sobre uma gaivota obsessiva que quer fazer as outras perceberem como ele está certo e não é um completo desajustado - afinal, existe um plano superior com gaivotas celestiais que existem somente pra praticar o vôo, então como ele poderia estar errado?
Mas, como eu disse lá no começo, esse livro é do começo da década de 70. Época do paz e amor, em que as pessoas tinham muitas dúvidas e poucas certezas, e messias eram interessantes. Hoje, porém, e um livro prosaico que fala sobre - adivinhem? - uma gaivota e sua obsessão por voar.
Certamente meu livro preterido de Bach até o momento. Na verdade, foi o primeiro livro dele que eu tenho que admitir que não gostei. Na minha humilde opinião, é um livro de auto-ajuda antes da auto-ajuda ter ganhado uma sessão só pra sí nas livrarias, nada mais, nada menos.
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domingo, 8 de fevereiro de 2015
O Centauro no Jardim
Apesar de já ter ouvido falar bastante de Moacyr Scliar (particularmente depois da polêmica envolvendo Max e os Felinos e As Aventuras de Pi) esse foi o primeiro livro dele que li. É difícil pra mim resistir à um livro cujo título tem uma criatura mitológica - apesar de eu achar, antes de ler o livro, que pudesse ser apenas algum tipo de alegoria, o que me fez demorar tanto para finalmente pegar a obra.
O tal centauro não é uma alegoria, no fim das contas - ou talvez seja; falo disso mais adiante, na parte em que há revelações sobre a trama.
A história segue a narrativa de Guedali, um centauro nascido em uma família do interior do Rio Grande do Sul, mais especificamente na cidade de Quatro Irmãos. Guedali nos conta em primeira pessoa as aventuras e desventuras que passou até seu 38º aniversário, narrando ele próprio a história na forma de memória. Há uma boa dose de situações inusitadas - como é de se esperar quando estamos falando de um centauro em pleno século 20 - uma carga considerável de conteúdo sexual e vários personagens interessante -incluindo, vejam só, outras criaturas míticas!
A narrativa é rápida e ágil, bem de acordo com o que se espera de uma narrativa de memória. Infelizmente em muitos pontos há uma frustrante falta de detalhes, e algumas situações são completamente inverossímeis - mesmo quando envolvem um centauro.
***REVELAÇÕES SOBRE A TRAMA ADIANTE***
Admito que a bem-sucedida cirurgia que transforma nosso protagonista e sua esposa em humanos mais ou menos normais - e sua metamorfose subsequente em pessoas absolutamente comuns, no aspecto fisiológico - me deixou bastante frustrado. Além de considerar o procedimento absolutamente forçado - tanto quanto seria separar dois irmãos siameses que compartilham o mesmo corpo da cintura para baixo, por exemplo - tornou a narrativa mais centrada na aceitação de duas pessoas "diferentes", apesar de normais, na sociedade. Depois da viagem para o Marrocos, onde acontece a cirurgia, o livro vira uma comédia da vida privada, sem grandes atrativos, exceto pelo capítulo onde Guevali encontra a Esfinge, talvez.
Além disso o capítulo final deixa evidente que ser um centauro provavelmente era, simplesmente, uma fantasia da mente de Guedali, o que torna o livro, apesar de interessante pelo aspecto da ambiguidade, permitindo que o leitor 'escolha' o que lhe parece mais interessante (se Guedali era ou não um centauro no final das contas) muito menos um livro de fantasia e mais um livro sobre um homeme com uma fantasia. Esse capítulo final, na minha opinião, torna a obra em si muito menos interessante, dando uma 'versão mastigada' de uma possível reflexão que o leitor poderia fazer por sí só no final da leitura.
*** FIM DAS REVELAÇÕES SOBRE A TRAMA ***
Como uma nota de leitor chato no livro há referências à 'centaura' como a contraparte feminina de um centauro, o que é incorreto. Centauríade seria a expressão correta. Mas como a maioria das pessoas provavelmente não sabe disso, é absolutamente aceitável do uso 'incorreto' do termo - mas que centauríade ainda é muito mais interessante do que centaura, ah, isso é!
O Centauro no Jardim é um livro interessante, mas, definitivamente, não é meu tipo de leitura. Dificilmente vou voltar à Moacyr Scliar no futuro, mesmo que ele escreva outras obras que figurem criaturas fantásticas no título.
O tal centauro não é uma alegoria, no fim das contas - ou talvez seja; falo disso mais adiante, na parte em que há revelações sobre a trama.
A história segue a narrativa de Guedali, um centauro nascido em uma família do interior do Rio Grande do Sul, mais especificamente na cidade de Quatro Irmãos. Guedali nos conta em primeira pessoa as aventuras e desventuras que passou até seu 38º aniversário, narrando ele próprio a história na forma de memória. Há uma boa dose de situações inusitadas - como é de se esperar quando estamos falando de um centauro em pleno século 20 - uma carga considerável de conteúdo sexual e vários personagens interessante -incluindo, vejam só, outras criaturas míticas!
A narrativa é rápida e ágil, bem de acordo com o que se espera de uma narrativa de memória. Infelizmente em muitos pontos há uma frustrante falta de detalhes, e algumas situações são completamente inverossímeis - mesmo quando envolvem um centauro.
***REVELAÇÕES SOBRE A TRAMA ADIANTE***
Admito que a bem-sucedida cirurgia que transforma nosso protagonista e sua esposa em humanos mais ou menos normais - e sua metamorfose subsequente em pessoas absolutamente comuns, no aspecto fisiológico - me deixou bastante frustrado. Além de considerar o procedimento absolutamente forçado - tanto quanto seria separar dois irmãos siameses que compartilham o mesmo corpo da cintura para baixo, por exemplo - tornou a narrativa mais centrada na aceitação de duas pessoas "diferentes", apesar de normais, na sociedade. Depois da viagem para o Marrocos, onde acontece a cirurgia, o livro vira uma comédia da vida privada, sem grandes atrativos, exceto pelo capítulo onde Guevali encontra a Esfinge, talvez.
Além disso o capítulo final deixa evidente que ser um centauro provavelmente era, simplesmente, uma fantasia da mente de Guedali, o que torna o livro, apesar de interessante pelo aspecto da ambiguidade, permitindo que o leitor 'escolha' o que lhe parece mais interessante (se Guedali era ou não um centauro no final das contas) muito menos um livro de fantasia e mais um livro sobre um homeme com uma fantasia. Esse capítulo final, na minha opinião, torna a obra em si muito menos interessante, dando uma 'versão mastigada' de uma possível reflexão que o leitor poderia fazer por sí só no final da leitura.
*** FIM DAS REVELAÇÕES SOBRE A TRAMA ***
Como uma nota de leitor chato no livro há referências à 'centaura' como a contraparte feminina de um centauro, o que é incorreto. Centauríade seria a expressão correta. Mas como a maioria das pessoas provavelmente não sabe disso, é absolutamente aceitável do uso 'incorreto' do termo - mas que centauríade ainda é muito mais interessante do que centaura, ah, isso é!
O Centauro no Jardim é um livro interessante, mas, definitivamente, não é meu tipo de leitura. Dificilmente vou voltar à Moacyr Scliar no futuro, mesmo que ele escreva outras obras que figurem criaturas fantásticas no título.
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