segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Shakespeare III – uma segunda opinião

Nada melhor do que uma boa divergência. Ela nos faz discutir, argumentar, rever ou reforçar conceitos. Enfim, ela faz, na maioria das vezes, avançar. E muitas vezes é esse o caso dos autores desse blog. Divergimos, e adoramos quando isso acontece porque acaba propiciando excelentes discussões. E foi o que aconteceu com A Megera Domada do nosso querido William Shakespeare.

Já vai pra mais de mês um post que tratava do Rei Lear e da Megera, dizendo que essa última era sexista e anacrônica. Bom, essa é uma leitura possível claro, mas gostaria de apresentar outra, divergente, e um pouco mais detalhada.

Para quem nunca leu a peça – nem viu a novela o Cravo e a Rosa, que era parcialmente baseada na obra – a história é basicamente assim: um pai (Batista) só vai deixar a filha mais nova (Bianca) casar depois que a mais velha (Catarina), considerada por todos uma megera, arranjar um marido. Os pretendentes de Bianca se reúnem para achar alguém corajoso o suficiente para desposar a megera. Petrúquio, provavelmente movido pelo rico dote de Catarina e pelo desafio de domá-la, se propõe a casar com ela e torná-la uma esposa obediente e gentil. Após lhe infringir um regime de privações em que ela não dorme direito, não come bem, não ganha as roupas que gosta, tudo sob o pretexto de a estar protegendo, Petruquio parece atingir seu objetivo. Catarina encerra a peça fazendo um discurso em que afirma que os homens são reis, soberanos sobre suas mulheres e que elas, por sua vez frágeis e dependentes, devem estar muito agradecidas por ter a sua proteção e amparo.

É claro que com essa descrição geral do plot da peça o mínimo que se poderia dizer dela é que é sexista. Mas, no entanto, há alguns pontos a serem considerados que fazem diferença na interpretação de A Megera Domada. É importante dizer que ela começa com um lorde pregando uma peça em um bêbado que ele encontra dormindo na frente de uma taverna. O lorde veste o vagabundo com roupas finas, o põe num quarto ricamente adornado, faz empregados lhe servirem, o pajem se passar por sua esposa, para que ele acredite que, ao invés de um funileiro pobre, é um membro da nobreza. A peça em si, A Megera Domada, é apresentada por um grupo de atores itinerantes para entreter Sly (o vagabundo). Então, na verdade, ela é uma peça dentro de outra peça. Isso faz muita diferença para a maneira como a percebemos, já que garante à ela um status de ficcionalidade, de ação sendo representada.

Essa questão da representação, no sentido de encenação, pode ser percebida em outros momentos da peça: o jovem Lucêncio e seu empregado Trânio fingem se passar um pelo outro, para que o primeiro possa cortejar Bianca; Lucêncio e Biondello fingem ser professores para poder chegar perto de Bianca; Lucêncio arranja um falso pai para apresentar a Batista; Petrúquio finge que todas as suas ações em relação a sua esposa são feitas em nome do amor, quando na verdade é uma estratégia para domá-la; Petrúquio finge que o sol é a lua e vice-versa, apenas para que Catarina concorde com ele; Petrúquio e Catarina fingem que Vicêncio (o verdadeiro pai de Lucêncio) é uma jovem donzela, mais uma vez para confirmar que Catarina agora não questiona mais seu marido. Em todos esses exemplos vemos pessoas fingindo ser o que não são, se passando por outras, enfim, representando. O próprio final da peça, na verdade, pode também ser interpretado como uma encenação: Catarina não acredita de fato no discurso que profere, apenas o diz porque compreendeu que essa é a única maneira dela conseguir realizar o que deseja nessa sociedade dominada pelos homens.

