
Tudo que eu sabia sobre o livro The catcher in the eye, J.D. Salinger (O apanhador no campo de centeio para nós) era que muitos o consideram um clássico e que é bastante comum que ele seja uma leitura apreciada por pessoas com uma pequena tendência psicótica, tipo aqueles americanos meio sem amigos que um dia decidem pegar uma metralhadora e dar um jeito nos coleguinhas de escola (só para dar um exemplo, o cara que atirou no John Lennon, pediu que ele autografasse uma cópia desse livro no mesmo dia em que o matou).
Acontece que teve um professor aqui na PGI da UFSC que ia fazer uma apresentação sobre ele, comparando-o com Dostoievski. Bom, ótima oportunidade para lê-lo e passar a ter uma opinião de fato sobre a obra.
A primeira impressão do livro, do tipo "gente será que vou ter que aguentaresse adolescente revoltado falando goddam o livro inteiro?", foi se modificando conforme fui conhecendo mais Holden Caulfield, um guri de uns quinze anos que está naquela fase em que odeia o mundo e a todos e oscila entre a desilusão profunda e relâmpagos de entusiasmo (muito mais desilusão do que entusiasmo na verdade; para ele tudo é depressing). A narrativa inclui apenas alguns dias da sua vida, propriamente os dias seguintes aos da expulsão da sua terceira escola em que ele fica perambulando por Nova York porque não quer ir para casa.
Mas o que realmente me motivou a leitura foi que, enquanto o Holden ia se descrevendo como esse alguém que odeia o mundo e tal, ele também ia deixando transparecer que era generoso, que se preocupava e amava de verdade seus irmãos e que era extremamente sensível (sensível no sentido de se abalar demais com o mundo a sua volta, de sentir tudo demais e de não saber como lidar com isso). Acho que é exatamente essa a razão porque nos identificamos ou sentimos compadecidos com esse adolescente rebelde: porque percebemos esse beco em que ele caiu, sem ter muita culpa, e sabemos o quão penoso vai ser para ele sair de lá. E nós mesmos, uns mais outros menos, já estivemos lá e sabemos como é.
A impressão que temos quando terminamos de ler é que o narrador sabe disso e por isso quer compartilhar sua história conosco, para que talvez ela ajude quem esteja passando por uma situação semelhante. Por isso essa imagem do apanhador no campo de centeio. No capítulo 22 Holden afirma que gostaria de ser essa pessoa que ficaria na beira deum penhasco e que impediria as crianças que estariam correndo e brincando nesse campo de cairem lá embaixo. Imagem interessante como metáfora para a passagem da infância para adolescência, do campo fértil e acolhedor para o impacto da queda de um penhasco.
Pois é, agora se me perguntassem, "Marina, por que The catcher in the rye é um clássico da literatura universal?" eu diria "Boa pergunta". Apesar de ter gostado do livro, nada na narrativa me fez colocá-lo ao lado das grandes obras, daquelas que definitivamente modificaram a maneira como as pessoas lêem o mundo. Se a sua classificação como clássico se apoia apenas na aceitação pelo público, na maneira como ainda hoje (ele foi escrito em 1951) ele é um livro com vendas impressionantes, então sem problemas. Mas eu não o colocaria no meu cânone pessoal, por exemplo.
Sobre a palestra do professor Michael Katz "J.D. Salinger’s Catcher in the Rye: a Russian Perpective”, valeu muito ter ido. Ele é um senhorzinho simpático que sabe muito de literatura russa e que, enquanto dava sua palestra, se arriscava a falar uma palavra ou outra em português (e ele é americano!). O maior ponto de contato que ele apontou entre Salinger e Dostoievski foi, muito resumidamente, do The catcher in the rye com os Irmãos karamazov, a maneira como a questão do ateísmo que Dostoievski aborda muito e está presente na obra de Salinger (bom, não vou entrar em detalhes, até porque exigiria um post novo, mas quis comentar para os comparatistas que estiverem lendo irem atrás dessa relação se se interessarem).
Bom, mais um livro para lista dos "a serem lidos". Talvez o póximo post tenha ares russos!

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