quinta-feira, 22 de julho de 2010

Chove


Sentada na cama, pernas cruzadas, prancheta sobre o colo, escrevo. Ouço a chuva lá fora, mansa. Gotas que caem na janela e escorrem pelo meu rosto. Gotas quentes, que esfriam aos poucos, como a noite lá fora, fria e úmida. Na verdade, para quem sentiu o frio e a umidade de onde venho, a noite de hoje parece quase de primavera, apesar do inverno já estar estabelecido.
O quarto é pequeno. A mobília, apenas o necessário para o básico: cama, estante de cabeceira, escrivaninha, uma parte do guarda-roupa. Há tão pouco de mim aqui. Tirando um quadro que eu adoro, e que por sinal é o ponto de luz do ambiente, quase não me vejo aqui, exceto pela pilha de coisas amontoadas num canto ou noutro que insistem em me perseguir, não importe aonde eu vá morar.
Mas quem sou eu afinal? Será que sou mesmo essa pessoa que quer a tanto custo se especializar, ir adiante, conhecer outros lugares, outros mundos e que se realiza com o saber, com o ir além, se superar? Mas se sou mesmo esse alguém, porque é tão doído deixar as pessoas que amo, ter que me despedir outra e outra vez, fingindo para mim mesma que não vou sentir tanta falta assim, que eu estou numa fase independente e consigo me virar bem solita?
É engraçado como as coisas são. Passei e passo a minha vida fazendo planos. Fico imaginando como o futuro vai ser, mas muitas vezes não sei nem se me encaixo nesse futuro que programo. Sei que é no mínimo contraditório o fato de que a certeza de que vou ter um futuro bom é ao mesmo tempo a total ignorância do que vai fazer parte deste futuro.
E nessas dúvidas não sei bem onde pôr as pessoas que amo. Será que tenho de estar exatamente ao lado delas para ser feliz? Então nunca poderia sair da minha terra natal, seria isto? Será que amor e razão são mesmo opostos e é tão difícil fazê-los conviver?
Sinceramente não sei. Sei que sinto falta, mas tento não pensar. Sei que prefiro o tempo em que eu sonhava e acreditava de fato em felizes para sempre, em vidas unidas por um destino, em complementos que não podem viver separados sem se sentirem vazios.
É mas parece que os contos de fadas perderam o encanto sobre mim.
Acho que tenho vivido tempo demais na terra dos humanos.

0 Colherinhas de açucar:

Postar um comentário