Outro ponto a ser considerado é o comportamento das personagens femininas da peça. Além da viúva que se casou com um dos ex-pretendentes de Bianca e que aparece só na última cena, A Megera Domada apresenta apenas duas personagens femininas: Catarina e Bianca. Catarina é considerada por todos uma mulher intratável, igual ou pior do que o demônio, principalmente porque ela sempre fala o que pensa e não se importa em xingar aqueles de quem ela não gosta (por isso no original em inglês ela é chamada de shrew, originalmente um animal cuja fêmea tem um comportamento agressivo, principalmente no período do cio, em que ela ataca através de gritos estridentes). Já Bianca é tida como dócil e agradável, uma filha obediente e bondosa. Mas no decorrer da peça, Catarina, apesar de bastante opiniática e reclamona, sempre obedece as ordens de seu pai, ao passo que Bianca finge obedecê-lo mas acaba agindo conforme a sua própria vontade (tanto que se casa escondida com Lucêncio). Se analisarmos a atitude das duas irmãs e a própria transformação de Catarina, a conclusão a que poderíamos chegar não é a de que toda mulher tem que obedecer aos homens, mas sim que, ela só consegue fazer o que quer se fingir concordar com eles (fico pensando, será que isso era assim apenas no século 16? Não sei por que, mas essa idéia me soou tão contemporânea...)

É claro que a peça pode ser lida como uma ode ao poder masculino, com direito a cães de caça e falcões (metáforas recorrentes na obra), com os homens se reunindo em times e apostando em suas mulheres, como se elas fossem cavalos de corrida ou galos de rinha (como acontece na cena final). Ironicamente, contudo, eu entendo que essa interpretação acaba funcionando inversamente para os homens: as mulheres entendem essa necessidade masculina de estar no poder, então fazem eles acreditar que têm a palavra final, quando na verdade são elas que a tem.

Bom, mas essa interpretação, no fringir dos ovos, acabaria também sendo sexista, só que desta vez em favor das mulheres. A maneira, na verdade, como eu entendo A Megera Domada é que essa peça trata sobre os papéis que temos de representar ao longo da vida, seja de homem ou de mulher, pais ou filhos, marido ou esposa, algumas vezes domando, outras sendo domado/a. Muito longe de ser um manual sobre como dominar sua esposa, vejo essa peça como uma brasa que atiça um pouco mais a velha discussão sobre a relação entre os homens e mulheres, sobre questões de domínio ou igualdade. E nesse ponto, adoro o fato dela ser controversa, tão controversa a ponto de gerar um ‘post resposta’ no blog (e me motivar a escrever depois de tanto tempo).

Enfim, se me perguntarem se ela é minha peça favorita de Shakespeare, com certeza a resposta é não. Ela com certeza não tem a mesma profundidade de um Hamlet ou a crueldade de um Macbeth, nem talvez seja tão engraçada quanto outras comédias, mas acho que é toda essa controvérsia que ela gera que me fascina tanto. O fato de tu leres o discurso da Catarina, hoje, em 2011, e pensar, “não Shakespeare não podia estar falando sério?” e começar a tentar entender o que está sendo dito ali, pensando sobre questões de gênero na nossa própria sociedade, no nosso tempo, me faz querer ler e reler a peça, discutir com amigos, ver diferentes encenações dela. E me faz confirmar o que o próprio Shakespeare já parecia saber a tanto tempo, que afinal o mundo é mesmo um palco e nós meros atores.

(Ainda em tempo: sobre a tradução da Megera, entrei em contato com umas quatro ou cinco delas, tendo lido por inteiro apenas a do Millôr e a da Beatriz Viégas-Faria. Acho a tradução do Millôr sensacional. O fato dele ser humorista faz com que ele consiga recriar os trocadilhos da peça original de uma maneira que eles tenham graça para o leitor brasileiro contemporâneo, o que é bastante difícil se tu não sabe como fazer humor. Além disso a escrita é fluida e a tradução poderia perfeitamente ir da página para o palco sem muitos problemas. Gosto também da maneira como Millôr não se deixa inibir pelo peso do nome que está traduzindo e faz as suas escolhas baseados no que ele como tradutor/autor entende que vai funcionar melhor para o novo contexto da obra. Bom, na minha opinião e de acordo com o que eu considero uma boa tradução, a dele é a melhor tradução da Megera que eu li).

1 Colherinhas de açucar:

  1. Palmas!

    Essa discussão ainda vai longe, mas eu não posso discordar de nm um linha da tua análise - e, na verdade, acho que foi muito bom "te atiçar" pra que fizestes essa postagem "defendendo" a Megera! Inclusive, depois dessa argumentação, acho que vou ler a peça outra vez!

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