
Cadeira de praia, canga, protetor solar/bronzeador, Havaianas, bermudinha, um livro de companheiro e ... o mar!
Ah, o mar! Ah quanto tempo eu não fazia isso, só sentava e ouvia o mar, vush .... como faz bem sentir essa brisa e ver essa imensidão, vush .... (respirada fundo) ai, ai, vush ....
Faz-se o cenário: canto esquerdo, atrás - um casal de senhores gringos, ela sai para caminhar, ele fica sozinho, dividindo comigo a sombrinha que uma arvorezita generosa nos cedeu; ao lado esquerdo, mais a frente - família, vô,vó, pai, mãe, cadeiras, guardasol, carrinho e ... o Henrique!, grande estrela em seus um ano e pouco, desfrutando das delícias da praia e do prazer de descobrir o caminhar sozinho, com um tombo lá e outro cá (e que claro, me deixou com cara de boba e lágrimas - que os óculos escuros felizmente esconderam - lembrando do meu afilhado amado e sua época de descobertas); duas gurias, também gringas - à direita mais a frente - que chegaram tranquilas, estenderam duas cangas, passaram bronzeador e tomaram um rico café, chips com suco de laranja, e me fizeram pensar que sim, a vida pode ser simples e boa, mesmo sem ser nutricionalmente balanceada e cuidadosamente saudável; lado direito, diagonal das meninas mais atrás - um casal meio gordito que ficou por ali, fazendo nada, pegando também um cantinho da sombra, que diminuia conforme o sol aumentava e, finalmente, um cara sozinho, que fumava um cigarro, tomava uma cerva ou gole de cachaça enquanto observava o nada e sentia um vazio, uma paz lhe invadir. Um cachorro passa a lhe fazer companhia, cachorro vadio que escolheu ficar com ele. Logo após uma mulher, parece modelo, magra, pés e mãos bonitos, fica junto dele mas parece que ele não a quer de fato ali, mesmo a olhando com olhos de desejo.
Não, essa cena não estava na areia da praia, mas era com certeza a que mais me prendia a atenção. Vinha do livro do Daniel Galera, "Até o dia em que o cão morreu", livro perturbador porque, numa escrita direta e despretensiosa, conta uma história que me é familiar demais, no linguajar de um cara de Porto Alegre, com personagens que parece que conheci, ou que sou eu mesma.
Engraçado isso. Lemos, muitas vezes, ou porque queremos nos identificar com personagens que são muito diferentes de nós, queremos ser eles por um tempo ou ao menos ver como funcionam, como pensam, ou porque queremos nos ver escritos, reconhecer que outras pessoas agem como a gente mesmo, que poderiamos estar num livro de ficção como estamos na vida real. Só que quando nos reconhecemos demais (caso desse livro), fica meio engraçado, desconcertante, sei lá. Eu poderia dizer que é porque o livro do Galera se passa em POA - o cara mora num apartamento com vista para o Guaíba e o gasômetro -, é escrito com 'bahs' e 'guri(a)' ou porque o protagonista é formado em Letras, gosta de literatura e tradução e já deu aula de inglês. Mas eu sei que não é por isso. O fato é que o livro lida com um impasse com que hora ou outra nos deparamos, uns mais outros menos (eu estou na primeira opção, com certeza): o que fazer da vida? Devemos seguir a risca o caderninho que nos diz que temos que ir para escola, depois para faculdade, mestrado, doutorado, nesse meio tempo, namorar, casar, ter filho, ir a academia, ler bons livros e cuidar da pele?
Ou isso tudo é previsível demais e faz com que sejamos robôs, tira a graça do imprevisto e reduz nossa criatividade e possibilidade de arriscar? Será que temos que chutar tudo e fazer, nada? Mas e chutar para onde e por que? Os sonhos tem a ver com o presente ou só existem num futuro que não sabemos se vai chegar? Sonho = expectativa = frustração. Putz, será que a matemática e tão direta e cruel assim? Bom, sei lá. Só sei que o filho da mãe do Daniel Galera escreveu um livro bom demais ao mesmo tempo que ruim demais e me deixou assim, nesse estado de "será?". Opa, peraí!
A senhora cordobesa (aquela que saiu para caminhar e deixou seu velhinho esperando perto de mim), de biquini grandão e antiquado, cabelo descolorido preso por um pente, acabou de vir puxar assunto, muito simpaticamente. UFa! Salva por uma conversa amena com uma senhorinha estranha.
Bom, vou pensar duas vezes na próxima vez que trouxer um livro pra praia.
Parece que aqui, a imensidão do mar deixa os sentimentos também mais imensos...

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